Fuvest 2022: Tudo sobre a obra 'Quincas Borba', presente na lista
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Fuvest 2022: Tudo sobre a obra ‘Quincas Borba’, presente na lista

Fuvest 2022: Tudo sobre a obra ‘Quincas Borba’, presente na lista

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Todos os anos a USP elege quais serão as leituras obrigatórias para o seu vestibular. A lista de 2022 conta com importantes autores e obras da literatura clássica brasileira, a linguagem usada nas obras da época pode ser um empecilho para os estudantes em seu primeiro contato com os livros. Portanto iniciar a leitura com um conhecimento prévio da história e do autor é essencial para uma boa compreensão. Quincas Borba é uma das obras que estão em seu último ano de Fuvest, porém, isso não significa que será mais cobrada ou deixada de lado, merece atenção assim como todas as outras. 

Quincas Borba
Obra Quincas Borba, na edição Clássicos para Todos. | Foto: Reprodução.

Livro Quincas Borba

O autor    

O romance foi escrito por Machado de Assis, o maior nome da literatura nacional do século XIX. Suas obras revelam uma enorme consciência crítica em relação à contraditória sociedade de sua época. Quincas Borba é um dos livros da “Segunda Fase” de Machado, que se inicia com Memórias Póstumas de Brás Cubas. Nessa fase, o autor desenvolve o que hoje conhecemos como o “estilo machadiano”, com a relativização dos valores morais, diálogo com o leitor e humor refinado, quase sempre pessimista.

Machado de Assis
Machado de Assis. | Foto: Wikimedia Commons.

Realista ou romântico?

Quincas Borba é um exemplo do sincretismo estilístico do autor. A obra, para fins didáticos, é apresentada como parte do Realismo, devido às críticas ao modo de vida da sociedade do século XIX, diferentes visões de mundo e o diálogo com o leitor. A presença de características do Romantismo é o que gera dúvidas entre os leitores acerca de sua classificação, tais dúvidas evidenciam que Machado vai além do realismo ou romantismo, transitando entre a objetividade e fantasia, perspectiva crítica e imaginação artística. 

Resumo da obra Quincas Borba

Neste livro, Machado conta a história do professor Rubião, que havia sido enfermeiro de Quincas Borba, quando este adoeceu. Ainda vivo, Borba faz de Rubião o único herdeiro de sua riqueza, com uma única condição, o professor teria que cuidar do seu cachorro, que também chamava-se Quincas Borba. O novo dono da fortuna vai então para o Rio de Janeiro. Lá, ele conhece Cristiano Palha e Sofia, que ao decorrer da história, aproveitaram-se da ingenuidade de Rubião para lhe tomar, aos poucos, todo seu dinheiro. O protagonista desenvolve uma paixão platônica por Sofia, e essa desilusão amorosa é a principal arma do casal para enganá-lo. 

O livro começa com uma técnica chamada ​in media res​, ou seja, a história começar pelo meio, quando Rubião já está morando no Rio de Janeiro e acabara de iniciar sua amizade com Cristiano Palha. Ao passo que a relação evolui, Palha começa a ter cada vez mais influência sobre Rubião, que aceita todas as ideias do amigo, mesmo que contrárias às dele. Tal comportamento evidencia a necessidade de aceitação do personagem no novo ambiente.

Outra característica importante do protagonista é a dificuldade que ele tem de interpretar as ações e intenções dos outros. Essa dificuldade é determinante para que a paixão por Sofia evolua, pois, de acordo com o próprio, ela “o amava muito”. O início real da história só é apresentado ao leitor por meio de um ​flashback no final do terceiro capítulo e dura até o 27ºDaí em diante, as “duas histórias” se encontram, e a narrativa segue dominantemente em ordem cronológica.

Ao fim do ​flashback, ocorre uma das passagens mais importantes da história, Rubião decide se declarar para Sofia enquanto os dois passeiam pelo jardim. Ela, indecisa sobre como responder sem ofendê-lo, procura alternativas para se separar do protagonista. Sofia conta o ocorrido para Palha, e juntos tentam achar solução para manter relações menos íntimas com Rubião, mas sem afastá-lo subitamente.

Rubião, por não saber se comportar na nova sociedade, passou a investir seu dinheiro no projeto de jornal de outro importante personagem, Camacho, “homem político”. Além de ser sócio de Palha em uma firma de importação, que por falta de conhecimento de Rubião, era toda administrada pelo amigo. Os sucessos financeiros de Palha fazem com que ele e Sofia ascendam socialmente e isso acaba distanciando os sócios. 

Certa vez, o protagonista chama um barbeiro para ir a sua casa. Queria parecer Napoleão e a orientação era para que o barbeiro usasse o busto que havia na casa como exemplo. Sozinho, Rubião começa a sentir-se realmente o imperador francês. A mesma loucura que fez Quincas Borba achar que era Santo Agostinho toma conta de Rubião, que a partir deste momento, oscila entre momentos de lucidez e delírio. Seus amigos, que tanto ajudou, passam a se afastar.

Palha decide internar Rubião em uma casa de saúde, pouco tempo depois, ele foge e volta para Barbacena, onde morre, coroando-se Napoleão III, depois de repetir por diversas vezes o bordão: “ao vencedor, as batatas!”. Por fim, a teoria do Humanitismo se faz presente na vitória de Palha e Sofia sobre Rubião.

Humanitismo

A teoria do Humanitismo aparece pela primeira vez em ​Memórias póstumas de Brás Cubas. Ela era uma legitimação da busca do prazer, sem condenar o egoísmo, a falta de constância, o cinismo, a superficialidade e a vaidade. John Gledson, crítico literário inglês especializado na obra de Machado de Assis, em seu livro ​Impostura e Realismo, classifica o Humanitismo como a justificativa perfeita do egoísmo. Já na história de Rubião, a teoria aparece durante o ​flashback, quando Quincas Borba a explica para o então enfermeiro, é nesse momento que a famosa frase é dita pela primeira vez: “ao vencedor, as batatas”. 

Todas as justificativas e exemplos do Humanitismo legitimam as ações de Rubião quando ainda é enfermeiro de Quincas Borba, pois se vê em conflito entre espírito e coração, entre amizade verdadeira e amizade interessada. Palha posteriormente herdará o papel de carregar essa alternância de amizades na história, com evidente inclinação ao interesse.

​Narrador

O narrador entra na mente das personagens, diz o que elas sentem e pensam, assim pode ser classificado como onisciente. Porém, ele não se mantém distante dos fatos, comenta-os, demonstrando dúvidas e hesitações, colocando em xeque o próprio saber. Por isso, a classificação que mais se aproxima desse tipo de narrador é a onisciência relativizada. Outra importante característica desse narrador é o diálogo com o leitor, que por vezes é chamado de “desorientado” e incapaz de interpretar corretamente os desdobramentos da história. 

​Tempo e Espaço

A história se passa no Rio de Janeiro e Minas gerais, entre 1867 e 1871, trata-se de uma época agitada do país, que incluiu a mudança de governo de 1868, Guerra do Paraguai e a Lei do Ventre Livre. O cenário político da época abre espaço para debates sobre a presença, ou não, de críticas ao regime vigente. Gledson acredita que há um paralelo entre a queda do Segundo Império francês e a crise do último Império da América, pois na versão em volume da obra, de 1891, o nome do protagonista muda para Pedro Rubião de Alvarenga, possível referência a D. Pedro II. Assim, Rubião seria uma alegoria: o império brasileiro que enlouquecia.

​Estilo

As obras de Machado têm um elemento central: a promoção de reflexões que vão além do Rio de Janeiro do século XIX e abrangem toda a humanidade. Reflexões pessimistas e bem humoradas, com personagens movidas pelos próprios interesses, sem margem para divisão entre bons e maus, heróis e vilões, são personagens “reais”. Essa negação a tais rótulos levam à relativização dos valores morais, pois não há “certo” ou “errado”.   

A ironia e o humor machadiano também merecem destaque, aparecem tanto em diálogos com o leitor quanto entre as personagens. Por fim, a digressão (quebra da narrativa), que interrompe o ritmo da história, tem papel importante em sua compreensão, evoluindo de termos acessórios para essenciais na obra.​

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Por Eduardo Fabrício Ferreira – Fala! ESPM-SP

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