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Futebol e sua ligação com os movimentos sociais

Futebol e sua ligação com os movimentos sociais


Por João Guilherme Lima Melo – Fala!PUC

 

O futebol não atua como uma ilha em relação ao restante da sociedade. Partindo desta observação, deve-se entender que situações como a política e a cultural de um país refletem de maneira incisiva no ambiente futebolístico. Tanto por parte dos torcedores como analisando o vestiário dos clubes, percebe-se que o que acontece do outro lado dos muros dos estádios acaba interferindo nas ações dos apaixonados por futebol.

Com isso e com base nos movimentos políticos, mas passando também pelas ações de cunho racial e de gênero, os movimentos sociais em geral sempre estiveram presentes no esporte mais popular do Brasil e do mundo. Tendo como principal expoente de manifestação no país a Democracia Corinthiana liderada por nomes como Walter Casagrande, Sócrates e Wladimir, essas ações engajadas demonstram que o futebol é muito mais do que um esporte praticado dentro das quatro linhas, e sim que o futebol é um complexo evento sociológico.

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O Racismo em Pauta

O racismo está presente em todos os locais da sociedade. Seja nas escolas, restaurantes, nas ruas, como também nos esportes, este tipo de preconceito ainda se faz presente nas atitudes de muitos grupos, mas ainda sem muitas punições efetivas a quem o pratica. No futebol, como um espaço que move massas, os ecos do preconceito racial são ainda maiores, mas isso não significa que políticas contrárias tenham a mesma força ou até mesmo a mesma visibilidade que os gritos dos racistas tem.

No esporte mais popular do mundo, o racismo é encontrado em diversas ações. As mais conhecidas são praticadas nas arquibancadas, sendo destinadas tanto a torcedores como também aos jogadores que estão em campo. No Brasil especialmente, o ano de 2014 ficou marcado por alguns casos deste tipo, como o do goleiro Aranha, que foi ofendido por torcedores do Grêmio num jogo válido pela Copa do Brasil quando defendia a camisa do Santos. Na ocasião, o time de Porto Alegre foi punido com a eliminação da competição.

Caso Aranha na Arena do Grêmio    

No início deste mesmo ano, ofensas aos jogadores Tinga e Arouca, e ao árbitro Márcio Chagas da Silva desencadearam uma onda de manifestações que reagiram contra estes acontecimentos. A CBF lançou a campanha Somos Iguais, mas sem a profundidade que não só esses, como todos os casos de racismo devem ser analisados. Outra iniciativa, esta muito mais abrangente, foi a de Marcelo Carvalho ao criar o Observatório da Discriminação Racial no Futebol, que tem como objetivo divulgar e monitorar casos de racismo e suas consequências. Em entrevista com Marcelo e com a gerenciadora do Observatório, Débora Silveira, ambos destacam a falta de representatividade do Movimento Negro dentro do futebol. Débora ainda atenta para o fato de que “muitos atletas não falam o que acham de verdade por medo de repressão no futuro, de não ter oportunidades, talvez isso explique o porquê após encerrarem suas carreiras eles falarem mais sobre o tema”, destacando em seguida a participação ativa, na atualidade, apenas do ex-jogador francês Lilian Thuram.

 

 

Mas o racismo no futebol também aparece através de outras perspectivas, estas um pouco mais obscuras para quem observa este esporte de maneira superficial. O racismo se faz presente neste esporte não apenas nos incidentes racistas, estes são a ponta do iceberg; o racismo estrutural que existe no Brasil com a falta de negros nos cargos de decisões, sejam no executivo ou no legislativo, se reproduz no futebol”, afirma Marcelo Carvalho. Ele completa o raciocínio chamando a atenção para o fato de que “não temos negros como treinadores, dirigentes, conselheiros, presidentes de clubes e mesmo como jornalistas”.

Esta última análise do idealizador do Observatório da Discriminação Racial no Futebol nos convida a ficarmos atentos com a influência negativa que a sociedade num todo tem transmitido para dentro do futebol.

As barreiras entre gênero e futebol

Que o futebol é um espaço onde as intolerâncias se propagam com maior facilidade, não é novidade para quem acompanha este esporte. O que também não é novidade, é que o machismo presente em toda a sociedade não para de pautar casos dentro do ambiente futebolístico, o que vem gerando uma série de reações, que merecem ser analisadas, entre as mulheres que acompanham e vivem do futebol.

O acontecimento recente de maior repercussão no futebol brasileiro teve como base a demissão da primeira técnica da seleção brasileira feminina, Emily Lima, o que desencadeou uma série de protestos de jogadoras, que reivindicavam um olhar mais sério acerca do futebol feminino. Em apenas 10 meses no cargo de treinadora, a presença de Emily não se restringia apenas em tratar o esporte dentro das quatro linhas, mas sim em buscar uma melhoria em todos os aspectos possíveis, e talvez essa seja uma das explicações para o pouco tempo de permanência dela na seleção. Os dirigentes, entre eles Marco Aurélio Cunha, estavam se sentindo muito confrontados com as atitudes da ex-treinadora, então a saída encontrada por eles foi a sua demissão.

Mas como colocado anteriormente, este acontecimento abasteceu uma série de reivindicações, algumas delas organizadas em uma carta assinada por importantes jogadoras do futebol feminino brasileiro como Formiga, Rosana, Andréia e Fran, que foi enviada para a CBF. A seguir, um trecho da carta enviada no dia 6 de outubro de 2017:

“Nós convidamos a CBF a trazer reformas de igualdade de gênero para o Brasil. No ano passado, a FIFA fez grandes reformas, como a inclusão obrigatória de mulheres em seu próprio Conselho, e a adição de mulheres em todos os níveis de administração do futebol. Membros como a CBF são obrigados a levar em conta a importância da igualdade de gênero na composição de seus órgãos legislativos.”

Outra importante jogadora a assinar esta carta foi a Cristiane, maior artilheira das história dos Jogos Olímpicos (incluindo o futebol masculino e feminino), com quem tive a oportunidade de conversar um pouco sobre este assunto. Ela destacou que a Emily tentou trazer da Europa uma nova maneira de se pensar o futebol em todas as vertentes, mas que o pouco tempo de trabalho interrompeu o processo que, com um pouco mais de paciência, daria uma nova cara à modalidade. Quando questionada sobre o machismo enraizado no futebol e também sobre como ela vê o envolvimento das jogadoras acerca do tema, ela analisou que “o machismo tem e a gente sabe que sempre vai existir isso no futebol, fora do futebol, mas se você tem uma união maior de atletas que queiram dar a sua opinião e consigam um espaço para isso, eu acho que as coisas podem mudar com mais velocidade.”

Cristiane Olimpíadas 2016   Fonte: CLAUDIA

Ainda sobre a carta destinada à CBF, a atacante que hoje atua pelo Changchun Zhuoyue da China, ao ser perguntada se espera que desta vez a entidade máxima do futebol brasileiro mude sua postura, respondeu o seguinte: “A gente tenta, a gente fala, mas cabe a eles colocar quem acham necessário, quem eles querem colocar. Já deixamos muito claro o que deve mudar.”

Mas a luta por igualdade de gênero no futebol está também dentro das torcidas, e muito bem representada pelo Movimento Coralinas, um coletivo de torcedoras do Santa Cruz que tem como principal objetivo o empoderamento feminino no esporte. As Coralinas “nasceram” em agosto de 2016 após uma reunião de dez mulheres no Pátio de Santa Cruz (lugar de fundação do clube), e viram o caso de estupro coletivo de uma adolescente de 16 anos no Rio de Janeiro, em maio do mesmo ano, como a gota d’água para iniciarem um debate mais profundo sobre o machismo em todos os ambientes da sociedade, inclusive no futebolístico.

Em entrevista, a Rafaela Inácio, uma das administradoras do Movimento, ressaltou a forte causa social que o futebol traz consigo, e que com isso, “dar voz às minorias é agregar, incluir socialmente”. Rafaela também se posicionou em relação a importância de se trazer a luta feminina para o futebol. “Como ambiente majoritariamente masculino, a luta dentro dos estádios precisa ser fortalecida cada dia mais. Precisamos aparecer na estatísticas, mostrar que somos atuantes e tão importantes e conhecedoras de futebol como os homens”.

Quando o machismo presente no esporte mais popular do país foi colocado em questão, a membra do coletivo deu uma resposta muito interessante: “O machismo continua impregnado em xingamentos e atitudes que, por vezes, passam despercebidas, como não lançar camisas no modelo feminino ou não dispor de seguranças mulheres suficientes para revista na entrada do estádio. Ainda é preciso uma reeducação maciça dos profissionais envolvidos neste esporte tão nobre para que ele contemple integralmente o público que o acompanha.”


De fato deve haver uma reeducação, e que ela não aconteça somente no futebol, mas sim em todos os setores da sociedade, para que quem sabe, em poucos anos, a realidade das mulheres seja totalmente diferente da atual.

O futebol em seis cores

Lá vem mais um goleiro bater um simples tiro de meta numa partida do Campeonato Brasileiro. Ao se aproximar da bola, ele escuta um grito vindo das arquibancadas: “oooh bicha”. Infelizmente essa atitude dos torcedores nos estádios brasileiros já se tornou normal, e em muitos jogos se houve não só esse, mas diversos cantos homofóbicos ecoando entre as mais diversas torcidas do país. A homofobia tomou conta do futebol, e o pior, sem um debate complexo sobre os males que ela traz, o que facilita a propagação deste tipo de preconceito num esporte que, como já colocado, tem o poder de influenciar massas.

Mas os pensamentos homofóbicos não se fazem presentes apenas no futebol brasileiro. Na Inglaterra, por exemplo, as ofensas contra a comunidade LGBT+ eram constantes, o que fez com que a Premier League, nos anos de 2016 e 2017 organizasse, junto à ONG Stonewall, que tem como principal objetivo a defesa de gays, lésbicas e transsexuais por toda a Grã-Bretanha, a campanha “Rainbow Laces” (laços de arco-íris). Dentro deste contexto, as manifestações contra a homofobia, bifobia e transfobia se deram de diferentes formas, como com a bandeira LGBT+ sendo exposta em braçadeiras de capitão, em placas de substituição e acréscimos, e também no cadarço das chuteiras de alguns jogadores, além de o maior estádio da Inglaterra, o Wembley, ter sido iluminado com as cores do arco-íris.

Estádio Wembley Raibow Laces   Fonte: METRO

Também da Inglaterra vem a primeira declaração pública de um jogador para se assumir homossexual. No ano de 1990, Justin Fashanu assumiu sua homossexualidade em entrevista ao tabloide britânico The Sun, o que ganhou ainda mais relevância na época pelo fato de também ser negro. Mas ainda falta muito para que se alcance o nível do debate ideal. Faltam mais jogadores não só se assumirem, como também se posicionarem acerca do tema para trazer à tona a discussão sobre a homossexualidade. A imprensa também tem um papel importante neste assunto, mas dada a sua capacidade de dissipar informações na sociedade, pouco se manifesta sobre os casos de homofobia, como os já citados nas arquibancadas, e dificilmente expõe um forte posicionamento frente aos acontecimentos.

No Brasil, assim como as ofensas, as principais manifestações contra os casos de homofobia vem das arquibancadas. E foi no Rio Grande do Sul, em 1977, período da Ditadura Militar, que surgiu a primeira torcida brasileira exclusivamente gay, a Coligay, que representava o Grêmio. Ela foi fundada pelo empresário e cantor Volmar Santos, que inicialmente tinha cerca de 60 integrantes, todos eles homossexuais, e que por ter sido criada durante os anos da Ditadura, sofreu ainda mais com a intolerância da sociedade.

Torcida Coligay Grêmio   Fonte: El País

Mas a Coligay não foi só importante para a época, ela também serviu e serve de inspiração para o surgimento de muitas outras torcidas que colocam em pauta a homossexualidade. Como exemplo, podemos citar a Galo Queer (Atlético Mineiro), a QUEERlorado (Internacional), e também a Alma Celeste, do Paysandu (entre outras), que mesmo não tendo a luta LGBT+ como a base da torcida, tem tido um posicionamento muito firme contra o preconceito nos estádios.

Aos poucos o futebol vai entendendo que os obscuros gritos homofóbicos devem dar lugar à diversidade, à alegria que este esporte pode proporcionar.

Os laços entre política e futebol

Como esporte de maior prestígio no Brasil e no mundo, o futebol consegue trazer para seu ambiente pautas muito importantes para um país, como a sua situação política. Não mais é possível dissociar este esporte dos acontecimentos políticos que cercam a sociedade, uma vez que todas as classes sociais estão (ou deveriam estar) presentes nos estádios e também nos debates futebolísticos. Neste ponto, devemos destacar o papel de algumas torcidas organizadas que vêm trazendo para as arquibancadas algumas ideologias políticas, discussões acerca do sistema capitalista e também sobre as intolerâncias observadas na sociedade num todo. Estas são algumas das características das torcidas antifascistas, que nos últimos anos estão conquistando mais espaço entre os diversos clubes de futebol.

No Brasil, a primeira torcida antifascista representa o Ferroviário-CE, e nasceu em 2005. A Ultras Resistência Coral teve como inspiração torcidas antifas europeias, como a  Brigate Autonome Livornesi, do Livorno (Itália), a Bukaneros, do Rayo Vallecano (Espanha), e também as torcidas do St.Pauli, time alemão muito reconhecido pelo seu caráter antifascista. Esta organizada do Ferroviário defende a ideia de que a política interfere dentro do futebol em fatores como o preço dos ingressos, fator segregador que controla quem poderá entrar nos estádios. Esta torcida serviu como exemplo para a criação da Palmeiras Antifascista, por exemplo, que além de abordar os assuntos já destacados, entende a necessidade de o futebol voltar a ser acessível, lutando assim contra a elitização deste esporte.

Em maio de 2017, estes torcedores se posicionaram fortemente contra uma declaração do volante palmeirense Felipe Melo, que afirmou ser favorável à eleição de Jair Bolsonaro para a presidência, candidato esse com histórico de propagação de alguns preconceitos presentes na população. Segundo a Palmeiras Antifascista, se dependesse dela, o volante palestrino não mais atuaria pela equipe.

Mas o debate político não se restringe às arquibancadas, e como principal exemplo no Brasil temos a Democracia Corinthiana, que na década de 1980 lutou pela democratização do futebol e pela redemocratização do Brasil, isso no período da Ditadura Militar (1964-1985). Este movimento teve como líderes os jogadores Sócrates, Wladimir e Walter Casagrande, além do apoio de figuras públicas, destacando o jornalista Juca Kfouri e a cantora Rita Lee. Como característica mais relevante, havia uma autogestão no Corinthians, onde todos dentro do clube tinham o mesmo poder de voto. Essa luta ultrapassou os muros do Parque São Jorge, e chegou às ruas, tornando assim a Democracia Corinthiana um dos principais expoentes da luta política dentro do futebol.

Outro país que se destaca pela influência política dentro do futebol é a Espanha, onde em especial dois times são importantes neste aspecto, o Athletic Club (Athletic Bilbao), e o Barcelona, que representam o País Basco e a Catalunha, respectivamente. Ambas as regiões se portaram contra a ditadura do General espanhol Francisco Franco, e até hoje possuem um ideal nacionalista muito forte em seus territórios, levando-o também para o futebol. No caso do Athletic, destaca-se o fato de que durante sua história, apenas seis jogadores que não nasceram ou se desenvolveram futebolisticamente no País Basco, Navarra ou Iparralde (País Basco Francês) atuaram pelo clube. Isso se deve a uma ideia nacionalista de que a região é por si só capaz de produzir material humano de qualidade.

Quando se trata da equipe catalã, sempre aos 17 minutos e 14 segundos de jogo a torcida do Barcelona canta “independencia”, em referência ao ano de 1714, quando ocorreu o “Cerco de Barcelona”, onde uma operação militar da monarquia espanhola aboliu as instituições catalãs. Além disso, recentemente o clube se posicionou contra a intervenção da polícia em alguns locais de votação que serviriam para definir uma possível independência da Catalunha. O clube jogou com os portões do Camp Nou fechados na partida contra o Las Palmas, válida pela sétima rodada do Campeonato Espanhol da temporada 2017-18. O Presidente da equipe, Josep Maria Bartomeu, se pronunciou sobre o assunto. “É um exemplo que o clube dá para que o mundo veja nossa desconformidade com o que acontece na Catalunha hoje”. Entre os jogadores, Gerard Pique é o mais ativo nesta questão, se posicionando sempre a favor da independência da Catalunha.

Torcida do Barcelona se manifesta pela independência da Catalunha   Fonte: IG Esporte

Tudo o que foi colocado ao longo desta matéria serviu para mostrar a capacidade que o futebol tem de absorver e dissipar todos os assuntos sociais de um país. Mas mais do que isso, todo o conteúdo desta matéria serviu para reafirmar uma colocação encontrada no início deste texto, a de que o futebol não atua como uma ilha em relação ao restante da sociedade.

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