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Funk, crime e periferia. Um papo com Mc’s e produtores

Funk, crime e periferia. Um papo com Mc’s e produtores

Por Elnatã Paixão – Fala!Anhembi

 

A possível criminalização do funk vem causando polêmica. Diante de uma proposta de lei que propunha tornar crime o segmento, o advogado José Nildo apontou que a criminalização de um estilo de música é inconstitucional, e uma vedação à liberdade cultural.

“Há quem ache que cultura é somente aquilo que lhe agrada. A lei já prevê punição nos casos em que há crime na letra, portanto não há mais o que inventar”

José Nildo 


Para o MC Recoba, que canta há 10 anos em São Paulo, o funk liberta a vontade artística, mas é preciso ter vocação. “O funk nasceu na periferia, e é o jeito para muitos de nós, moleques da periferia, fazer um som para qualquer um escutar”. O MC diz que a mídia não tem compromisso com a liberdade artística: “Estão preocupados em ganhar dinheiro em cima do funk, se o funk der uma caída o investimento cai junto”.

Questiono se os artistas teriam papel financeiro no investimento em cultura para pessoas desassistidas, ao que o MC responde que esse tipo de auxílio é papel do governo, mas que os artistas podem ajudar, sim.

Sobre o projeto de criminalização do funk: “é uma forma de censura, como eles querem controlar o que diz em uma música e não se preocupam com o porquê de se chegar naquela situação? O que aconteceu na realidade para existir aquela representação na música?”

Ressalta a importância de cantar o que o povo quer ouvir, e que sempre teve mais resultados cantando letras dançantes e putaria. Quanto à mudança de nome do estilo no tratamento pela mídia (“ousadia”, em vez de “putaria”), o cantor opina: “a mídia quer falar só das coisas que são bonitas, mas coloca um casal na cama às 8h da noite com uma pá de criança acordada assistindo.”

MC Recoba finaliza dando uma dica para os novos MC’s: “que entrem por amor ao funk. Têm muitos que entram visando o dinheiro,  mudar de vida… claro que tem que visar isso, mas muitos só querem isso e nem têm aquele amor ao funk, aí quando vê que não é tão fácil assim, desiste. Ou seja, entrou no funk só pra fazer número, atrapalha quem tá aí de verdade”. Recoba tem um canal no YouTube com mais de 20 mil inscritos.

MC Recoba em entrevista para o Pânico na Band.


O funk também lança crianças, e isso se torna motivo de crítica. O MC Du Conventi, 17, canta desde os doze. “Sempre gostei de funk, ouço desde pequeno, e quem me incentivou foi meu primo Murillo Conventi (atual empresário de Du). No início ele criticava, mas depois passou a me apoiar. Comecei a fazer letras, o Murilo gostou, e aí começou a dar certo.”

MC Du Conventi.


O cantor espera que os MC’s se ajudem para fortalecer o movimento, já que o mercado tem muito a crescer. “Antigamente, se você batesse 800 mil visualizações, estava estourado. Hoje, isso não é nada. Alguns vídeos chegam a 300 milhões de visualizações”.

Sobre a proposta de criminalizar manifestações populares como o funk: “varios estilos de música têm conteúdo assim, se fosse para criminalizar teria que fazer com todos. Mas não acredito que o funk possa ser parado”.

Murillo Conventi, dono da Som Star Produtora, acredita que não é qualquer um que pode cantar funk. Segundo ele, muitos entram no ramo atrás apenas de dinheiro ou fama, mas é preciso ter talento: “alguns têm talento e não conseguem oportunidade, outros têm oportunidade para “estourar”, mas não aproveitam”.

Sobre o projeto que pretendia marginalizar o funk, acredita que houve um exagero. Segundo Murilo, a proposta era criminalizar os bailes funk de rua (como paredões), mas a mídia retorceu os fatos: “Os bailes de rua incomodam a vizinhança. Se essa lei fosse para acabar com isso, eu acharia válido. Muitos preferem ir a um baile desse em vez de pagar quinze, vinte reais para assistir aos shows fechados.”

Questiono sobre o impasse envolvendo o conteúdo das letras, se seria uma tentativa de censura: “Não tem como, pode vir o Papa, o Presidente. Se você pegar algumas músicas americanas e traduzir, vai ver letras de duplo sentido”.

Atualmente, o empresário goza de um padrão de vida que poucos possuem.


Acrescenta que, quando o funk surgiu, ninguém dava nada e as letras eram mais simples. Vê positivamente a evolução do estilo, e relembra que os shows de funk eram só de funk, mas hoje ganhou mercado, graças às performances de artistas como Anitta e Ludmilla. O empresário toca no assunto de ascensão social e enaltece a possibilidade de mudar de vida: “o funk tira muita gente da miséria e pode evitar a chance de um menor entrar no crime. Eu tenho 22 anos, venho de família classe média, mas se não fosse a música, não seria quem sou hoje.”

Segue dizendo que boa parte dos MC’s que fazem muito sucesso alcançam cifras milionárias. Vê o processo de mudança na estrutura e nas relações do funk como uma evolução do estilo. “Hoje o funk faz parte da rotina de brasileiros que trabalham, por exemplo, e querem ouvir um som alegre ao final de semana. Tem funks que eu não ouviria perto da minha mãe, mas ouve quem quer”.

Sobre o conselho para os novos MC’s, Murilo diz que é preciso ter persistência, fé e não desistir. “Se a sua família não apoia, corre sozinho. Quando perceberem que é sério, passarão a entender e te dar apoio. O estilo não pode parar, críticas sempre existirão, independente do estilo. O funk é esperança, muda vidas. Aqui na produtora empregamos oito pessoas, são oito famílias vivendo de funk.”

O funk como porta para um bom padrão de vida.

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