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Faustão Estático: uma análise

Por: Vinicius Marques – Fala! Cásper

 

Quando eu era criança, não se zoava do Faustão como se zoa hoje.

Nos anos 2000, o Shrek era só um filme, o Goku só um anime e a Dora era só um desenho. Eu não seguia páginas da Dora, que zombam do modo idiota com que ela procurava uma raposa, que por sinal estava a dois passos dela – ao contrário, eu até a ajudava.

Para mim, um Chapolin sentado numa poltrona era só um Chapolin sentado numa poltrona.

Nos anos 2000, não se tinha essas ‘piadas internas de todos’, conhecidas popularmente como Memes – e sim as “piadas internas para todos”. Elas não nos pertenciam inteiramente, nós não as fazíamos e nem acrescentávamos nosso toque de humor a elas.

meme chapolim

Apenas reproduzíamos o que já era manjado, na escola e no bairro. E em todo lugar ouvíamos os mesmos “Antônio Nunes!” e “Ronaaaldo!”. Nessa época, o que se tinha era o Pânico!, o Zorra Total, Todo Mundo Odeia o Chris, o Crô da novela e o Se Vira nos Trinta do Faustão.

Aliás, quando começava o Domingão, não haviam adolescentes abobalhados, que gravam dois ou três snaps do rosto do apresentador, desenham corações, adicionam a suas histórias e saem da frente da TV. Afinal, o Faustão nos entregava a zoeira, mas não fazia parte dela. Pelo menos, não de modo generalizado.

faustão CAPA

Sabemos que hoje é diferente. É a tal da Sociedade do Remix. Uma sociedade onde todos acrescentam um pouco de si mesmos, modificam o alheio e compartilham o pessoal. Muito além da comédia, sabemos que o Bonner não é o único a dar sua opinião – a Ana Maria Braga e a Palmirinha não são mais as maestras das cozinhas de todo o Brasil e nem o Galvão Bueno é o principal comentarista do futebol nacional.

ana maria braga + supla

Temos centenas de jornalistas nas redes sociais – graduados ou não – que tentam influenciar nossas ideias. Diversos amigos compartilhando vídeos de receitas culinárias incríveis – acrescentando comentários pessoais ao post – assim como muitos tios Corinthianos que voltam ao “face” de domingo a domingo, comentando sobre o jogo comprado daquela tarde.

meme críticos

Quando eu era criança, uma piada feita por mim era escutada por meus pais, meu professor, e no máximo era repassada em minha sala de aula, com mais 15 sujeitos de 8 ou 9 anos de idade. Hoje, minha piada corre o risco de ser curtida por mais de 100 pessoas, comentada por umas 30, compartilhada por uns 10 e, com sorte, até uma página de humor pode repostá-la em meu nome.

A piada interna é feita por ‘todos’. Assim como a opinião pública, a política, a gastronomia, o jornalismo e o dia a dia. Não há mais um único Faustão falando sem parar, enquanto o Brasil todo o ouve calado. Há a figura de um Faustão estático; uma Globo maleável, um Chapolin congelado, uma Dora sorridente.

E acima de todos esses, milhares de dedos brasileiros criando legendas, comentários, memes e posts. Apagando o ‘para’ e substituindo por ‘de’.

É como uma piada interna sobre todos nós.

Confira também:

– Memórias de uma vida não vivida

– O Terceiro Universo e a escultura de gelo – uma crônica sobre o relacionamento humano

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4 Coment.

  1. Faustão é inigualável. Um exemplo? Assista as vídeo cassetadas com Gugu. Faustão pensa rápido, é um stand up ao vivo Todos os domingos. Não é pra qualquer um.

  2. Carai borracha, profundo essa fita. Parei pra analisar o texto e curti. Vou tentar ler algumas vezes pra tentar abstrair algo mais.

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