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Fábrica de Sonhos – Uma ONG criada por universitários

Fábrica de Sonhos – Uma ONG criada por universitários

Por Beatriz Araujo – Fala!M.A.C.K.

Jardim Graúna, Primavera – Interlagos, zona sul, 10h da manhã. Desço do ônibus com os pés meio vacilantes. Olho para o endereço anotado no bloco de notas e o nome da rua: Rua Jaime de Freitas Muniz, 26. Estava no lugar certo. Começo a subida, quem foi que disse que os altos e baixos da vida de uma jornalista se restringem apenas à carreira? Há necessidade de subir para o ônibus, descer no ponto do metrô, andar na estação, subir escadas rolantes, descer na estação, descer algumas escadas, andar até o ponto de ônibus em frente à estação, parar sob o sol não mais recomendado pelos dermatologistas, esperar. Subir para um microônibus que sobe e desce ruas largas e que, depois de uma virada, tornam-se mais estreitas. Vira à direita, contorna a esquerda. Os moradores locais conhecem bem, conversam, dão bom dia, puxam papo com o motorista. As senhoras ao meu lado falam das novidades do mercado Wandão. Mercado Wandão? É o próximo ponto! Preciso descer! Dou o sinal. E aqui me encontro, mais uma vez subindo a inclinada rua.

Minha fonte me encontra com um sorriso no rosto. Uma grande amiga. Com olhinhos cansados, mas o semblante sempre alegre, Aline Cardoso Ramalho, 24 anos e me direciona a ONG Fábrica de Sonhos. Ao entrar adquiro o mesmo semblante, sem perceber. “Gente, essa aqui é a Bia, amiga da tia!”, após a estudante de publicidade e propaganda fazer o grande anúncio, a atenção volta para mim. Sem saber o que responder apenas digo um tímido “Olá!” e em troca, recebo os mais variados sorrisos. Uns grandes, outros pequenos, meio banguelo ali por conta do dente de leite que caiu, um mais tímido,mas todos em um uníssono “Oooooi Bia!”. Sinto-me feliz. É aqui onde eu precisava estar.

Sobre a ONG

A Fábrica de Sonhos nasceu em 2014. Fruto de uma experiência vivida pela Aline e sua amiga, Janaili Fiuza, de 25 anos e atual presidente da ONG. As duas, ao entrarem em uma comunidade localizada na Viela da Conquista, no Jardim Graúna, se depararam com a seguinte situação: uma família de 10 pessoas morando em um barraco de condições precárias ao lado de um curral de bois e vacas. Diante disso, resolveram unir-se a mais três solidários a causa e, juntos, estavam dispostos a mudar a realidade daquele local.

Que resultou na construção de uma casa, entregue um ano depois, em agosto de 2015.  Apesar da maioria dos envolvidos na construção morarem na região, não conheciam bem a realidade que o local apresentava.

“E assim surgiu a ONG, quando vimos que não poderíamos mais suprir as necessidades, quando vimos que não podíamos ensiná-los a construir a própria casa tínhamos então que ensiná-los a construir os próprios sonhos”, afirma Aline.

Por dois anos, esses jovens trabalharam com as crianças e adolescentes em um campo de futebol localizado dentro da comunidade. Em julho de 2016, conseguiram um espaço de R$ 200,00 de aluguel. Após essa experiência, alugaram uma garagem, o que foi difícil no começo já que não abriam todos os dias. O local, nos finais de semana, tinha bailes funk. Para a preservação do ambiente, as minas tinham que tirar tudo do local e só colocar tudo de novo no lugar quando o ambiente estivesse totalmente seguro para as crianças e adolescentes. A quantidade de atendidos foi crescendo, assim como os bailes, ao ponto de terem que mudar urgentemente de espaço para onde estão atualmente.

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Dificuldade que a dia a dia vão enfrentando, mas que, ao mesmo tempo, tem gerado conquistas. Como uma no meio de 2017, dia 23 de julho, quando os estudantes conseguiram o CNPJ da ONG.

“Está tudo regularizado agora. Todo o projeto gira em todo de construção de sonhos, além de encorajar as crianças a sonharem, as famílias a realizarem seus sonhos através de Jesus”, declara Ramalho.

Atividades

A Fábrica de Sonhos funciona nas terças, quintas, sextas e sábado. Funciona no período contra-turno das crianças, logo, quem estuda de tarde vai de manhã e quem estuda de manhã vai de tarde. Para os adolescentes, o atendimento sempre é à noite. Tem aula de culinária, estudo bíblico, aula de violão, de espanhol, de artesanato, futebol, clube da leitura e o projeto Resgatando Valores, que é para adolescentes, em que há um diálogo sobre assunto que despertam os adolescentes a pensarem e debaterem. Tudo muito bem planejado e pensado.

A minha visita se deu em uma terça-feira. Após o estudo bíblico as crianças se deliciavam no momento de culinária, uma das atividades da ONG. E se engana quem pensa que elas não são boas na massa. Aperta aqui. Estica dali. “Não consigo enrolar a uva”, um reclama e logo vem a tia para ajudar. Explica mais uma vez. Mostra como faz, afinal, todo mundo ali é capaz. Com o sorriso no rosto elas esbanjam o lindo trabalho merecedor de um prêmio Master Chef. Em troca, admirada, elogio tamanho talento. Pode-se parecer simples, rotineiro, mas recordo que muitos ali nunca tiveram a oportunidade de comer um doce de uva em suas casas. “Comeria isso aqui todo o dia, sem cansar!”, exclama um ao experimentar seu doce. Me pego cobrando de nunca mais comer um doce sem admirar como aquela criança admira. Todos são guerreiros, são verdadeiros cozinheiros. Enxergam o sabor mais puro em um doce pequeno, nunca comido, feito pelas próprias mãos. Merecem mais que um elogio, mais que um prêmio, elas merecem um troféu para a vida.

Como é trabalhar

“Trabalhar com criança é muito desafiador. Eu vejo que a criança é a geração a quem vou deixar um legado. Tudo o que eu fizer agora vai refletir no que elas serão no futuro. A minha missão e da Jan é transformar o mundo, deixar o mundo melhor do que deixei”, admite Aline. Com essas palavras tão intrínsecas é que ela mantém como norte em um contexto em que várias crianças estão o tempo todo chamando, perguntando, falando alto, indo de um lado para o outro, rindo, retrucando… Muitas ações para uma pessoa só se concentrar. Me perco um pouco na euforia que elas refletem ao ponto de ter que parar em um cantinho e, com os olhos, seguir uma trajetória.

É uma agitação, sem dúvida. Enquanto uma está andando para lá e para cá, outra está ao seu lado chamando. A do fundo está pedindo ajuda para terminar o doce, já que a do amiguinho do lado está melhor. Outra quer mais massa. Uma diz que não consegue por a uva. Outro ri com a sensação de apertar, abrir e apertar sobre a mesa a massa que agora está fina de tanta forma sobre ela aplicada. Uma está no cantinho, tímida. Outro fala alto para todos ouvirem como é que a “tia” falou para fazer. Tudo isso ao mesmo tempo.

Não é nada que Janaili Fiuza, carinhosamente apelidada de “Tia Jan”, não tenha passado. Com mais de 10 anos de experiência ela demonstra sua garra e vontade de trabalhar com esses pequenos seja no ministério infantil de sua igreja as ruas em que fizeram parte de suas brincadeiras de criança. Estudante de pedagogia, desde muito nova era conhecida por “atrair crianças. “Desde muito nove eu chamava todo mundo da rua, chamava todo mundo para fazer aniversário para minhas bonecas [ri]”, comenta. A atual presidente da Fábrica morava na Bahia. Veio para São Paulo com 15 anos.

E mesmo sendo a fase de descobrimento, dúvidas e incertezas ela sabia em o que queria. Entrou no ministério infantil de sua igreja e por 10 anos, ficou. Agora tem seu tempo totalmente dedicado a ONG. “Está sendo um grande desafio para eu liderar a fábrica, estou aprendendo bastante. Tenho muita coisa para aprender ainda, mas ao mesmo tempo, está sendo muito bom. Estou realizada de estar aqui mesmo tendo que abrir mão de trabalhar para estar aqui. Esse ano mesmo, fiquei o ano inteiro sem trabalhar porque não tinha como, antes eu era quem dava praticamente todas as aulas mas agora conseguimos mais voluntários” afirma.

 

Mudar o mundo

Quem passa pelo portão de metal pichado e pouco chamativo, mal imagina que dentro há uma ONG movida por sonhos grandes e inspiradores de mudança, não apenas do ambiente, mas do mundo como todo. “Trabalhar com essas crianças é preparar eles agora para mudar o mundo. Essa é a fase que eles estão mais propensos a fazerem coisas erradas e a minha missão é redirecionar tudo o que eles forem fazer. Todos os valores retorcidos nós queremos mostrar para ele o que é certo, incentivar eles a correrem atrás dos sonhos, a batalharem, a casar, ter uma família, nunca desistir”, declara Aline.

A visão das meninas e clara: a criança é o futuro e a adolescente, o agora. É necessário mudar a realidade delas agindo quanto o hoje, o agora. São discursos e visões fortes. Trata-se de meninas que, juntas, doam seu tempo, e, muitas vezes, os problemas de sua vida pessoal a fim de auxiliar, ensinar e educar crianças que estão à flor da vida. Enquanto uma criança, no canto da leitura, mergulhava nas páginas coloridas de um livro, a outra, despreocupada com as coisas ao redor, brincava de bola. Não havia problemas. Não havia dificuldades que não fosse chutar a bola na direção certa. Olhava para tudo aquilo admirada, apoiando meu corpo no cantinho da parede um pouco descascada devido a tinta já gasta. É um muito espaço pequeno para um número de pessoas, mas ocupava grande número de sonhos. Tão grandes, tão genuínos. Verdadeiros.

“O meu maior sonho é ver a sociedade transformada, essas crianças sendo transformadas porque elas são a próxima geração. Elas quem vão assumir os topos, elas que vão para a política, artes… Se elas forem transformadas agora, juntos, vamos ter o poder de mudar o mundo”, declara J feliz por todo o esforço que fez junto às amigas para que a ONG se tornasse realidade.

 

Ajuda é sempre bem-vinda, com um Fini de preferência

As pessoas que ajudam a Fábrica são os amigos ao divulgar os projetos, eventos e ações. Ao comprar um Fini Tubes, por apenas R$ 1,00, ou da caixa contendo 12 unidades (R$ 12,00), o valor será inteiramente revertido para os gastos com aluguel, condução e transporte. As encomendas podem ser solicitadas tanto pelo Facebook ou Instagram da ONG. Uma ação simples que trará muitos sorrisos, não apenas às organizadoras, mas às crianças.

Sonhos e Projetos futuros

São muitos, claro. Em uma Fábrica onde produto são sonhos, não como não esperar produtos cada vez mais formosos e de quando volume. Dentre eles: Ver os adolescentes em uma faculdade, trabalhando e mudando a realidade da vida deles e da família. Outro um pouco mais distante, mas ao mesmo tempo, bem presente: construir uma ONG para pelo menos 1200 crianças e adolescentes, que tenha aulas de todos os tipos, atividade com os pais, e inserção da família.

“Sonho em alcançar outras comunidades, entrar lá e mudar a vida das crianças e das famílias, comprar um ônibus para ONG e conseguir mantenedores, pessoas mais voluntárias, pessoas que estão com a gente andando lado a lado”, diz. “E sei que mudar o mundo nunca vai ser uma utopia e o dia que eu acreditar que é uma utopia, eu não serei mais eu. Enquanto eu acreditar que eu posso, que com Jesus eu posso, eu vou continuar fazendo”, declara Aline.

Comovida, saio de onde estou. Não quero mais observar. Deixo-me levar pela alegria das crianças, me torno uma criança. Decido sentar do lado, conversar, rir e brincar. “Você vai vir mais vezes?”, uma criança me pergunta. “Vou sim!”, dessa vez, não para visitar. Minha alegria não estava sendo fiel ao desejo que surgiu em meu coração, agora, achei um novo lugar em que quero chamar de lar. Só precisava me tornar criança de novo e aprender que independente das situações confusas lá fora, toda a hora é perfeita para sonhar.

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