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“Era o Hotel Cambridge” – Melhor Filme Nacional da 40ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo

“Era o Hotel Cambridge”: o lar dos sem-teto em SP

O Hotel Cambridge, prédio situado na avenida 9 de julho, no coração de São Paulo, foi ocupado em novembro de 2012 pelo MSTC (Movimento dos Sem Teto do Centro), no ano em que completaria dez anos de abandono.

O edifício que dispõe de 15 andares e 241 quartos, hoje, serve de abrigo para cerca de 500 pessoas, dentre elas paulistanos sem condições de pagar aluguel, nordestinos, e um grande número de imigrantes desamparados pelos programas municipais: sírios, palestinos, congoleses e colombianos.

O Cambridge é o pano de fundo em que aconteceram as gravações do longa-metragem dirigido pela paulistana Eliane Caffé, cineasta que produziu trabalhos como “Narradores de Javé” (2003) e “O Sol do Meio-Dia” (2009). A autora passou 2 anos se acomodando e conhecendo o funcionamento do ambiente ocupado. Além disso, o longa contou com ajuda voluntária da Escola da Cidade na direção de arte.

“Era o Hotel Cambridge” é classificado como ficção, porém, pode ser facilmente confundido com um documentário. Isso porque além da construção das cenas e das técnicas de gravação que em alguns momentos lembram as usadas por documentários, muitos personagens do filme são moradores da ocupação e atuam no filme representando eles próprios.

Temos a perspectiva do dia a dia dos habitantes do edifício num contexto de ameaça de reintegração de posse. É fascinante a maneira como é mostrada a vida dessas pessoas, que vivem privadas de direitos básicos como a moradia e que convivem à margem da sociedade. A filmagem acontece quase completamente no ambiente de clausura do edifício.

Como um organismo vivo, a comunidade que se forma ali naquele edifício vizinho ao Vale do Anhangabaú, é uma pequena cidade dentro da metrópole. A mistura cultural que acontece entre os corredores impressiona. Os ocupantes brasileiros e os refugiados convergem no ponto em que todos estão à procura de uma vida digna, seja fugindo da pobreza, seja fugindo da guerra. São refugiados imigrantes no Brasil e refugiados brasileiros no Brasil.

Entre cenas românticas, bem-humoradas e carregadas de bagagem cultural e social, o teor impactante do filme, além é claro, do tema em si, fica por parte dos momentos de conversa dos refugiados com suas respectivas famílias. Um dos refugiados do Congo e um da Palestina filmaram cenas em que conversam via Skype com seus verdadeiros parentes. No Congo fala-se sobre a guerra civil, enquanto que na Faixa de Gaza falam sobre a destruição causada pelos misseis israelenses.

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Lili Caffé passa todo o longa fazendo com que você se sinta parte daquela pequena comunidade. Faz com que se acostume ao cotidiano que dita os dias dos habitantes subjugados pela sociedade, e no final você se envolve de tal forma que é revoltante assistir aos momentos mais aflitos em que o despejo se aproxima.

Mais revoltante ainda, é assistir a cena em que são mostrados os comentários dos internautas que assistem ao vlog dos sem-teto do Hotel Cambridge.

O filme retrata com primazia a realidade e a violência da sociedade e do Estado contra os sem-teto em SP. Também mostra como funciona e se articula um dos movimentos que mais crescem na metrópole paulistana, que promove a ocupação de espaços por famílias e imigrantes desamparados que viram os seus serem tirados à força.

Clique AQUI e acesse a página do filme no Facebook.

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Por: Giulia Villa Real – Fala!PUC

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