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Entrevistamos Os Dois Lados do Impeachement – um integrante do movimento Vem Pra Rua e um militante do PT !


No cenário de crise atual, falar sobre política tornou-se ainda mais importante. O Fala!MACK entrevistou os dois lados da moeda quando se trata de impeachment. Julio Lins faz parte do movimento Vem Pra Rua, enquanto Pedro Moura, estudante de economia da PUC e professor de História, faz parte dos militantes do PT. Confira:

– Julio Lins:

Fala!: Há quanto tempo você faz parte do movimento Vem Pra Rua? E quais são as ideologias que o grupo defende?

J.L: Faço parte do movimento Vem Pra Rua há cerca de um ano, mas sou ativista desde o final de 2014. Em outubro, tornei-me porta-voz nacional, ao lado de Rogério Chequer. O movimento tem três pilares: desinchaço do Estado – isto é, um Estado menor e menos burocrático -, combate à corrupção – independentemente do partido político – e renovação política.

Fala!: Como você analisa a situação política do país?
J.L: O momento político é de consolidação da cidadania e da percepção de que é possível combater a corrupção e a impunidade.
A sociedade civil organizada, com destaque a movimentos como Vem Pra Rua e MBL, bem como as instituições brasileiras, fortalecem-se. Procuradores, juízes, delegados e policiais encorajam-se com o apoio da opinião pública.
Por tudo isso, com o sucesso da operação Lava Jato e do julgamento da ação penal 470 (Mensalão), costumo dizer que, com muito orgulho, faço parte da geração que desconhece a impunidade.

Fala!: Como você vê as últimas ações de Lula e Dilma em relação as delações premiadas e aos julgamentos da Lava Jato?

J.L: A Operação Lava Jato, que conta com o protagonismo de Sérgio Moro, Deltan Dallagnol, e outros importantes operadores do Direito, vêm mostrando que ninguém está acima da lei. Valendo-se deste princípio, que outrora esteve somente na letra da lei, mas distante da realidade, Dilma Rousseff e Lula vêm sendo levados para o centro das denúncias de corrupção.
Por um lado, a presidente vem sendo acusada de ter sido eleita com dinheiro de caixa 2 e – pior – com doações teoricamente legais, declaradas ao TSE, porém, com dinheiro oriundo de propina paga pelo governo a empreiteiras como a Camargo Correa e Andrade Gutierrez, cujos executivos prestam delação premiada.

Já Luis Inácio Lula da Silva é acusado de ter ocultado seu patrimônio, com imóveis como o triplex no Guarujá e o sítio em Atibaia. É ainda acusado de ter recebido, de empreiteiras, propina velada por supostos pagamentos de palestras milionárias em troca de tráfico de influência.
Constata-se, desta forma, que uma está à beira do impeachment ou da cassação. O outro, da prisão e da inelegibilidade.

Fala!: Com participação nas últimas manifestações, qual é a importância do povo ir às ruas?

J.L: Como dizia Ulysses Guimarães: “a única coisa que mete medo em político é o povo na rua”. Após realizarmos as maiores manifestações da história do Brasil, fica claro a força que tem o povo. Aprovamos o impeachment com 367 votos favoráveis, 25 a mais que a expressiva maioria qualificada prevista na Constituição.

É preciso, no entanto, persistir na cidadania, que vai muito além da participação em manifestações. É preciso se ter em conta o voto consciente, a utilização das redes sociais para pressionar políticos (destaque para o Mapa do Impeachment, criado pelo Vem Pra Rua), e o acompanhamento do mandato do parlamentar por seu eleitor.

Fala!: Qual é o papel da mídia nesses momentos de crise?

J.L: O papel da imprensa é fundamental para informar a população a respeito do momento político crítico que estamos enfrentando. Infelizmente, com um noticiário que mais se assemelha a House of Cards, tornam-se mais constantes as notícias falsas e mal-intencionadas. É essencial, portanto, que o jornalismo comprometido se sobressaia, a fim de buscar e entregar a informação da forma mais profissional possível.

– Pedro Moura:

Fala!: A quanto tempo você é militante do PT? E quais são as ideologias que o grupo defende?
P.M: Milito no PT há, mais ou menos, dois anos. Sempre me identifiquei como sendo “de esquerda”. Na USP (onde curso História) sempre me senti frustrado com os grupos de juventude e de esquerda que se apresentavam; foi aí que conheci o PT.
O PT é um partido de tendências, ou seja, existem, dentro do partido, diversos grupos diferentes que disputam o controle desse partido. Assim, apesar de muitos pontos em comum, é impossível caracterizar o PT com uma única ideologia. A corrente de qual faço parte no PT chama-se Articulação de Esquerda. Somos uma das últimas correntes Comunistas dentro do partido (Comunismo aqui entendendo como a ideologia que acredita na superação do Capitalismo mediante um processo denominado Ditadura do Proletariado). Isso não significa que propomos pegar em armas e destruir o status quo; acreditamos que não existe, no atual horizonte, um momento revolucionário.

Fala!: Como você analisa a situação política do país?
P.M:Vivemos em uma situação Política crítica.
Em primeiro lugar, vivemos uma crise econômica propiciada por uma crise mundial do capitalismo e por erros cometidos ao longo dos governos anteriores (inclusive governos do PT, dentre os quais merece destaque o processo de desindustrialização que os governos Lula e Dilma aprofundaram) que redundaram, primeiramente, em uma crise fiscal.
Esse problema econômico pelo qual passávamos se agravou de forma brutal quando o segundo mandato de Dilma passou a adotar o programa econômico sintetizado pela ideia do Ajuste Fiscal, o qual, por sua vez, minou com a capacidade de investimento do Estado brasileiro transformando um problema fiscal em uma grave crise econômica.
No entanto, e mais importante, diante desse problema econômico a oposição passou a se articular de forma a destruir o governo do PT. Daí que, se valendo de uma crise econômica, a oposição joga a todo instante gasolina no fogo de forma totalmente irresponsável, com o país em prol de seus objetivos próprios: a saber, tirar o PT da presidência da república.

Fala!:Como você vê as últimas ações de Lula e Dilma em relação as delações premiadas e aos julgamentos da Lava Jato?
P.M: Tirar o PT da presidência só é possível, constitucionalmente, com alguma espécie de precedente jurídico. Em um primeiro momento, de forma totalmente hipócrita, a oposição tentou o impeachment por meio das pedaladas fiscais (realizadas por cada governo e cada prefeitura desse país; tirar Dilma por esse fato significaria acabar com todos os mandatos atuais). Diante da fragilidade do argumento a oposição, articulada a importantes setores do capital (FIESP por exemplo) ou ao judiciário, passou a partidarizar a operação lava jato de forma explícita.
A Operação Lava Jato, em teoria, deveria investigar os casos de corrupção da PETROBRAS. A Corrupção, estrutural no Estado brasileiro desde quando a ditadura militar passou a estabelecer relações promíscuas com grandes empresas passou a ser vista como sendo consequência de um governo moralmente corrupto, o do PT.
A atuação do Juiz Moro é um absurdo gritante: seus métodos (delação + vazamento) são os mesmíssimos utilizados pelo tribunal da santa inquisição; a presunção de inocência é jogada no lixo e é aceito o linchamento público (na Idade Média o delatado devia provar sua inocência e, não sendo capaz, deveria participar de uma humilhação pública para “purificar” sua alma).
Assim, a reação de Dilma (uma presidente da república grampeada sem nenhum mandato jurídico por um juíz de baixo cargo hierárquico!) foi, infelizmente, pequena diante do absurdo que acontece hoje no país; a presidente demorou em agir contra uma operação que, notoriamente, não é mais técnica, mas um ataque a um partido político.

Fala!: Com participação nas últimas manifestações, qual é a importância do povo ir às ruas?
P.M: A importância do povo ir às ruas contra o Golpe (impeachment sem base jurídica) são duas.
Primeiro, a queda de Dilma não representará uma melhoria econômica. Ao contrário, para as camadas mais baixas, haveria um imenso retrocesso. Para constatar isso basta ver o programa do PMDB “Ponte para o Futuro” que, em síntese, flexibiliza direitos assegurados na constituição de 1988 (saúde como direito garantido pelo Estado).
Segundo, as manifestações contrárias ao golpe assumiram um novo papel: se transformaram em verdadeiras manifestações pelo direito democrático e contrárias a grupos que destilam ódio e promovem, abertamente, apologia à violência e apoio explícito à ditadura militar. Não digo que todos que vão às ruas compactuam com esse ódio, mas aceitam, de bom grado, estar ao lado desses grupos. Já dizia o ditado “diga-me com que andas que te direi quem és”.

Fala!:Quais são as perspectivas para os próximos atos?
P.M: Acredito que os próximos atos devem manter essa nova tendência. Amplos setores mobilizados contrários ou não ao golpe contra Dilma. Porém, existem alguns elementos que podem modificar o andar da carruagem.
Uma prisão de Lula, algum ataque em maior escala da extrema direita (não controlada pela grande mídia) ou qualquer coisa que ameace a ordem social pode levar a uma escalada de violência no país. Os grupos golpistas, em sua imensa maioria, não o querem. No entanto, os meios que operam para atacar o PT (judiciário, uso inconsequente de grupos de extrema direita) muitas vezes fogem ao seu controle; nesse caso viveríamos uma situação imprevisível..,

Fala!: Qual é o papel da mídia nesses momentos de crise?
P.M: Quando falamos em Grande mídia parece que trata-se de uma conspiração. Não é. O Grupo Marinho é hoje a principal fortuna no País. Mais do que o dono de qualquer empresa. Assim, representando determinado grupo social, os Marinho e os outros barões da comunicação não agem enquanto jornalistas, mas enquanto atores políticos unicamente. Tal posicionamento determina qual caso será divulgado, com que palavras será divulgado, como serão cobertas manifestações.
Divulgado pela grande mídia, dia após dia, é o caso de Lula. Sempre que mostram Lula na TV ele está gritando, com uma cara feia. FHC está sempre vestido impecavelmente e falando de forma pomposa. As manifestações pró Dilma são tratadas como feitas por vagabundos, às contra são por cidadãos de bem. E assim é criada, através de um bombardeio diário de informações, uma imagem do que são os governos do PT.
Portanto, a grande mídia é, com certeza, o principal agente do golpe pois, com seus meios, consegue convencer às pessoas de algo que lhe interessa sem, necessariamente, emitir uma opinião de forma explícita.

CAPA

Por: Elizabeth D’andrea e Isabela Moya – Fala!M.A.C.K

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