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Entrevistamos o Carlos Henrique Latuff !

Entrevistamos o Carlos Henrique Latuff !


 

Confira a nossa entrevista com um dos maiores chargistas do Brasil.

 

Carlos Henrique Latuff é o nosso entrevistado de hoje.

Cartunista e ativista político, Latuff é mundialmente reconhecido por suas charges, que carregam mensagens sobre a palestina, o imperialismo, a guerra, a desigualdade social e outras tantas questões que perturbam o seu sono.

Para saber mais a seu respeito, resolvemos enviar uma mensagem inbox para ele no Facebook, e ele topou a ideia de nos responder algumas perguntas. Confira:

FALA!: Eaí Latuff! Obrigado pelo seu tempo e pela sua generosidade em nos responder.

Na Wikipedia está escrito que você começou seu trabalho de ilustrador numa agência de publicidade. Você curte o trabalho publicitário? Ainda trabalha nessa área?

C.L: Realmente eu trabalhei numa agência de publicidade, no ano de 1989. Eu não trabalho mais na área, e curto o trabalho publicitário do ponto de vista de vender produtos, conceitos e ideias – mas ao mesmo tempo me preocupa o tipo de produto, de ideias e de conceitos que são vendidos às pessoas. Eu acho que a publicidade pode ser muito perniciosa, ela pode reforçar preconceitos, como nas propagandas de cerveja.

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Carlos Henrique Latuff.

 

FALA!: Como você enxerga o cartoon e o seu modo de formar opinião?

C.L: No meu caso eu não faço cartoon, eu faço charges com crítica política, e cartoon é para crítica de costumes.

Eu acho bacana a capacidade de síntese, de expressar uma questão política complexa, de sintetizá-la, simplificá-la, ou muitas vezes exagerá-la, para facilitar o entendimento do público sobre determinado assunto.

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FALA!: Sempre que você publica um trabalho, principalmente em grandes meios de comunicação, como você lida com as diversas interpretações do público?

C.L: Eu geralmente não publico em grandes meios de comunicação aqui no Brasil. Lá fora [no exterior], por variados motivos, a grande imprensa reproduz as minhas charges – como quando aconteceu a tragédia do Charlie Hebdo.

Quando aconteceu a tragédia da boate Kiss, por exemplo, eu fiz um trabalho muito cuidadoso, para que não agredisse os parentes das vítimas. Inclusive, eu tive contato direto com os parentes das vítimas, justamente para ter essa compreensão de qual charge poderia ajudá-los ao invés de prejudicá-los. O chargista precisa ter uma preocupação sobre as possíveis interpretações errôneas do seu trabalho.

Por mais que o trabalho seja bem focado, sempre haverá interpretações erradas sobre o trabalho do chargista.

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FALA!: Sobre a palestina – o que você acha que seria a solução para acabar com os conflitos da região? Acabar de uma vez com um dos estados, ou dividir o território em dois estados?

C.L: Sempre me perguntam isso, sobre o que eu acho que seria a solução.

O que eu realmente acho que deve ser levado em consideração é: quem ganha com a guerra entre os dois estados?

O estado de Israel acabou de assinar um acordo com os Estados Unidos de 38 BILHÕES de dólares – sendo este um acordo militar. Então, enquanto Israel tiver seus inimigos – ou enquanto ele cultivar essa ideia de ter inimigos – ele consequentemente irá receber dinheiro dos Estados Unidos sob o argumento de que precisa se proteger contra esses “malvados árabes”.

Aqueles que acusam os estados árabes de serem inimigos, são quem come nas mãos de Washington.

Então a resposta para a questão é: quem mais ganha com a guerra é Israel, e não os palestinos. E quem sairia perdendo com a paz, seria exatamente o estado de Israel. Eu acho complicado você atingir a paz na região da palestina porque Israel não tem o menor interesse de fazer as pazes, até por que ele ganha com isso – é lucrativa a ideia de que o inimigo seja o palestino, seja o Hezbollah, seja o Irã.

É isso que justifica os bilhões de dólares que os americanos mandam para eles.

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FALA!: Fomos dar aquela stalkeada no seu Facebook e nos deparamos com algumas charges que retratam o sexo, o comportamento e algumas espécies de fetiches. Você sempre curtiu trabalhar essa temática? Ou é algo que está experimentando agora?

C.L: Eu acho que é uma maneira não apenas de retratar os meus gostos, mas também uma forma de me ligar à eros, já que o meu trabalho está sempre muito ligado a thanatos – ou como Froid diria – a porção de morte.

O que eu mais retrato nas minhas charges são guerras, tortura policial ou racismo, enquanto a minha arte erótica é justamente uma maneira de poder estar ligado à uma porção de vida.

É curioso como isso causa uma espécie de estranheza no meu público, que espera de mim apenas charges, e não artes eróticas.

Às vezes as pessoas pensam que, pelo fato do sujeito retratar os direitos humanos e os movimentos sociais, ele também não trepa, né? Ele não tem vontades, desejos ou fantasias.

Eu acho bem saudável e didático, até para o meu próprio público, para perceber que eu também sinto a arte de uma outra maneira, e não somente a arte pela representação da dor ou da morte, mas também pela representação do prazer, do gozo.

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FALA!: Já causou alguma polêmica ao retratar este assunto?

C.L: Sim, já causei polêmica. Meu trabalho em relação às artes eróticas já foram alvos de ataques virulentos por parte de segmentos feministas, além de setores reacionários e conservadores.

Na verdade não apenas as charges eróticas né, mas o meu trabalho em geral já foi alvo de todo tipo de segmento – tanto os da esquerda quanto os da direita.

É curioso como esses movimentos da esquerda e da direita se afinam quando a questão é o patrulhamento ideológico.

Tem sempre alguém tentando me dizer o que eu tenho, ou o que eu não tenho que desenhar, sendo que isso nunca funcionou e nunca vai funcionar comigo.

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FALA!: Um trabalho muito legal e recente foi a sua participação e o seu cartoon sobre a restrição de alunos cotistas – negros e indígenas – na UFRGS. Como foi acompanhar os estudantes nessa luta contra a reitoria?

C.L: Sobre este caso da reitoria, eu nunca tive um contato maior com eles. Eu apenas fui lá fazer um registro porque eu achei importante, já que a questão desse retrocesso em relação às cotas na UFRGS é uma coisa muito perigosa, e que se funcionar e der certo, vai se espalhar pelo Brasil todo.

Por conta disso, eu quis dar minha contribuição nessa discussão, e principalmente alertar o perigo que estão sofrendo as políticas de cotas nas universidades.

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FALA!: Na sua opinião, um bom cartunista deve estar em dia com a realidade? Nas ruas, conversando com as pessoas e participando ativamente do cotidiano da cidade e da população?

C.L: Eu acho que um chargista (ou cartunista) deve se cercar de todo tipo de informação. Eu vou muito pela vivência, nessa coisa de acompanhar de perto, que eu acho que faz muita diferença.

É claro que hoje em dia as redes sociais ajudam muito né, dá pra se informar bem por meio delas, mas eu diria que para o chargista conseguir seu trabalho de forma mais precisa, ele tem que ver as fontes dos dois lados e procurar o que está no meio.

Não é nem o preto e nem o branco, mas sim o cinza, do meio.

Na questão da Síria, por exemplo, não dá pra abraçar apenas um dos dois lados, mas dá pra olhar no meio disso, que pode esconder uma informação mais precisa do contexto.

É difícil, dependendo do assunto é muito complicado você obter uma opinião menos tendenciosa.

Eu, por exemplo, prefiro escolher um lado. As minhas charges se posicionam e eu deixo isso muito claro.

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FALA!: Vi algumas charges de sua autoria ironizando o moralismo do Facebook em relação a censura que eles implantaram no sistema da rede social. Você já teve seus trabalhos censurados em algum post? Se sim, qual era o conteúdo, e o que eles alegaram?

C.L: Olha, o Facebook tem se notabilizado pela censura. Já fui suspenso da rede social por alguns dias, inclusive.

Teve até um movimento denunciando a censura do Facebook com relação a páginas que, supostamente, faziam apologias ao terrorismo. Este argumento tem sido utilizado para silenciar páginas pró-palestinas dentro da rede social.

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Fora isso, você tem os moralismos de sempre, né. Aparecer um seio no Facebook é motivo de censura, mesmo que seja uma mãe amamentando seu filho.

É uma pena ver que o Facebook vai na contramão da própria internet, na contramão da liberdade de expressão.

Um dos meus trabalhos censurados foi de uma arte erótica, que retratava um ménage entre dois homens e uma mulher.

Eu publiquei, mas o conteúdo foi removido e eu fiquei banido por três dias. Daí eu voltei a publicar, só que tive que cobrir a mulher.

Isso me lembrou o artista Goya, que pintou A Maja Nua e depois A Maja Vestida, só que isso foi há séculos atrás, e isso que aconteceu comigo foi agora, em 2016.

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FALA!: o que você tem a dizer depois dessas eleições para a prefeitura?

C.L: Cara, podemos destacar a rejeição pelo PT, e principalmente a rejeição pela esquerda, que eu acho que foi o maior dano que o PT poderia ter causado ao associar a esquerda à corrupção, aos desvios e a roubalheira de modo geral.

Eu acho que no caso de São Paulo, o governo do Haddad não foi ruim, não foi catastrófico, mas o fato dele ser do PT traz essa imagem negativa.

Qual é a opção de esquerda que o eleitor tem? O PSOL tem se colocado nessa posição, mas ainda assim ele traz muitos vícios do PT, até porque é um partido que nasceu de parlamentares do PT. O PSOL não é um partido de base, como o PT é.

Em pleno 2016 o Brasil ainda continua sendo o país de currais eleitorais, de coronelismo. Nós ainda somos uma oligarquia atrasada, as coisas ainda são controladas pelas famílias e pelos feudos.

Você vê isso até no caso da própria imprensa, que continua na mão de famílias.

A impressão que se tem, é de que ainda não saímos daquele Brasil em situação de colônia – a senzala e a casa grande tomaram contornos diferentes, mas ainda existem com a mesma lógica.

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FALA!: Para fechar – pode nos responder um bate-volta ?

Uma banda – Bee Gees.

Uma cor – Vermelho.

Um vício – café com leite e biscoito Maria (de preferencia da marca Panco), servido num copo e comido com uma colher de sopa.

Uma referência dos cartoons – Eu não tenho só uma, mas posso citar o Naji al-Ali.

Um país – Marte.

Por: Marcelo Gasperin – Fala! Universidades

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