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Papo de Conteúdo – Entrevista com Marcelo Tas

Marcelo Tas é um fenômeno da comunicação brasileira. Presente na televisão desde 1983, quando encarnou o indiscreto repórter Ernesto Varela, o diretor, jornalista, apresentador de televisão, escritor, ator e roteirista tem muito a ensinar. O Fala! foi ao escritório do Torcedores.com.br em São Paulo para bater um papo e colher dicas preciosas com o homem que participou de alguns dos melhores projetos da comunicação brasileira das últimas décadas. Olha isso!: 

Foto: Rodrigo Fuzar

 

Fala!: O que é essencial na formação de um comunicador contemporâneo?

Tas: O essencial para um comunicador é ler. Você melhorar o seu vocabulário, ler bons livros, escolher livros que você goste de ler, é a coisa mais essencial que existe. Não basta o livro ser bom, você tem que ter prazer na leitura, porque a gente está caminhando para um momento onde a nossa atenção vai ficando muito dispersa e treinar a disciplina de ler um livro, mergulhar em um romance ou uma biografia, é uma prática que todo comunicador deve ter. Todo comunicador deve ter esse esforço disciplinado de percorrer livros importantes na formação de uma pessoa.

E, depois disso, vem a curiosidade. Exercitar a curiosidade é você observar as coisas ao redor, as pessoas, os lugares… Ser alguém que a rua seja o seu lugar, e não ficar o dia inteiro atrás de uma tela. É muito importante você ouvir, estar atento a como as pessoas estão andando, se vestindo, consumindo ou não consumindo. São essas duas coisas, a observação e a leitura.

Fala!: Como você faz esse equilíbrio de estar antenado nos acontecimentos, se fazer presente em diferentes mídias e se dedicar a suas leituras?

Tas: Para fazer o que eu faço, eu dependo muito desse tempo lendo, estudando e pesquisando cada vez mais. No mundo que a gente vive tem muita oferta de conteúdo, muita gente oferecendo histórias. Para você oferecer uma história que valha a pena, você precisa se aprofundar nos temas que você vai contar. E aí você precisa estudar, ler, conhecer as coisas, senão você vai ficar só repetindo o que todo mundo já está publicando, ou vai dar uma garimpada em uma notícia que todo mundo já publicou.

Eu vejo a época que a gente vive, cheia de plataformas e possibilidades, como uma era em que a qualidade do que você produz é o que vai ajudar você a se destacar e ser um comunicador de sucesso.

 

Fala!: Como você faz para se reinventar e se manter perto dos jovens?

Tas: Você não pode ter medo do desconhecido, na vida da gente e principalmente no início da carreira. Quando se está saindo da faculdade, a gente passa por momentos de muito medo do desconhecido. E é justamente nesses momentos que acontecem as oportunidades de você se renovar. É engraçado porque parece que a gente foi educado a evitar esses momentos, a viver em um mundo previsível, confortável, onde você tem uma carreira já com 13º, plano de saúde, e isso não ajuda muita na sua reinvenção. Eu nasci com esse defeito de fabricação. Por incrível que pareça eu nunca fui funcionário de uma empresa, nunca tive carteira assinada, sempre trabalhei por projetos, por coisas que me movem. E isso me ajuda muito a me renovar, porque cada vez que eu inicio um projeto, sou obrigado a largar um monte de coisa que eu sei e tenho que aprender outras.

Igual aqui neste lugar que a gente está, o Torcedores. É uma plataforma de esportes que não é uma televisão, não é uma rádio ou um jornal, é uma coisa muito diferente de tudo que eu já fiz, então de novo eu estou aqui aprendendo um monte de coisas e sendo obrigado a me renovar, a me reinventar.

Fala!: Qual a diferença do universitário de hoje para o universitário de outras décadas?

Tas: Eu creio que o principal não muda muito, o que é bom. Eu acho um papo furadíssimo esse negócio de que os jovens de antigamente eram mais rebeldes, na época da ditadura, da tropicália. Eu acho que o jovem sempre vive uma época muito propícia à invenção, à criatividade, a fazer coisas que ainda não foram feitas. Cada geração descobre seu jeito de fazer as coisas. O que é importante dizer é que não se deve perder essa chance de fazer coisas que não foram feitas, coisas inesperadas. É justamente quando você está vivendo esse momento de transição – em que você está na faculdade e ainda está tateando a vida profissional -, é nesta hora de você deve fazer as coisas que você acredita, que você curte, que não foram encomendadas. É nessa hora que você vai criar sua identidade. Se você nessa hora jogar na defesa, você vai repetir coisas que já foram feitas e perder a chance de dizer o que você gosta. Vale a pena arriscar fazer coisas que não foram feitas, que você acredita, que você gosta e você tem uma boa chance de continuar fazendo aquilo pro resto da vida e ser remunerado por isso inclusive, o que é mais mágico ainda! Ter uma vida profissional alinhada com o seu coração, com o que você acredita e viver disso. Acho que é o que todos nós devemos buscar.

Fala!: Quem não metrifica a audiência de forma detalhada e precisa vai ter problemas no futuro?

Tas: É importante ter preocupação com resultado, mas o ponto de partida nunca deve ser o resultado, deve ser “como eu vou contar essa história”. Isso inclui ouvir e entender a sua audiência, pra quem eu estou contando essa história. O resultado realmente é uma coisa que não tem como a gente ter controle. Se você pegar o Spielberg, que talvez seja o cara que mais teve resultado até hoje no cinema, ele e o George Lucas, com certeza você vai encontrar filmes que eles achavam que iam arrasar na bilheteria e não arrasaram, e outros que eles não achavam que iam e arrasaram. Então o momento que a gente vive das métricas é muito importante, é claro, mas isso não pode desviar o foco de você entender a sua audiência, ouvir sua audiência, saber pra quem você está falando e se preocupar em contar uma boa história.

A virtude que existe na era em que a gente vive, e que é muito legal, é que você pode testar o que você está fazendo antes de gastar muito dinheiro. Você pode fazer várias tentativas e ir vendo o que funciona e o que não funciona, até pra você saber se está conseguindo contar a história ou não, e você vai medindo sua resposta com as métricas que você tem hoje. Isso é uma virtude gigantesca. Quando eu comecei a trabalhar, a gente fazia televisão e tinha que criar um programa, um piloto onde a gente tinha que investir muito tempo e dinheiro para aquilo ser testado em uma transmissão. Hoje, você pode ir publicando coisas e testando coisas.

Fala!: O que você ainda não realizou, como comunicador de mídia, que gostaria de realizar?

Tas: Tem muita coisa que eu ainda não fiz. Eu gostaria muito de fazer um espetáculo no Theatro Municipal de São Paulo, gostaria muito de fazer uma reportagem na Estação Espacial Internacional e também fazer a cobertura de uma temporada de Fórmula 1.

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