Home / Colunas / Entrevista com Eduardo Marinho – Filósofo, artista de rua e, acima de tudo, ser humano.

Entrevista com Eduardo Marinho – Filósofo, artista de rua e, acima de tudo, ser humano.

Por: Thalita Archangelo de Oliveira – Fala! PUC

 

A arte de rua é a utilização do espaço urbano para a manifestação artística. Artistas de rua podem se expressar por meio da pintura, do canto, do grafite, da dança, da escultura, da pintura ou de acrobacias e poemas. Suas exibições muitas vezes apresentam tom crítico e incluem protestos sociais.

Eduardo Marinho       

O artista de rua Eduardo Marinho, protagonista do documentário Observar e Absorver, produzido em 2016 e dirigido por Júnior SQL, que conta hoje com mais de 900 mil visualizações no Youtube – nos mostra uma vida voltada há mais de três décadas para arte. Além disso, é possível ver na produção a busca dele pela abordagem de questões ideológicas, sempre chamando atenção para as injustiças sociais.

image1

E hoje, trouxemos uma entrevista especial com o próprio. Confira:

Fala!: Qual o significado de arte de rua, para você, que trabalha diretamente com isso?

Eduardo Marinho: O significado quem dá é o artista, de acordo com sua visão das coisas, seu temperamento, seu caráter, suas intenções com a arte. A arte de rua é a explosão que não cabe em galerias, sobra em volume, é muito mais do que pode assimilar o tal “mercado de arte”. Não serve a minorias que elitizam a cultura, ditam regras e estabelecem superioridades e inferioridades. Um reflexo da própria sociedade, a estrutura social se repete em todos os setores. Arte é um termo amplo, onde cabem todos os tipos, cênicos, visuais, auditivos, cada tronco se ramificando em vários outros.

FOTO 01

Fala!: O que o motivou a vender sua arte na rua?

Eduardo Marinho: Quando fui pra rua – e pra estrada – eu mal sabia fazer uma pulseirinha de vidrilhos e miçangas. Passei muito tempo precisando dar meu jeito pra comer, viajava de carona e dormia em qualquer lugar de improviso. Com o tempo fui aprendendo a fazer brincos, colares, torcer arame, latão e depois alpaca, para pagar a comida e comprar as coisinhas que precisava. Quando nasceu minha primeira filha, eu já estava mais íntimo dos metais e trabalhava também com couro, bolsas, sapatos, fazia pão integral pra vender. Era uma questão de sobrevivência, mas que também desenvolvia o meu senso estético – eu aprendia técnicas novas na rua. Mas o foco mesmo era observar a sociedade, entender o que acontecia. Por que tanta agonia e competição? Por que tanta miséria, pobreza e exploração? Por que os valores eram tão distorcidos e a vida era um sofrimento geral, com poucas ilhas de sossego? Era isso que eu percebia na rua.

image2
Arte de Eduardo Marinho, feita de Serigrafia.

 

Fala!: Quando você notou sua vocação artística e se afastou da sua antiga realidade?

Eduardo Marinho: Isso foram duas coisas distintas. Na realidade da minha infância e adolescência, arte era diversão, jamais profissão. Coisa para as horas vagas. A vocação estava ali, bruta, se exercendo, mas longe de ser considerado um trabalho. Assim, tentei o Banco do Brasil, o Exército, a faculdade de Direito, para me adequar ao que se esperava. Mas a angústia foi maior, eu me sentia preso, amarrado a um destino que não queria. O sentimento cresceu até o insuportável, e então senti as correntes caírem quando saí para a estrada, deixando a rotineira vida pra trás, abraçando o mundo.

foto 02

Fala!: A arte de rua tem sua devida valorização? Se não, que caminhos devem ser tomados para que ela passe a ter maior reconhecimento governamental e popular?

Eduardo Marinho: O que é “valorização”? Pra mim, uma coisa é preço, outra é valor. Percebo o valor da minha arte na reação das pessoas. Há quem não goste e não “dê valor” – uma expressão errônea, arrogante, sem significado. Meu trabalho encontra sua sintonia na coletividade e isso me basta. Não me interessa o reconhecimento do “mercado de arte”, essa coisa elitista e preconceituosa, segregadora por natureza, incapaz de perceber o valor de artes que não se enquadrem nos seus padrões – a não ser, claro, a dos vanguardistas do seu próprio meio – exceções minguadas e sem expressão social ou coletiva. O reconhecimento governamental, pra mim, seria até suspeito. Vejo os governos, assim como todo o aparato estatal, como uma organização criminosa, que serve a poucos e trai a população a quem simula servir. É o que está estampado em todos os serviços públicos, inclusive nos executivos, legislativos e judiciários, onde só vale quem tem, e quem não tem não vale nada – lembrando que quem não tem é a esmagadora maioria, que já nasce roubada em seus direitos constitucionais.

foto 03

Fala!: Aqui em São Paulo está acontecendo um programa desenvolvido pelo atual prefeito João Doria (PSDB) que se chama Cidade Linda. Nele, as pichações e alguns grafites estão sendo apagados. Qual a sua opinião sobre isso?

Eduardo Marinho: É a demonstração da distância que há das instituições para a população, a distância entre o que é, o que deveria, e o que se diz ser. Não há democracia, há uma ditadura empresarial sobre a sociedade. Com o desgaste e a desmoralização da política e dos políticos, os ideólogos da mídia construíram a ideia absurda – mas estratégica – de que empresários seriam bons gestores da coisa pública. Uma forma de manter a ilusão, manter a hipnose coletiva que a mídia tem como função, para gerar e manter o domínio de poucos sobre o Estado e, por consequência, sobre o povo. Além do mais, apagar as expressões artísticas e culturais – da memória, da história, do dia a dia da coletividade – é um procedimento antigo de dominação, que facilita a implantação da cultura fabricada pelos opressores.

foto 04

Fala!: Qual foi a importância que o documentário “Observar, Absorver” trouxe para você? Aumentou sua visibilidade como artista e palestrante?

Eduardo Marinho: Creio que sim, mas considero que já havia bastante visibilidade pelos vídeos feitos antes. Eu mesmo nunca havia pensado nisso, foi acontecendo e eu nem tinha contato com internet. O Júnior, diretor do filme, queria fazer o primeiro longa-metragem dele e, entre os muitos vídeos que eu já havia realizado, a entrevista comigo era o que havia tido mais visualizações. Esse foi o motivo dele. Num mundo carente de conteúdo, o conteúdo estava dando visibilidade. Meu foco sempre foi o conteúdo e nunca a visibilidade. Já ele, na intenção da carreira de cineasta, focalizava primeiro a visibilidade. Compreensível. Há entrevistas comigo com milhões de visualizações, o filme não deu isso tudo, por isso o filme não é central na minha vida e não chega a ser um marco. Na verdade essa visibilidade chega a incomodar um pouco, percebo que muitos me veem maior do que sou, e não acho que eu faça nada demais. Apenas olho o mundo e uso meu trabalho para dizer o que vejo, o que penso e o que sinto, mas isso há mais de 30 anos, nas ruas, nos bares da noite, nas praças, nos lugares onde exponho e vendo as coisas que faço. Não imaginei que um dia teria tanta repercussão.

Confira o documentário completo:

Fala!: Como suas vivências e posicionamentos influenciam sua arte?

Eduardo Marinho: Minha arte é consequência das minhas vivências, do que vejo pelo mundo, dessa sociedade torta, onde as melhores pessoas que conheci são sabotadas, roubadas em seus direitos humanos e constitucionais. É uma necessidade minha, interna, dizer o que penso, vejo e sinto. E a arte é meu veículo de comunicação, não faço arte pela arte. É meu manifesto de inconformação.

image3
“Observar Absorver”- Eduardo Marinho

 

Fala!: Como funciona o seu processo criativo? A rua como local de trabalho facilita o alcance das pessoas?

Eduardo Marinho: Claro, da rua tiro todo o meu material de trabalho, da rua e da observação permanente de tudo o que me cerca, das instituições, dos tratamentos, os comportamentos e o cotidiano. Tento ver além do que nos é mostrado, estrategicamente distorcido, infernizando vidas e relações. Não tenho um padrão de processo criativo, posso dizer que muita coisa brota dos sentimentos diante do que se expõe aos meus olhos.

foto 05

Fala!: É possível fazer da arte – principalmente a de rua que é a mais acessível – um modo de transformação social e cultural?

Eduardo Marinho: Arte é serviço, não é boa e nem ruim por si, pode ser usada para acorrentar, libertar, deleitar, denunciar, decorar e etc. Cada artista determina sua arte com sua índole, sua visão de mundo, seus objetivos, sua ideologia, seu caráter. Não tenho uma visão romântica da arte, não a vejo senão como uma profissão, com a característica de tocar o abstrato do ser humano, sentimentos, visão, pensamentos, a alma humana. Daí a grande responsabilidade que procuro exercer ao trabalhar. A arte que faço decorre da necessidade interna que mencionei, da inconformação com a desumanidade da sociedade humana, em seu processo de transformação permanente. Nascemos em um mundo mutante e tudo é mutação, o tempo todo. O que pretendo é participar dessa transformação da forma que escolho, e não como fui programado, induzido e condicionado. Daí o principal trabalho ser o interno, em mim mesmo, e daí partir para o trabalho que espalho por aí.

image4

A Origem da Arte de Rua

Apesar de não existir uma data específica da origem da arte de rua, acredita-se que ela tenha surgido na Grécia pré-socrática. Os artistas da época, que discursavam em versos, tinham como objetivo primordial entreter a plateia e causar uma mobilização ideológica.

Além disso, o papel do artista de rua teve presença forte na Idade Média, em meados do século XII, quando a Literatura Portuguesa acabara de surgir. Os versos das obras literárias eram declamados em praças, ruas e palácios, exclusivamente para divulgação.

O Artista de Rua

A arte de rua foi marginalizada durante muito tempo pela população e pelos órgãos administrativos do Estado. Porém, com o passar dos anos, aqueles que se expressavam artisticamente em espaços públicos passaram a ter reconhecimento legal do seu trabalho. As apresentações passaram a receber uma legislação específica.

Segundo a lei vigente, atualizada em 2013 pelo Deputado Federal Waldenor Pereira (PT-BA), a arte de rua consiste em:

“atividades de natureza cultural, passíveis de execução por artistas de rua em atividades como: teatro, dança individual ou em grupo, capoeira, mímica, estatuária viva, artes plásticas, grafite, caricatura, atividade circense, música, repente, cordel, literatura e poesia, por meio de leitura, declamação ou exposição física das obras e manifestações folclóricas.”

Confira também:

– CineSolar: um novo jeito de enxergar a vida!

4 razões para você ir na exposição sobre Anita Malfatti, no Museu da Arte Moderna de SP

Confira também

O carnaval como reflexo da crua realidade

Por Thiago Dias – Fala! Anhembi Subversão, cultos ao deus Dionísio, entrega aos desejos carnais, ...

2 Coment.

  1. Eduardo de Paula Barreto

    .

    POÇO FUNDO
    .
    Diante das incertezas
    E de tanto desgosto
    Nos vemos nas profundezas
    Do mais profundo poço
    E quando pensamos
    Que no fundo chegamos
    Afundamos mais ainda
    E cada segundo se traduz
    No distanciamento da luz
    Que aos poucos se finda.
    .
    A desilusão consome
    A nossa força e fracos
    Vemos o mundo enorme
    Se transformar num buraco
    Presos à lama pelos pés
    Só nos resta a fé
    Para deixarmos a imundície
    E mesmo ferindo as mãos
    Decidimos trocar a escuridão
    Pela luz da superfície.
    .
    Apesar dos profundos cortes
    E da alma abatida
    Trocamos a certeza da morte
    Pela esperança de vida
    E quanto maior o cansaço
    Menor se torna o espaço
    Entre nós e a libertação
    Para as débeis criaturas
    O poço é sepultura
    Para os fortes é exaltação.
    .
    Eduardo de Paula Barreto

    • Tche Loko ! Grande Eduardo de Paula ! Há um bom tempo que não lua seus versos ! Continua mandando bem !

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *