Entrevista: a ascensão de casos xenofóbicos no Brasil na pandemia
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Entrevista: a ascensão de casos xenofóbicos no Brasil na pandemia

Entrevista: a ascensão de casos xenofóbicos no Brasil na pandemia

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A partir de entrevistas exclusivas realizadas com descendentes asiáticos para analisar a ascensão de casos xenofóbicos no Brasil durante a atual pandemia, os resultados revelaram o racismo enraizado na sociedade brasileira. 

Racismo velado

Durante as entrevistas, percebe-se que todos os entrevistados já vivenciaram algum tipo de racismo. Nenhum deles sofreu violência física, sendo a maioria dos casos xenofóbicos através da violência verbal, inclusive, por amigos e familiares. Mas isso não minimiza a violência que eles sofreram e sofrem constantemente.

Quando o racismo está enraizado na sociedade, ele aparece de diversas maneiras, principalmente através de piadas e comentários “amigáveis”. Como apontado por Giovana*, uma das pessoas entrevistadas: “Acredito que as intolerâncias eram mais agressivas antigamente, hoje em dia elas vêm disfarçadas de piadas”.

Podemos questionar se a população, de modo geral, não se considera racista por não a propagar atitudes racistas de maneira “escancarada”, pensando-se, assim, que a xenofobia seria apenas a agressão (física ou verbal), enquanto, na verdade, é toda e qualquer discriminação ou preconceito baseado puramente nas diferenças étnicas.

xenofobia
A ascensão de casos xenofóbicos no Brasil na pandemia é notória. | Foto: Reprodução.

Nova justificativa para discursos de ódio

O novo vírus tornou-se mais uma justificativa para a propagação de discursos de ódio, onde chineses, além dos preconceitos já sofridos historicamente, agora são também responsabilizados por todas as mortes causadas pela nova doença. Asiáticos que moram no Brasil, por mais que não tenham viajado à China durante a pandemia, ainda são diferenciados dos demais brasileiros e vistos como a personificação da doença.

Rodrigo* aponta: “Funcionários de qualquer loja ou mercado chamavam os asiáticos que entravam [na loja] de coronavírus e achavam engraçado. [Antes da quarentena] até uma criança no cinema me chamou de coronavírus”. Mariana* também já foi vista com esses olhares: “No começo [da pandemia], as pessoas já não queriam ficar ao meu lado porque era sinônimo de Covid”.

Além disso, a pandemia tornou mais evidente um outro tipo racismo: a falta de diferenciação dos povos asiáticos, como se na Ásia existisse um povo só. Pessoas descendentes de japoneses também são responsabilizados pelas mortes causadas pela Covid-19, como podemos perceber no relato Giovana*: “Por ser descendente de japoneses, sempre ouço piadas de que a culpa é minha e de que meus primos trouxeram o vírus para cá”.

A influência de políticos

Além da atual crise de saúde trazer à tona o racismo da sociedade brasileira, o racismo de diversos atores políticos também foi revelado. Um dos entrevistados acredita que essa onda xenofóbica virtual vem de apoiadores do presidente que, inclusive, é influenciada pelas próprias falas racistas do Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e do deputado Eduardo Bolsonaro, como o uso do termo “Vírus Chinês” para se referir ao vírus da Covid-19, incentivando o repúdio à China e aos seus hábitos culturais, tratando como uma ameaça à humanidade.

As falas racistas de políticos legitimam o racismo entre a população e aprofundam um sério problema social que enfrentamos. Com isso, a vítima é desencorajada a procurar ajuda, por acreditar que nada será feito para ajudá-la. De acordo com Rodrigo*: “Até o filho do Bolsonaro está chamando a Covid de Vírus Chinês, acho que não vai adiantar procurar ajuda”.

Descrença na ajuda

A ideia de que a ajuda será em vão e ineficaz criou nas vítimas um conformismo. Os entrevistados aparentam ter aprendido a lidar com o racismo, já que é algo tão frequente. Todos relataram:  “Nem ligo mais”, relatou Rodrigo*; “Aprendi a lidar com isso sozinha”, relatou Giovana*; “É algo tão corriqueiro que eu só perderia tempo indo na delegacia”, relatou Diego*; e “É algo que acontece diariamente, com bastante asiáticos. A gente vai deixar passar, o que não deveria. (…) Tenho medo de muitas vezes não dar em nada e ficar por aquilo. É cansativo e desgastante”, relatou Mariana*.

Infelizmente, a falta de perspectiva de mudança social faz com que as vítimas mudem de comportamento para aprender a lidar com a corriqueira antipatia, ao invés da mudança partir do ofensor. Certamente, o descaso das autoridades políticas, como as falas do deputado Eduardo Bolsonaro ou nas falas do presidente americano, Donald Trump, como mencionado anteriormente, ajuda a manter o status quo.

Apesar de instituições não governamentais terem um papel importante, devido à falta do apoio governamental, muitos entrevistados não sabiam das suas existências e, ainda mais, ao tentarmos entrar em contato com algumas delas, não obtivemos resposta de nenhuma instituição, mostrando como esse apoio é falho.

Conclusões

Diante das entrevistas, podemos observar que o racismo não apenas aumentou durante o período de pandemia, por incluir novos termos e percepções para os discursos de ódio, como tornou mais evidente o que antes era despercebido.

Podemos concluir que, no cenário brasileiro, a xenofobia é banalizada tanto pela população, ao não identificar piadas racistas, quanto pelas autoridades, que muitas vezes são os próprios agentes da xenofobia. Se a xenofobia não é levada a sério por quem tem o dever de proteger a população, a xenofobia também não será levada a sério pela população.

*Nomes fictícios para proteger o anonimato dos participantes

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Por Gabriela Caloni Rampazzo – Fala! PUC

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