Entenda por que a arte impulsiona a militância na periferia
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Entenda por que a arte impulsiona a militância na periferia

Entenda por que a arte impulsiona a militância na periferia

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Principais dificuldades da periferia são a falta de aparato para produção de conteúdo, divergências entre os movimentos culturais e interferência do mercado audiovisual

Nos últimos anos, o espaço artístico tem se tornado mais democrático, a dependência de grandes emissoras e produtoras não impede o surgimento de novos nomes. Apesar dos pontos positivos, há negativos, como nos contam Geovana Sales, MC Recoba e Josh Leone, todos envolvidos com cultura periférica.

arte na periferia
Arte impulsiona militância na periferia. | Foto: Reprodução.

Arte impulsiona a militância na periferia

Geovana Salles

Para Geovana Salles, 23, Jardim Novo Horizonte, Extremo Sul de São Paulo, a periferia deve usar sua força: “Eles têm medo de nós, a esfera pública não tem interesse em promover políticas que despertem senso crítico, os avanços nos últimos anos se devem ao esforço de militância, mas falta uma unidade nos núcleos por preconceitos dentro da própria periferia. Todos têm importância”.

Geovana diz que há a tentativa de desconstrução de culturas periféricas através da absorção da finalidade política por um modo comercial: “Os artistas que abandonam a ideia de luta quando ganham alguma projeção fazem o movimento nadar contra a maré, a sensação que tenho é que quem fica não é visto nem valorizado”. Ela é uma das organizadoras da “Batalha [de MC´s] do Ponto”, “Sarau Despertar”, com apoio do “Sarau Cooperifa” [Grajaú], as atividades também acontecem no Centro Cultural e na Casa de Cultura de Parelheiros.

A jovem participa do programa Jovens Mentores, da Secretaria de Cultura de São Paulo, o objetivo é levar pessoas envolvidas com cultura periférica para supervisionar artistas nas Casas de Cultura.

MC Recoba

MC Recoba, 28, funkeiro há onze anos na região de Paraisópolis, Zona Sul, diz que a luta dos movimentos artísticos da periferia é importante, mas está segmentada, ao passo que há desconhecimento por parte de alguns artistas: “Certa vez, houve um evento no CEU Paraisópolis e não havia ninguém do funk, questionei ao organizador, ele disse que não entraria, um representante da periferia que tem preconceito está mesmo cumprindo o seu papel?”.

Recoba revela que essa falta de união atrapalha, uma vez que se reproduz o discurso daqueles que não estão no meio: “O cara que não é enquadrado pela polícia por não ‘parecer’ suspeito, tende a defender que a polícia não reprime o cidadão preconceituosamente, como se polícia não errasse, perseguisse”.

O MC canta os estilos ousadia, proibidão e consciente, este por influência do Rap, relata que as novas gerações estão muito influenciadas pelas redes e a mensagem não têm o efeito de antes:

Nos adaptamos, você tem que ganhar dinheiro, às vezes, fazemos coisas que não imaginamos, mas não se deve renunciar o caráter, não quero estar lá se tiver que abrir mão do que defendo, tem que acontecer um acordo de colaboração entre artistas produtores e periferia para consumo e promoção de projetos que estejam diretamente ligados às pautas necessárias, além construir o próprio aparato de produção, impulsionar nomes que pertençam ativamente ao movimento, seria um modo de evitar apropriação cultural, pois se falta profissionalização no ramo o mercado tem e leva para uma finalidade comercial.

Ele diz também que letras inadequadas, como apologia ao estupro, não ajudam.

Josh Leone

O rapper LGBT Josh Leone, 24, nascido em Mogi das Cruzes, região metropolitana de São Paulo, diz que além do respeito ao seu grupo, defende o direto de ser humano. Josh teve uma vida muito conturbada e cheia de dramas pessoais, isso moldou a sua sensibilidade artística, completa.

Leone sofreu repressão familiar e colorismo: “Minha mãe era lésbica, mas foi reprimida, ela apanhava muito, motivo pelo qual entrou em declínio, assim como um tio que não se assume por medo de rejeição e represálias. Fui o primeiro a assumir, não foi bem aceito, minha vó disse que eu iria morrer na rua, além disso eu era rejeitado pela cor da minha pele, pois na minha família se valoriza quem é mais claro, sendo negro e gay foi muito difícil, fui morar com meu namorado na época, mas o clima era tenso, a mãe dele era evangélica e não nos aceitava por questão religiosa”.

O artista encontrou na arte uma forma de se libertar dos seus dramas, influenciado pelo rapper Rico Dalassam. Ele usou sua timidez para criar “o mímico que fala”, sua obra é uma mistura de crítica social e redenção de sua própria história.

Em relação ao movimento ao qual faz parte, Josh também tem críticas, para ele, a falta de união e egoísmo enfraquecem o sentido da causa, se mostrando contrário à divisão no meio:

“Se alguém chega numa festa [LGBTQI+] vestido com roupas simples, é ignorado, quando a gente deveria se unir, um quer ser melhor que outro e a coisa se perde”. Relata ainda que é ruim atribuir voz a uma personalidade única, pois “É impossível que uma pessoa só represente as ideias e interesses de uma classe, é sempre necessário dar mais espaço para pessoas que possuem letras políticas e que a mídia não apoia os artistas apoiados pela mídia têm que se calar em certos assuntos”, finaliza. 

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Por Elnatã Santos da Paixão – Fala! Anhembi

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