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Deixando Neverland: o documentário que detona Michael Jackson

Deixando Neverland: o documentário que detona Michael Jackson

Por Leonardo Godoy – Faculdade Cásper Líbero

Após dez anos da morte do Rei do Pop, documentário revisita acusações de assédio sexual contra crianças, contando a história de duas vítimas e explorando o relacionamento abusivo como pouco se vê.

Ficha técnica

Direção: Dan Reed
Lançamento: 25 de janeiro de 2019 (16 de março de 2019 no Brasil)
Produção: HBO
Duração: 3h56min

Michael Jackson foi provavelmente um dos maiores astros que já existiu na história. Com um talento indiscutível, que surgiu quando era ainda muito jovem, Michael tinha a habilidade de cativar e prender a atenção de grandes públicos. Com seus shows de grandíssimo porte, um espetáculo visual impressionava os estádios lotados de fãs, que chegavam a passar mal só com a presença do cantor no palco. Sua dança característica a qual todos buscavam imitar e músicas que vem marcando gerações desde que o pequeno garoto surgiu no mundo da música junto com seus irmãos no grupo Jackson 5, com sucessos como ABC e I want you back até seus últimos trabalhos poucos anos antes de sua morte, como You Rock My World em 2001.

Mas a história de Jackson nunca passou longe de polêmicas. Desde os espancamentos de seu pai durante sua infância, cirurgias plásticas que alteraram seu rosto até ficar quase irreconhecível ou até mesmo o branqueamento de sua pele, resultado de vitiligo, Michael sempre esteve nos holofotes, mesmo longe dos palcos. Mas quietamente, parte de sua história foi ignorada e deixada de lado. Fechamos os olhos e deixamos passar um dos casos mais marcantes na vida do cantor, simplesmente por ele ser ele. Não só isso, mas sua imagem continuou sendo admirada e valorizada, com compras de discos, itens especiais e muito mais. Afinal de contas, Michael era mais do que um cantor, era uma marca.

Leaving Neverland chega dez anos após sua morte para nos fazer refletir se está na hora de repensarmos a imagem de Michael Jackson. E ainda vai além, mostrando como que relações de abuso e imposição sobre pessoas mais vulneráveis, aqui contando as histórias de Wade Robson e James Safechuck, afetam não só o lado físico, mas também psicológico das vítimas, deixando – as com cicatrizes que doem silenciosamente durante o decorrer de suas vidas.

Desde o início, o documentário estabelece um tom forte e pesado. Passeando por depoimentos das duas vítimas, agora adultas, e seus familiares, a ideia de Dan Reed é explicitar cada caso, sem poupar detalhes. Wade e James se dispõem a tocar em sua maior ferida, que claramente ainda está aberta. E é nesse levar expositivo que enxergamos quem Michael Jackson também foi em seus momentos íntimos e como se usou de sua imagem de ídolo para se aproveitar durante anos de crianças inocentes, tomando medidas que pareciam ser friamente planejadas, desde afastar famílias que previamente apresentavam problemas (o que eventualmente levou ao suicídio do pai de Wade) até chantagear crianças, para que mantivessem o silêncio a respeito do que era feito dentro dos quartos.

Pouco antes do fim da primeira parte (o documentário é dividido em duas partes de duas horas), Wade e James começam a refletir sobre os efeitos dos abusos sofridos e é nesse momento que o documentário se destaca com excelência. Os relatos dos dois “protagonistas” conseguem mostrar que o abuso vai além do físico, e como o abusador consegue entrar em suas cabeças, que as leva até um ponto de normalizarem a situação que se submetiam. Wade Robson conta que chegou a sentir inveja de meninos que também andavam ao lado de Jackson, onde para reafirmar não só para o cantor, mas para si mesmo que estava tudo bem, realizava atos sexuais até o ponto de “ficar melhor nisso”, como ele diz.

Por anos, conforme esses abusos continuavam acontecendo, as vítimas acabavam criando um senso de proteção entorno de Michael. O medo de levar o seu maior ídolo, que ao fazer jogos mentais com as jovens cabeças dizendo a elas que eram seus melhores amigos e que as amava, para a prisão era o que comprava o silêncio dos menores. E foi esse medo, já instalado no inconsciente de Wade que o fez testemunhar a favor de Michael em 2003. E o que o levou a continuar tendo grande consideração pelo artista até sua morte. As falas das vítimas são claras em mostrar que em certo ponto, a confusão em suas cabeças pairava desde culpa por deixar algo como aquilo acontecer até amor pelo seu abusador.

Fica explícito que as histórias são o retrato da realidade. E é delicado dizer isso uma vez que Jackson não está mais aqui para sua própria defesa, mas também fica claro que conforme tais histórias vêm sendo trazidas pela maré, já não podemos mais fingir que não a vemos. Os machucados praticamente incuráveis de Wade, James, Jordan e outras muitas crianças que compartilharam um quarto com o cantor serão carregados até suas mortes. As depressões, crises de pânico e ansiedade foram todas causadas por um homem que tinha poder para comprar o silêncio de quem precisasse, mas chegou o momento de estar pelas vítimas e, de uma vez por todas, desistir da imagem de Michael Jackson.

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