Do Kung Fu ao Imperialismo: Importância de 'Avatar: A Lenda de Aang'
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Do Kung Fu ao Imperialismo: Importância de ‘Avatar: A Lenda de Aang’

Do Kung Fu ao Imperialismo: Importância de ‘Avatar: A Lenda de Aang’

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Muitos dos que já conhecem Avatar: A Lenda de Aang são, inevitavelmente, fãs do seriado. Lançado em fevereiro de 2005 pelo canal Nickelodeon e co-produzido por Bryan Konietzko e Michael Dante DiMartino — também conhecidos por participarem da produção de Family Guy (Uma Família da Pesada no Brasil)— o desenho animado conta uma história que é, a princípio, simples, mas que possui uma profundidade incomum no gênero.

Apesar de ter estreado há 15 anos e ser conhecido por muitas pessoas, o peso da série ainda é difícil de ser repassado aos “não iniciados”. Em um artigo no blog Kotaru, Kirk Hamilton, escritor, compositor e grande simpatizante da série conta que considerar Avatar uma das peças mais prestigiadas da geração não é uma opinião controversa entre os fãs do seriado, mas é uma ideia difícil de vender para quem não o conhece, principalmente por ser voltado ao público infantojuvenil.

Mas além de um bando de crianças fazendo “mágica” com elementos naturais, o que Avatar: A Lenda de Aang tem de mais?

Água, Terra, Fogo, Ar…

“A minha avó me contava histórias sobre os velhos tempos”. Assistindo ao seriado, esses trechos serão comuns, pois fazem parte da abertura e já contam de maneira breve a estrutura do mundo de Avatar: A Lenda de Aang e os problemas que os heróis virão a enfrentar.

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Geografia do mundo de Avatar: A Lenda de Aang. | Foto: Reprodução.

As nações, quatro ao todo, são dividas em: Tribos da Água; Reino da Terra; Nação do Fogo e Nômades do Ar, todas compostas por pessoas comuns e os chamados dobradores, pequena parcela da sociedade capaz de controlar o elemento de sua respectiva nação.

O Avatar é o único que pode controlar os quatro elementos e tem a missão de manter a paz e a harmonia no mundo, além de possuir ligação com o plano espiritual. Quando ele ou ela morre, reencarna em uma outra pessoa, na nação seguinte do ciclo.

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O Ciclo Avatar: Terra, Fogo, Ar e Água. | Foto: Reprodução.

Um dia, o Avatar desaparece e o Senhor do Fogo Sozin aproveita a deixa e inicia uma guerra contra as outras nações. Após 100 anos do acontecimento, a guerra está próxima do fim, com a promessa da vitória da Nação do Fogo. Contudo, próximo ao Polo Sul, os irmãos Katara e Sokka encontram um enorme bloco de gelo brilhante que abriga, congelados, Aang e seu bisão voador, Appa. E é exatamente neste momento em que a série inicia.

Aang é um garoto de 12 anos que logo se revela o Avatar desaparecido. Desatualizado das condições atuais do mundo, demora um pouco a processar o caos instaurado pela Nação do Fogo e usa suas habilidades, evasivas a princípio, mais se defendendo que atacando enquanto foge dos soldados que o perseguem.

Com um dos maiores arcos de redenção da história televisiva, Avatar: A Lenda de Aang é dividido em três temporadas, chamadas de “Livros”, onde, em cada uma, Aang aprende a dobrar um novo elemento para salvar o mundo da Nação do Fogo.

As dobras

Apesar de os dobradores já nascerem com a habilidade de dominar um determinado elemento, ainda é preciso treino para que ele chegue ao seu controle pleno ou, até mesmo, invente uma nova sub-dobra, que é derivada dos elementos originais.

Cada nação possui seu próprio estilo de dobra, que é baseada em uma arte marcial chinesa específica, além de possuir relação direta com as características físicas dos elementos em questão.

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Exemplos de como é feita a dobra de cada elemento. | Foto: Reprodução.

As Tribos da Água modelam sua dobra sobre o Tai Chi com seus movimentos fluidos que lembram a água; o Reino da Terra teve sua dobra baseada no Hung Gar Kung Fu, que possui traços mais pesados e estáveis, representando a solidez da terra; a Nação do Fogo utiliza o Shaolin Kung Fu, que possui movimentos fortes de braços e de pernas, mostrando como o próprio fogo é intenso; e os Nômades do Ar têm suas raízes no Baguazhang, que conta com movimentos circulares dinâmicos e mudanças rápidas de direção, como o ar.

Há a exceção de apenas uma personagem, Toph, cujo estilo único se baseia na versão sulista do Louva-Deus Chu Gar. O treinamento das dobras exige esforço e memorização de movimentos — e até mesmo a criação de novos.

As escolhas dessas artes marciais foi muito sábia e bem representada na série, mas não ao acaso. A produção contratou um consultor e coreógrafo de lutas a fim de trazer a verossimilhança com a realidade.

O mestre Kisu, da Associação Atlética Chinesa do Punho Harmônico trabalhou ao lado dos produtores não apenas para as dobras, mas também para todas as lutas performadas ao longo do programa. Para o estilo de luta exclusivo de Toph, o mestre Manuel Rodriguez foi o coordenador não autorizado a inspirar e moldar os movimentos da garota.

Os povos

De cara, já se percebe que Avatar: A Lenda de Aang não é como outras produções do mesmo gênero. O desenho é inspirado, de fato, em narrativas épicas como Harry Potter e Game of Thrones, mas, ao contrário dessas, não pega todas as suas referências em mitologias da Europa e se agarra a culturas orientais asiáticas e em povos nativos/indígenas como base principal.

Ayumi Gabriela Yamashita Domingues, ilustradora e graduanda de Psicologia, conta que o seriado ajudou a desmistificar muitos estereótipos sobre asiáticos presentes no imaginário de quem o assistiu e ainda o assiste.

Sokka e Katara
Sokka e Katara, irmãos que encontram Aang em Avatar: A Lenda de Aang. | Foto: Reprodução.

Uma das coisas que mais admiro em Avatar foi a sensibilidade de fazer uma animação cuja ideia principal gira em torno da universalidade de culturas asiáticas, sem recorrer a estereótipos orientalistas e arquétipos cristalizados.

Ayumi Gabriela Yamashita Domingues

Contudo, uma pesquisa rápida na Internet sobre esses povos ainda oferece conteúdo muito raso.

Avatar é recheado de referências culturais, porém, a maioria das análises se resume em colocar o Reino da Terra como referência à China Han, a Nação do Fogo ao Japão, os Nômades do Ar à cultura tibetana e as Tribos da Água aos povos inuítes. Isso está certo, mas é simplificar muito todas as referências utilizadas na construção de mundo.

Afirma Ayumi.

A produção de Avatar: A Lenda de Aang contou com a participação de Edwin Zane, o então vice-presidente do grupo Media Action Network for Asian Americans, e o calígrafo Siu-Leung Lee como consultores culturais a fim de assegurar que a direção artística e a ambientação do projeto fosse feita de maneira sensível e verossímil.

Aaron Ehasz, roteirista chefe da série, comenta em uma entrevista à Vice que o intuito era se inspirarem nessas culturas sem, de fato, apropriarem-se delas. Dessa forma, há referências vastas, ricas e específicas em todas as quatro nações sobre diferentes povos da Ásia.

Os monges budistas tibetanos foram a principal influência para a criação dos Nômades do Ar, mas não apenas para isso. O processo utilizado para saber quem é o novo Avatar é muito semelhante ao processo que eles utilizam para descobrir quem é o Tulku Lama (um professor que ensina conceitos-chave do budismo que escolheu, conscientemente, reencarnar a fim de continuar seu juramento de se tornar um ser iluminado) deles. Mas, além desse grupo, os Nômades do Ar também são inspirados em sul-asiáticos, a exemplo do Guru Pathik.

monges tibetanos avatar
Comparação entre os trajes dos Nômades do Ar e de monges budistas tibetanos. | Foto: Reprodução.

Além dos povos indígenas inuítes, as Tribos da Água também são inspiradas nos sireniki e há, ainda, referências a povos do norte da Ásia, como povos siberianos e ao folclore da região, tendo em vista que a vestimenta da princesa Yue, da Tribo da Água do Norte, é inspirada nas fadas chinesas.

Yue Fadas Chinesas
Yue quando se torna o espírito da Lua em comparação com fadas chinesas. | Foto: Reprodução.

O Reino da Terra, o mais extenso geograficamente do mundo de Avatar, conta com referências a povos coreanos, filipinos, mongóis e taiwaneses. Na Ilha Kyoshi, ainda nos é apresentada a representação dos ainus, povos indígenas originários do Japão e da Rússia.

Dentro da capital, Ba Sing Se, há aspectos nos trajes e na arquitetura que remetem ao povo Manchu, originário do noroeste da China, ou Manchúria, e relacionado à dinastia Qing. Já em Gaoling, região onde Aang, Katara e Sokka encontram Toph, as roupas penteados e adereços fazem menção à dinastia Tang.

Toph Katara Manchu
Roupas de Toph e Katara em comparação aos trajes formais das mulheres Manchu. | Foto: Reprodução.

Já a Nação do Fogo, conta com boa parte de sua estética baseada na Tailândia. Algumas comunidades de dominadores de fogo ainda são inspiradas nas Filipinas, na China e até mesmo em povos Maia, como é o caso do episódio “Os mestres da dominação do fogo”, do terceiro livro.

Além disso, há a influência do Japão em dois aspectos principais: muitos dos nomes dos habitantes da nação e a política expansionista decretada pelo então Senhor do Fogo Sozin, no início da guerra, que é uma clara alusão ao imperialismo japonês.

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Trajes dos personagens Ty Lee, Azula, Zuko e Mai no episódio ‘A praia’ em comparação aos trajes tradicionais tailandeses. | Foto: Reprodução.

O desenvolvimento

A produção ainda contou com uma estruturação complexa dos personagens, todos com uma profundidade e cuidado na montagem que são esperados em obras como Game of Thrones, por exemplo.

Ehasz conta que foi a autenticidade emocional dos personagens que expôs os jovens espectadores de Avatar: A Lenda de Aang a temas mais sombrios e pouco abordados em produções do mesmo gênero, como imperialismo, autoritarismo, genocídio e propaganda de guerra.

Se não fosse pela sensibilidade ao construir os personagens, muitos desses temas poderiam gerar o desinteresse do público, principalmente no Ocidente, onde se tem menos contato com essas questões que no Oriente.

Inspirações vindas de produções de Hayao Miyazaki, do Studio Ghibli, também inspiraram a trama. Filosofias e até o design de alguns elementos de Princesa Mononoke, por exemplo, são facilmente perceptíveis no seriado. Traços de Astro Boy, de Osamu Tezuka, e de Dragon Ball Z, de Akira Toriyama, também fazem parte da construção do mundo de Avatar.

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Comparação entre os espíritos do Mar, de Avatar, e da Floresta, de Princesa Mononoke. | Foto: Reprodução.

Para Pedro Vautier Cardoso, graduando de Cinema e Audiovisual, “é praticamente impossível assistir a Avatar e não se identificar com algum de seus personagens, onde todos têm sua devida atenção e tempo de tela”.

A construção do mundo de Avatar: A Lenda de Aang é feita aos poucos e de maneira bem cuidadosa, levando em consideração que seu público é, majoritariamente, jovem.

Nos Estados Unidos, a classificação indicativa é livre. No Brasil, é de 10 anos por tratar de temas mais pesados, já citados acima. Por esse motivo, as informações que recebemos sobre as novas regiões em que os personagens se aventuram; novas formas de dobrar elementos; novos antagonistas; ou novos protagonistas, acabam tornando tudo muito mais palpável e fácil de digerir.

Kirk Hamilton diz que a construção é feita “bloco por bloco”, evitando excesso de informações. Para Pedro, o destaque está na boa estruturação do roteiro, cujo final já estava planejado desde o início.

Dessa forma, a história não perde o foco e não acaba se arrastando, ao contrário de muitas outras séries. Em Avatar: A Lenda de Aang, até os chamados fillers (episódios que, teoricamente, não interferem no curso da trama principal) são considerados importantes, mostrando situações que influenciaram na personalidade dos personagens.

Ao final da terceira temporada, que foi ao ar em julho de 2008, os espectadores que assistiram à primeira temporada assim que lançada, já estavam três anos mais velhos, enquanto, na série, o tempo decorrido foi de apenas 12 meses.

Isso foi levado em consideração conforme os episódios foram sendo lançados. O desenho foi mostrando o crescimento físico gradual dos personagens e alguns problemas e questionamentos maiores sobre suas próprias dores foram levantados, mostrando que houve um amadurecimento que acompanhou quem assistia, o que aproximava ainda mais o público dos sentimentos dos personagens.

Ayumi Gabriela Yamashita Domingues diz que a referência que mais a sensibilizou foi a situação de Song e sua mãe no episódio “A caverna dos dois amantes”, na segunda temporada.

Ambas são apresentadas vestindo hanbok e são refugiadas de guerra (…). É uma triste metáfora da invasão japonesa à Coreia e às mulheres-conforto, que até hoje lutam para não ter sua história apagada.

Diz ela.
Song Avatar
Roupas de Song, tradicional hanbok feminino, de origem coreana. | Foto: Reprodução.

Trilha sonora e produção

Contribuindo para a ambientação e as sensações que temos ao assistir ao programa, a trilha sonora também é essencial. Para que ficasse condizente com o resto da composição ricamente inspirada em culturas da Ásia, Jeremy Zuckerman e Benjamin Wynn, responsáveis por essa área técnica, compuseram as músicas e os sons da série utilizando instrumentos de origem oriental, como pipa, kalimba, duduk e guzheng.

Instrumentos Avatar
Pipa, kalimba, duduk e guzheng na ordem de sentido horário. | Foto: Reprodução.

Contudo, apesar de muitas referências ao Oriente e a presença de muitos consultores para que nenhum povo se sentisse ofendido, deve-se ressaltar que Avatar: A Lenda de Aang ainda é uma produção feita no Ocidente —Estados Unidos, especificamente — e, por esse motivo, algumas particularidades guiaram elementos base da série para que a ideia fosse minimamente familiar para o público ocidental.

Um exemplo disso foi a preferência pelos quatro elementos naturais da filosofia grega tradicional (Água, Terra, Fogo e Ar) ao invés dos cinco elementos do Wu Xing, ou teoria dos cinco elementos (Água, Terra, Fogo, Metal e Madeira). De certa forma, isso acaba sendo citado, mas de um jeito diferente: a madeira e o metal se tornam variantes dos elementos clássicos e são chamados de sub-dobras.

Elementos Avatar
Os quatro elementos no mundo de Avatar e os cinco elementos do Wu Xing. | Foto: Reprodução.

O papel da diversidade

Ao abordar diversas culturas com a riqueza de detalhes que Avatar: A Lenda de Aang faz, o diálogo com o público infantojuvenil acontece com enorme responsabilidade. “Muitas animações atuais não possuem o mesmo nível de diversidade que Avatar possui”, diz Pedro Vautier Cardoso, que reforça o progressismo da animação para a época em que foi lançada.

A representação de diversos povos, cada um com características marcantes e específicas foram importantes e positivas não apenas para quem foi literalmente representado, mas também para a diáspora asiática no Ocidente, que se viu estampada na série, tanto em imagem quanto nos dilemas apresentados, como conta Ayumi Gabriela Yamashita Domingues.

Um problema muito comum em desenhos ocidentais que se propõem a retratar leste-asiáticos é uma espécie de efeito rebote.

Explica.

O histórico de representações orientais em peças ocidentais não é muito bom. Geralmente, o pacote vem estereotipado e generalizado, como se não houvesse diversidade entre esses povos, dando espaço para o racismo vindo de não-asiáticos quando enxergam em determinados personagens a oportunidade de comparações hostis.

Já recebi relatos de crianças amarelas que eram chamadas ofensivamente de ‘Dragão Ocidental’ (em referência ao desenho Jake Long, da Disney) e de ‘Pucca Traficante’.

Declara Ayumi.

Em Avatar: A Lenda de Aang, isso não é reproduzido. A produção apostou alto em agregar culturas pouco exploradas em peças dos Estados Unidos, por exemplo, e acertou em cheio.

Construindo todos os personagens de maneira complexa e com muita responsabilidade, contando com a participação de diversos consultores culturais, a série animada conquista fãs até hoje e ajuda a entender, pelo menos um pouco, a diversidade que há no(s) mundo(s) de maneira bem espontânea e sutil.

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Por Fernanda Tiemi Tubamoto – Fala! UFMG

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