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Os Dilemas Contemporâneos do Jornalismo

Os Dilemas Contemporâneos do Jornalismo

Por Matheus Menezes – Fala! Anhembi

A profissão está sendo colocado à prova por outras lógicas, mas a importância do jornalismo ainda é válida, mais do que nunca.

Da esquerda para direita: Fausto Salvadori, repórter da Ponte Jornalismo; João Paulo Charleaux, repórter especial do Nexo Jornal; Aldo Quiroga, repórter, editor e apresentador da TV Cultura; André Maleronka, editor-chefe da Vice Brasil.

Ainda há espaço para um jornalismo ativo na nossa sociedade? Os grandes títulos esgotaram a nossa capacidade crítica? Não é possível mais competir com a velocidade de informações da internet? São essas perguntas que afligem o jornalismo no presente. Porém, essas são questões ancestrais da prática noticiosa. É um movimento cíclico, pelo qual o jornalismo invariavelmente precisa passar. Apesar da preocupação, faz parte do jogo aproveitar esses momentos de estresse para refletir sobre o papel jornalístico e as habilidades que formam um bom repórter.

Tendo como exemplo mídias que trabalham com o rigor na apuração, tal qual o Nexo Jornal e a Vice Brasil, é possível sim enxergar uma luz no fim do túnel e ter um pouco de esperança com relação ao futuro da profissão. A verdade é que nas grandes emissoras e nos grandes portais se encontra pouca contextualização. Isso quem faz com excelência são os veículos menores, muitas vezes independentes. E podemos aprender bastante com essa abordagem.

A Conjuntura da Mídia ao longo de séculos

A comunicação sempre desempenhou função de importância para as grandes nações da história. A Acta Diurna, por exemplo, foi uma publicação oficial do Império Romano, esculpida em tábuas e exposta em praça pública, que informava a população sobre as decisões do Estado. Esse é o primeiro jornal de que se tem conhecimento no mundo, criado em 69 a.c. pelo líder e general Júlio César. Essa mídia desempenhava papel fundamental na organização social da civilização romana. Em sintonia com a política do Pão e Circo – que mantinha a população entretida e alheia às questões do governo -, esse veículo de comunicação era usado politicamente para alimentar os interesses da classe dominante e noticiar apenas aquilo que era vantajoso para essa elite.

O fato é o seguinte: sempre houve concentração de poder nos meios de comunicação. Isso acontecia há 2 mil anos e continua até os dias de hoje. Houveram fases tenebrosas do jornalismo em que as manchetes eram vendidas em troca de favores. E o fazer jornalístico precisou lutar inúmeras vezes por espaços de debate e pluralidade. No Brasil, o período da Ditadura Militar (de abril de 1964 a março de 1985) foi emblemático para a produção jornalística. A censura fechou redações de jornais e jornalistas foram perseguidos.

A ditadura acabou, porém, o jornalismo ainda enfrenta um enorme conflito – uma espécie diferente de censura, dessa vez mascarada e com outra configuração: a ganância dos detentores dos meios de comunicação. O poder da mídia brasileira pode ser traçado às famílias de grande influência política no país – a família Marinho (proprietários do Grupo Globo); a família Civita (donos do Grupo Abril); a família de Silvio Santos (detentores do Grupo Silvio Santos). Para eles, é interessante fazer um agendamento do conteúdo em benefício próprio.

Uma célebre contenda entre o redator e o seu patrão

Afinal, qual o limite entre o interesse público e o interesse dos donos dos meios de comunicação? Esse é um embate histórico, intrínseco à profissão. Aldo Quiroga, repórter, editor e apresentador da TV Cultura, acredita que o papel desempenhado pelos profissionais de jornalismo permeia essa dicotomia. “O jornalismo carrega dentro de si uma armadilha, que é a proximidade do poder. Enquanto jornalistas, nós flertamos com esse poder, ao mesmo tempo em que estamos sendo vigiados.” – afirma Aldo.

De certa forma, há uma glamourização da profissão. Essa proximidade com o poder pode iludir os repórteres. “Alguns de nós confundem o papel do jornalista e acabam entendendo que fazem parte deste poder, desta elite. Estes, me parecem, que são aqueles que talvez perderam de vista o seu público, a sua maior responsabilidade e o seu maior compromisso.” – ressalta Aldo. A relação transparente com o público é uma diretriz do jornalismo. São os critérios da veracidade e do compromisso com a realidade que pautam o trabalho jornalístico.

A desilusão do Ser Pensante

Tendo em vista o momento político conturbado dos últimos seis anos e a constante redução no número de profissionais dentro das redações jornalísticas, é compreensível que o repórter se sinta esgotado. A atmosfera do país não é das melhores, e soma-se a isso os temidos passaralhos – jargão para as demissões em massa de jornalistas. A profissão como um todo, e principalmente a reportagem – o gênero mais nobre, que demanda mais recursos -, vem sofrendo cortes sem piedade.

Indo contra a maré, o jornalista precisa enfrentar todos esses desafios para que a sua mensagem chegue com clareza até o público. E pior: com a internet, os ataques à jornalistas se tornaram mais regulares. Ou seja, é muito difícil extrair algo de realmente positivo dessa situação. Apenas a paixão dá conta de manter o jornalismo vivo.

Nesse cenário caótico, pouco se discute a saúde mental dos jornalistas. Há casos em que o indivíduo é alvo de assédio moral ou chega a ser ameaçado de morte. Repórteres como Agostinho Teixeira e Giovana Grizotti – grandes nomes do rádio -, por exemplo, mantém suas faces incógnitas por receberem ameaças devido ao trabalho investigativo.

Sobrevivendo, apesar dos empecilhos

Recentemente, a Vice Brasil – braço no país da Vice Media – sofreu um lamentável passaralho, parte de uma reformulação do modelo de negócios da Vice no mundo todo. André Maleronka, editor-chefe da Vice Brasil, comentou com pesar sobre as demissões. “É muito triste. E essa decisão não passa por nenhuma capacidade profissional; é uma decisão de negócios. Isso é muito cruel.” – lamenta André.

Como editor-chefe, André se empenhou em criar um ambiente de colaboração dentro da Vice Brasil. A equipe formada por ele é plural e cooperante. “Eu trabalhei em muitas empresas com ambientes absolutamente abusivos. Por isso, na Vice eu fiz questão de manter um ambiente que não fosse competitivo.” André defende uma postura aberta, onde o editor de um veículo de comunicação é capaz de oferecer uma chance ao seu redator. “Eu acredito em dar oportunidades para as pessoas para que elas consigam se desenvolver como profissional.”

Antes de ser editor-chefe, André estava insatisfeito com a maneira como a mídia tradicional cobria certos assuntos. “Teve uma hora que eu me dei conta que tinham assuntos de interesses meus que não estavam sendo cobertos pela imprensa. E para isso não tinha um espaço.” – percebeu André. Ele enxergou uma brecha que não estava sendo coberta pela mídia, e transformou isso em matérias para a Vice. “Quando eu fui atrás, estudei e passei a reportar esses assuntos, foi isso que me deu a minha carreira.”

Para ajudar os jornalistas em formação, André aconselha três habilidades essenciais para ser bem-sucedido no mercado hoje. “Eu acho que para um repórter, o mais importante é a genuína curiosidade, o rigor da apuração e o domínio da linguagem.” – afirma André.

Modelos de negócio que rompem com o padrão

Assim como a Vice Brasil, outras duas publicações digitais cativam leitores no online: o Nexo Jornal e a Ponte Jornalismo. Ambos surgiram com uma proposta inovadora, que foge da rotina de uma redação hard news. Fausto Salvadori, autor para o site da Ponte, afirma que é preciso desbravar essas possibilidades. “É legal você ter sobre o que dizer. Qual assunto te apaixona? Descobrir qual é esse assunto e meter as caras. Crie as portas, as paredes e as janelas.”

São esses portais que atuam hoje com abertura de diálogo e equilíbrio de opiniões. João Paulo Charleaux, repórter especial do Nexo Jornal, acredita que o jornalismo é uma profissão relevante para a democracia. “O Presidente da Câmara, por exemplo, é revestido de liturgia. O jornalista não. Ele come pastel com garapa no almoço, ele bate perna. Mas também tem uma função que deveria ser vista como revestida dessa importância democrática.” João Paulo declara que a militância dentro do jornalismo é a própria cobertura do ato. “A forma como o jornalista se relaciona com o mundo é uma forma informativa, então a participação militante do jornalista deve ser reportando as manifestações, as marchas, as passeatas.”

Qual o futuro?

A mídia no Brasil e no mundo vêm sofrendo uma depreciação. Os indícios estão claros, e vão desde os números de vendas dos jornais até à popularização das fake news. Mas esse discurso é antigo, e faz parte do processo histórico do jornalismo. É interessante notar que mesmo em cenários tão desoladores é possível trazer novas percepções sobre um assunto. As publicações alternativas, como o Nexo Jornal, a Vice Brasil e a Ponte Jornalismo, são provas de que o fazer jornalístico não está morto. Esses veículos são o frescor jovem de uma era ainda em construção, uma era disruptiva, que cresce independente das amarras dos grandes grupos de comunicação. A realidade é essa.

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