Descaso do governo com o ambiente afasta investidores estrangeiros
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Descaso do governo com o ambiente afasta investidores estrangeiros

Descaso do governo com o ambiente afasta investidores estrangeiros

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De maneira geral, investidores aplicam na Bolsa de Valores onde haja custos mais baixos e produtividade alta. Embora a maioria ainda faça assim, cada vez mais, demandantes de serviços tendem a preferir investir em empresas sustentáveis, diante de mudanças climáticas, eventos extremos e preocupação social consideravelmente crescentes.

Mesmo que a geração de valor seja menor que a de empresas mais consolidadas, há a garantia de um investimento seguro e que agrida menos a natureza. Assim, os investidores analisam atentamente suas relações comerciais para preservar suas imagens e contribuir com o meio ambiente.

investidores
Investidores tendem a investir em empresas sustentáveis. | Foto: Shutterstock.

A partir do momento em que algo oferece risco à imagem, empresas não apostam suas fichas. “A responsabilidade socioambiental, hoje, é um tipo de gestão não obrigatória que cresce e é cada vez mais importante. Então, pode-se ter certeza de que, no futuro, ninguém mais vai colocar recurso para projetos e investimentos que não cumpram com requisitos ambientais”, afirma Pedro Ninô, economista e professor de economia do meio ambiente na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Ele complementa dizendo que as discussões sobre esse tema vêm desde a Eco-92, conferência que foi um marco na forma de pensar questões econômicas e sociais atreladas ao desenvolvimento sustentável.

“As empresas sabiam de suas responsabilidades, que seus processos produtivos geravam danos ambientais e que, por isso, precisavam mitigar esses impactos, neutralizá-los e, além disso, ir além daquilo que a legislação ambiental exigia. É daí que nasce a responsabilidade: ir além da legislação. Então, hoje em dia, a empresa que não atende à legislação e não vai além dela, cumprindo, por exemplo, um perfil de investimento responsável e princípios responsáveis, começa a ser uma barreira ao investimento”, completa.

Brasil e investidores estrangeiros

Com a questão ambiental em último plano, o Brasil pode sofrer justamente com o afastamento de investidores estrangeiros. No dia 23 de junho, oito embaixadas brasileiras receberam uma carta de representantes estrangeiros em que se diziam muito preocupados com o avanço do desmatamento da Amazônia e a situação de comunidades indígenas, que estão marginalizadas.

Com isso, exigiram explicações dos embaixadores e afirmaram que, caso não houvesse esclarecimentos, eles deixariam de investir no Brasil. Para o jornalista André Trigueiro, o cenário é complicado.

O governo está numa situação muito difícil, porque alegou que esses gerentes estavam desinformados. Só que a gente está na era do satélite, dos mapas georreferenciados. Não é possível enganar investidor. Essa retórica do governo é muito tosca, porque, na verdade, você tem um nível de precisão para monitorar desmatamento no Brasil a partir de equipamentos sofisticadíssimos que não são do Brasil.

Diz.
Mapa georreferenciado
Mapa georreferenciado da Amazônia Legal, obtido em 05/07/2020 no site do DETER-B. | Foto: Mariene Lino.

De acordo com a plataforma DETER-B, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), entre março e junho de 2020 (última atualização em 25/06), em meio à pandemia, foram registrados alertas para desmatamento de 2498.47 km2 na Amazônia Legal. Em comparação ao ano passado, houve aumento de 15% (2172.28 km2 em 2019). Além disso, o bioma teve 10.129 kmde floresta desmatados entre 2018 e 2019, maior número desde 2008, quando 12.911 kmforam destruídos.

Ao falar-se do Cerrado, embora tenha sido registrada queda de quase 24% nos alertas em relação ao período mencionado, o número ainda é alto: 1909.54 km2. A Mata Atlântica, outro bioma importantíssimo, teve 14.502 hectares – o equivalente a 14 mil campos de futebol – desmatados entre 2018 e 2019, 27.2% a mais em relação ao período 2017/2018, em que 11399 hectares foram desflorestados, de acordo com a Fundação SOS Mata Atlântica.

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O desmatamento na Amazônia segue durante a pandemia da Covid-19. | Foto: Paulo Whitaker/Agência O Globo.

Política ambiental brasileira

Aliado a isso, desde a campanha eleitoral em 2018, o presidente Jair Bolsonaro demonstra que esse não é o foco de seu governo. O então candidato chegou a falar da fusão entre os Ministérios do Meio Ambiente e da Agricultura, mas, depois, voltou atrás, nomeando o ministro Ricardo Salles para comandar a pasta.

O que configurava uma má gestão e flexibilização de legislações ambientais ficou potencializado com a pandemia do novo coronavírus. Neste período, foram tomadas medidas que reforçam o desapreço ao meio ambiente por parte do governo: incentivo a ações de grileiros – criminosos que se apossam de terras públicas na Amazônia –, respaldado pelo Projeto de Lei 2633/20, conhecido como “PL da Grilagem”; exoneração do diretor de proteção ambiental e de chefes de fiscalização do Ibama em abril; desautorização de fiscalização da Mata Atlântica a partir do Código Florestal, cujas regras são mais frouxas; entre outras.

Para Trigueiro, que também é professor da disciplina Comunicação e Meio Ambiente na PUC-Rio, o presidente cumpriu com o que disse em campanha.

“Em 2019, Bolsonaro no poder sacramentou exatamente o que havia prometido: estigmatizar o Ibama e o ICM-Bio; nomear um ministro nada comprometido com o meio ambiente; estigmatizar ONGs e ambientalistas; sacramentar a implosão do Fundo Amazônico.”. As medidas aludem ao que foi dito por Salles na reunião ministerial de 22 de abril. “Recomendou aos ministros todos que fizessem o que ele fez: aproveitar enquanto a mídia está de olho na pandemia para ‘passar a boiada’. Deu no que deu.”, completa.

Segundo uma publicação no blog do Banco Mundial, a recessão global em decorrência da pandemia será a mais profunda desde a Segunda Guerra Mundial (1939 – 1945), com declínios de Produto Interno Bruto (PIB) na maior parte das economias mundiais. Diante da crise, os gastos do governo e os investimentos estrangeiros são essenciais para o Brasil se recuperar.

No entanto, Pedro Ninô explica que o esforço externo, no momento, é o principal, visto que a crise está forte em território nacional e o investimento público não faz parte do perfil do atual governo. Diante da posição ocupada pelo meio ambiente na escala de prioridades, o grande prejuízo econômico pode ser esperado.

Se você não demonstra ao investidor que você tem uma boa atuação em relação aos requisitos ambientais, como a proteção da Amazônia, que é considerada um dos ambientes mais importantes do mundo do ponto de vista do equilíbrio ambiental planetário, cada vez mais vamos ter menos investimentos direcionados para o país. E quanto menos investimentos, mais difícil vai ser a nossa recuperação econômica.

Diz ele.

O economista também coloca o prejuízo social, já que, com a queda da entrada de capital estrangeiro, o governo depende de gastos governamentais e consumo da população, a qual, em meio à crise, tem seu poder de compra diminuído devido à perda de emprego e ao aumento de dívidas.

consequências da pandemia
A pandemia da Covid-19 é o estopim para uma queda brusca nos PIBs ao redor do mundo. | Foto: Andriy Onufriyenko/Getty Images.

Mesmo com as crescentes preocupações com o cenário econômico do Brasil, a situação da preservação ambiental ultrapassa o aspecto financeiro. A gestão ambiental, em qualquer país, refere-se a como se protege a riqueza e a diversidade ecossistêmica que o país abriga e como se resguarda as comunidades que dependem do meio ambiente para sobreviver. O aspecto social ligado ao descaso é mais relevante do que a questão econômica em si, de acordo com Ninô.

“Há um valor nos recursos ambientais que podem ser utilizados no presente e no futuro para gerar, por exemplo, emprego e renda, novas descobertas, remédios para a biomedicina e para a bioeconomia. Então, tem uma riqueza gigante dentro do meio ambiente que a gente desconhece ainda e que deveria ser preservada e manuseada de forma ambientalmente sustentável.”, afirma.

É o que também diz Gustavo Fagundes, economista formado pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ). Ele reforça a importância de haver maior atenção do governo para controlar a problemática. “Não podemos descartar o fato de que ações governamentais possuem extrema importância nessa questão. Seja para orientar, fiscalizar e multar e, assim, prevenir tais ações, ou até mesmo no sentido oposto, quando os estudos apontam o avanço do desmatamento e suas consequências.”, expõe.

Assim, um problema que não começou em 2020 e foi surpreendido por uma pandemia necessita ser mais bem cuidado. Fagundes reitera que, principalmente neste momento, é preciso ouvir e colocar em prática o que é melhor para o meio ambiente.

Com tanta pressão externa, e agora até interna, sem contar as dificuldades econômicas durante a pandemia, é inteligente demonstrar humildade e aceitar mais do que condições, mas orientações para um caminho a se seguir na preservação ambiental. Resta-nos, agora, uma dose de esperança em ver o governo, de fato, trabalhando para garantir um melhor controle ambiental.

Expressa.

Justamente, a questão econômica traz peso ao problema. Porém, o aspecto social, que compreende a preocupação com os seres humanos em situação de vulnerabilidade ou não, nunca pode ser deixado de lado, afinal, como escreveu Trigueiro no texto Meio ambiente na Idade Mídia, “o meio ambiente começa no meio da gente”.

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Por Mariene Lino – Fala! PUC – Rio

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