Depressão pós faculdade: entenda o que assombra os recém-formados
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Depressão pós faculdade: entenda o que assombra os recém-formados

Depressão pós faculdade: entenda o que assombra os recém-formados

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Terminar o curso que escolheu e dar início à trajetória em busca de um sonho parece ser algo romântico e ideal para qualquer um que acabou de pegar o diploma. No entanto, ao encarar a realidade do universo desconhecido que é o mercado de trabalho, muitos precisam lidar com uma sensação de impotência ao ver que as expectativas eram altas demais. Acontece que, para vários jovens, esse desamparo resulta em uma instabilidade emocional ainda maior: a depressão.

Depressão pós faculdade
Foto: Cole Keister

Do momento em que o jovem entra na fase de prestar vestibulares até o momento em que alcança a autonomia financeira, ele lida com uma pressão constante para o cumprimento de expectativas criadas pela família, amigos, ou até por si próprio.

“Hoje vivemos uma crise e uma transformação muito grandes no mundo em geral, causando uma perda de referências. Pessoas com empregos menos valorizados ou com um mercado mais competitivo, por exemplo, têm um risco maior de sofrer depressão” explica o psiquiatra Geilson Santana.

 É um período em que os sonhos são grandes, mas a realidade é dura. Por isso, essa juventude lida com uma instabilidade muito grande ao ver que o futuro não vai condizer tanto assim com aquilo que foi sonhado: “No caso do pós-faculdade, ele pode deprimir sim por conta de dificuldade de encontrar empregos, junto a outros fatores de risco”, reforça o psiquiatra Bruno Coelho.

“Tristeza faz parte da vida: quando a glicose do indivíduo está desregulada é diabetes, a depressão é uma desregulação de humor – ele fica triste o tempo todo”, completa.

O psicólogo Marcelo Rocha, professor da graduação em Psicologia da USP, fala dessa sensação: “Você avalia a si próprio como ruim, o mundo como ruim. Quando eu instalo essa negatividade no eu, no mundo e no futuro, estou deprimido”.

Ele também alerta sobre as consequências da depressão: “quanto pior a visão negativa de futuro, maior risco a pessoa tem de pensar em suicídio e de ter algum impulso que possa levar a morte”.

Quanto à expectativa criada pelo próprio jovem, Marcelo ressalta: “O problema é que a gente acha que pode mudar o mundo. O mundo chegou bem antes da gente e nós temos que nos adaptar a ele”.

Alunos na FICSAE / Foto: divulgação

Rachel de Carvalho, enfermeira e professora da Faculdade Israelita de Ciências da Saúde Albert Einstein (FICSAE), acredita que a depressão pós faculdade não está necessariamente relacionada com a expectativa criada em cima da credibilidade da instituição acadêmica que formou o portador.

A respeito da realidade da FICSAE, Rachel argumenta: “O fato de estarem em uma instituição de renome muda as expectativas dos alunos. Porém, hoje todos têm bastante acesso à informação, sabem como é o mercado de trabalho e que precisam de pós-graduação para se colocarem bem”

O filósofo alemão Byung-chul Han, em sua obra Sociedade do Cansaço, define que no mundo atual, as pessoas exigem tanto de si mesmas que não precisam ser exploradas por ninguém, pois elas mesmas já se exploram. A juventude se cobra tanto que acredita que, para ser feliz, precisa ter sucesso em todos os aspectos.

O psiquiatra Geilson Santana explica: “Hoje somos pressionados a produzir o tempo todo, a concorrência é muito grande, então existem pessoas que se sentem mal em momentos de lazer por não estarem produzindo e acham que estão ficando para trás. Mas é necessário saber dividir as coisas e não negligenciar o sono, o lazer, a diversão e os momentos com amigos, família”.

Marcelo dá continuidade à colocação, explicando que os indivíduos querem fazer parte de um sucesso global que não existe. “Além disso, as pessoas almejam tanto realizar grandes feitos que esquecem que a felicidade está nas pequenas coisas do dia a dia”, completa.

A depressão é algo sério, por vezes negligenciada pela sociedade em virtude do preconceito. Geilson lembra que a depressão pode levar à morte, o que reforça a importância de consultar-se com profissionais da saúde mental: “Muitos acham que a vida não vale a pena e que seria mais fácil morrer. Dentro desse espectro têm os indivíduos com pensamentos suicidas, os que chegam a planejar o suicídio, as tentativas de suicídio e o êxito letal, quando a pessoa consegue se matar”.

Foto: Tim Gouw

Existe um perfil para o depressivo?

Não existe um padrão definido para pessoas que sofrem de depressão, até porque todos estão sujeitos a ela. Existem, no entanto, características comuns geralmente encontradas entre os indivíduos diagnosticados com a doença.

De acordo com, Marcelo, essas pessoas geralmente são fielmente atreladas a regras, sejam elas religiosas, provenientes de uma construção social ou herança de criação, mas em sua maioria configuram conceitos muito estritos.

O psiquiatra, Bruno Coelho destaca que as mulheres são mais afetadas pela depressão após a puberdade. Ele complementa que entre as causas, existem adversidades comuns identificadas entre os portadores, como abusos sexuais na infância, negligências e uso de drogas, além da mais recorrente: sobrecarga de estresse.

Contudo, o psiquiatra reforça: “não existe perfil único (do depressivo), só fatores de risco”

Como identificar a depressão?

“Tristeza, faltas de vontade de fazer qualquer coisa de levantar da cama, lavar o cabelo, não comer ou comer demais. Fiquei com medo de procurar ajuda e de falar que tinha depressão, não queria banalizar sem querer a doença” – Laura Uliana, 22 anos, diagnosticada em 2016.

Humor depressivo: a pessoa não consegue regular o humor, fica triste na maior parte do tempo mesmo sem ter um motivo específico.

Falta de prazer com o que gostava: os hobbies, a profissão, o tempo que passa com os amigos ou qualquer outra coisa que trouxesse felicidade perdem o sentido, pois não trazem mais sensações positivas.

Pessimismo: não reconhecer que as coisas podem melhorar, achar que tudo está ruim e vai continuar assim.

Recente perda de algo que seja importante para o portador: um emprego, um namoro, etc.

Nem sempre essa pessoa se isola ou chora, mas seu comportamento passa a fazer menos trocas interpessoais

Dificilmente fala que precisa de ajuda ou que algo está errado, pois querem negar o que está acontecendo

Alteração do apetite e do peso

Sonolência ou insônia

Excesso de lentidão ou inquietude

Comprometimento cognitivo, como problemas de memória e dificuldade de tomar decisões. 

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Por Beatriz Biasoto e Luana Pellizzer – Fala!Cásper

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