O Sangue de Zeus: Netflix finalmente acerta o ponto - leia a crítica
Menu & Busca
O Sangue de Zeus: Netflix finalmente acerta o ponto – leia a crítica

O Sangue de Zeus: Netflix finalmente acerta o ponto – leia a crítica

Home > Entretenimento > Cinema e Séries > O Sangue de Zeus: Netflix finalmente acerta o ponto – leia a crítica

Lançado em 27 de outubro de 2020, o anime original do serviço de streaming Netflix, O Sangue de Zeus, chegou sem fazer muito barulho, mas galgou uma posição inesperada e muito bem-vinda. Dentro do compilador on-line de críticas Rotten Tomatoes ele tem 100% de aprovação no índice Tomatometer, responsável por medir a opinião da crítica. Já a percepção da audiência, não fica tão atrás, com 80% de aprovação por parte dos usuários do site. 

A série escrita pelos irmãos Charley e Vlas Parlapanides tem uma proposta relativamente ousada de expandir os mitos gregos sem necessariamente posicionar a trama no presente, como feito por Rick Riordan nas sagas literárias Percy Jackson e os Olimpianos e Heróis do Olimpo.

O Sangue de Zeus
Depois de tentativas, Netflix acerta o ponto em ‘O Sangue de Zeus’ | Foto: Reprodução.

Anime O Sangue de Zeus, da Netflix

O Sangue de Zeus parte da premissa simples de que muitas lendas da Grécia Antiga se perderam com o passar do tempo e essa história é uma delas. A trama acompanha Heron, um rapaz que cresceu excluído em uma pólis grega e descobre ser fruto de uma das muitas traições conjugais do rei dos deuses, Zeus.

O roteiro avança com a ameaça de um grupo de criaturas humanoides violentas e misteriosas, lideradas por Serafim, e as intrigas entre os deuses conforme a mulher de Zeus e rainha do Olimpo, Hera, decide assumir as rédeas da situação.

A dublagem no geral é eficiente, especialmente os trabalhos de Claudia Christian (Hera) e Jason O’Mara (Zeus). Mas o que mais se destaca em O Sangue de Zeus, com certeza, é o roteiro. O primeiro acerto vem do cuidado dos irmãos Parlapanides de não reutilizar muitas histórias e personagens mitológicos, de forma que eles possam construir seu próprio universo narrativo sem os grilhões impostos pela necessidade de ser fiel ao mito original. As exceções são evidentemente as classes dos deuses e gigantes, que cumprem basicamente o mesmo papel dos mitos clássicos, e Quíron, que se mantém na função clássica de mentor de heróis.

Os personagens de O Sangue de Zeus

Os personagens são bem construídos e é interessante como o design esforçou-se em dar identidade visual para os deuses do Olimpo, conferindo-os acessórios, vestimentas e cores que estivessem relacionados ao que representavam nos mitos. Isso os torna reconhecíveis a quem já conhecia a mitologia grega antes de assistir à série, mas também faz perceber que eles não são um grupo homogêneo e de indivíduos indistintos, como a trama lentamente revela.

Os personagens humanos também encantam, especialmente a dupla de contrabandistas Evio e Kofi, extremamente carismáticos e que adicionam um toque de leveza em uma trama cheia de violência sem soar tolo. No entanto, o destaque entre os personagens vai novamente para o casal que comanda o Olimpo, Hera e Zeus, só que por motivos diferentes.

Hera se destaca por ser deslocada da posição clássica de mulher traída que geralmente se vinga das traições do marido assassinando bastardos e amantes de forma descontrolada, irracional e injusta e se volta contra a raiz do problema: Zeus. É possível se conectar com as emoções de Hera e compreender suas motivações. Ela é dotada de uma inteligência tão apurada que se torna empolgante acompanhar seus planos. Sua perspicácia honestamente deixa o rei dos deuses bastante atrás, sempre tentando impedir o movimento seguinte da esposa, sem efetivamente consegui-lo. 

Contudo, um dos poucos problemas do roteiro é o soberano do Olimpo. O personagem é bem feito, é até capaz de conseguir a empatia do público; mas é nessa tentativa de torná-lo humano demais que reside o problema. A história é bastante indulgente com Zeus. Mesmo quando ele erra é de tanto tentar acertar. Se traiu Hera, foi por amar demais Electra. Se nunca acolheu Heron entre os seus filhos divinos, foi pelo ciúmes da esposa, e mesmo assim tentou se manter o mais próximo possível. Zeus divide com o filho o papel de grande herói da narrativa. Seria muito mais interessante (e honesto) vê-lo compartilhar com a esposa a função de anti-herói.

Fora isso, o roteiro é dinâmico sem ser apressado. Em apenas oito episódios, ele conta tudo o que tem para contar, enreda a história do líder dos demônios, Serafim, com as intrigas do Olimpo com eficiência e acrescenta poucas tramas secundárias que eventualmente se entrelaçam nas duas principais. Os plot twists algumas vezes ocorrem sem precisar apelar para elementos narrativos como a trilha sonora e a fotografia que potencializem a surpresa. Não é o choque que eles querem, mas a sensação de que em uma guerra eventos inesperados podem acontecer.

O último episódio é especificamente apoteótico, com batalhas surpreendentemente bem desenhadas e planos que revelam deuses diminuídos tanto em sua dimensão física quanto no seu potencial de vencer o embate. Eles escalam o ritmo da série ao máximo, com diversos acontecimentos importantes se seguindo sem necessariamente deixar o telespectador sufocado, dando-o espaço e tempo para processar os eventos. Sacrifícios têm a carga dramática necessária, flashbacks são usados de maneira precisa em dois momentos centrais, talvez de forma um pouco autopromotora para lembrar quem assiste de como as coisas se conectam bem na trama, mas é perdoável.

No final, a Netflix conseguiu surpreender por fugir da ideia de que suas últimas produções são medianas, regulares demais, e entregou um produto bem pensado, bonito e que funciona.

Nota: 9/10

____________________________
Por Joabe Andrade – Fala! UFMG

Tags mais acessadas