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Dalila e Alpharrabio: a cultura está a serviço do povo

Dalila e Alpharrabio: a cultura está a serviço do povo

Por: Beatriz Gimenez – Fala! PUC

 

História e criação

Dalila Isabel Agrela Teles Veras, mais conhecida apenas como Dalila Teles Veras, nasceu em 1946 em Funchal, Ilha da Madeira, Portugal, e é atual moradora de Santo André, São Paulo. Poetisa e apaixonada pela escrita, leitura e cultura brasileira, é dona da livraria e editora Alpharrabio, que conta com um acervo de livros de segunda mão, um café e um espaço cultural que recebe diferentes exposições semanalmente, e é considerado público, sendo aberto a qualquer um que busque conhecimento. Autodidata, a autora afirma: “eu sou o que eu li”.

Logo após a segunda Guerra Mundial e a intensa devastação da Europa, a América era um local de promessa para imigrantes europeus. Entre eles, estavam Dalila Veras, então com 11 anos, e sua família que em 1957 passaram a morar em São Paulo, capital. A poetisa afirma considerar seu primeiro contato e a paixão pela literatura algo misterioso, inerente a ela e profundamente ligada a sua rotina. Ao mesmo tempo em que afirma a possível interferência dos bisavós em seu gosto por livros, se pergunta o porquê de seus irmãos não terem seguido a mesma linha.

Dalila alega ter nascido para isso. Sua primeira publicação ocorreu no ano de 1982 com o livro de poemas “Lições de Tempo” e atualmente ela é autora de outros 16 com o mesmo estilo e, muitas vezes, com temática urbana. Ou seja, Dalila Veras retrata as mazelas cotidianas da vida na metrópole.

No mesmo ano, Dalila Veras fundou o grupo “Livrespaço de Poesia”. Como um local de criar e debater poemas, essa reunião de artistas durou 11 anos, algo que a escritora revela com orgulho, ao constatar a efemeridade dos grupos literários, os quais muitas vezes não duram mais de três anos. A revista literária do grupo ganhou o Prêmio da Associação Paulista de Críticos de Arte como a melhor realização cultural de 1993.

Em 1992, já morando em Santo André e sentindo falta de um polo, um local de encontro visando à cultura e à leitura, a escritora comprou uma casa, que, após 24 anos e algumas reformas, ainda mantém o nome “Alpharrabio – Livraria e Editora”. Contando com trabalho voluntário e apenas uma funcionária, Dalila Veras juntou um acervo de mais de 10 mil livros, em sua maior parte doados, voltados para as ciências humanas e sociais, principalmente literatura, filosofia, política e ciências sociais. Como um trabalho fruto da paixão, o sebo não visa lucro e vende poucas unidades, sendo a maior parte pela Estante Virtual. A poetisa afirma que a livraria nunca foi um sonho de vida, mas acabou acontecendo como uma necessidade. “Meu caminho foi feito andando”, alega Dalila.

Não apenas sebo, o estabelecimento é sede de atividades voltadas para a difusão da cultura, contando com a presença semanal de artistas tanto da área da literatura quanto das artes plásticas e da música. O local também estimula debates de ideias em uma sala considerada de “múltiplo uso”, com reuniões mensais do “Fórum Permanente de Debates Culturais do Grande ABC” desde novembro de 2007, tendo como assunto principal as políticas públicas da cultura.

Com um olhar muito atento para a região do ABC, Dalila Veras possui também a editora Alpharrabio, a qual é responsável pela publicação de mais de 200 livros, entre os quais, o diário da vida cotidiana no grande ABC “Minudências”, o qual faz parte de um grupo de cinco volumes escritos por diversos outros autores e chamado “Imaginário”. Cada livro retratou, no ano de 1999, a virada do século a partir de assuntos sociais correlacionados à vida pessoal dos autores e de acontecimentos nacionais. Diante desse desafio, proposto por Antonio Possidonio Sampaio, “Imaginário” é um símbolo da ideia de transformação do início de um novo século, contido no imaginário universal.

Outro livro publicado pela editora Alpharrabio foi “7 Anos 7 Cidades – Culturas” em comemoração aos 7 anos da livraria, também no ano de 1999. Nesse projeto foi dedicado um mês à pesquisa cultural de cada cidade do Grande ABC: Santo André, São Bernardo do Campo, São Caetano do Sul, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra, realizando uma “cartografia cultural da região”, como afirmou Dalila, com a ajuda de representantes de cada local. Além disso, como comemoração dos 12 anos da livraria, foi escrito o livro “Alpharrabio 12 anos – uma história em curso”, em parceria com Luzia Maninha Teles Veras, cunhada de Dalila Veras, com o objetivo de retratar todos esses anos por meio de relatórios antigos e transcrições de material de vídeo e áudio, resultando em um trabalho de mais de 400 páginas em um período de dois anos.

O amor pelo ABC

Em 1996, Dalila Veras mudou-se para Santo André e dessa forma iniciou-se uma busca pela cultura da região do ABC. A partir dessa data, a poetisa começou a juntar material sobre o assunto de tal forma que atualmente seu acervo pessoal chega a mais de mil livros, milhares de documentos e recortes de jornais diversos os quais retratam a história e a cultura local, formando o “ABC’s Núcleo de Referência e Memória”.

Esse acervo, para Sra. Dalila, representa a cultura de um local que, inclusive por seus moradores, é negligenciada. A presença somente de um museu em Santo André denominado “Museu de Santo André Dr. Octaviano Armando Gaiarsa”, caracterizado pela escritora como precário. Trata-se de um arquivo público já sem condições estruturais de suportar novos materiais que poderiam ser armazenados e destinados a consultas populares. Para ela, uma saída seria abrigá-los em uma instituição como a Universidade Federal do ABC, proposta que já foi sugerida por ela.

 

“O mundo não pode andar sem cultura”

Ao ser questionada sobre o público mais atingido por sua obra, a resposta de Dalila foi simples: nenhum. Em um Brasil de mais de 200 milhões de habitantes, um livro de poesia consegue vender apenas por volta de mil exemplares. Para a escritora, a atual geração de jovens está lendo cada vez menos e com uma concentração cada vez mais limitada, o que impede a criação do conhecimento.

Para Dalila Veras, as redes sociais são meios que, quando mal utilizados, são responsáveis pelo excesso de informação, o que não caracteriza necessariamente o conhecimento. A falta da filtragem das informações que chegam até o leitor e a absorção pura de um conteúdo manipulado geram alienação e o que a escritora caracterizou como “inocentes úteis”, ou seja, pessoas que somente reproduzem o que lhes é passado, abdicando da reflexão e da crítica muitas vezes em nome do ódio, como em atuais questões políticas. Para Dalila, o maior problema é a falta de leitura. “Conhecimento é ler”, afirma.

A autora ressalta projetos governamentais que considera bons, assim como o plano municipal de leitura de São Paulo, de que participou em 1993 e 1994. “O escritor nas bibliotecas”, promovido pela Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo, incentivava a visita de escritores a bibliotecas da região. Porém ideias como essas não obtêm grandes resultados, o que pode ser caracterizado, na opinião de Dalila, como culpa dos próprios professores, que não incentivam a leitura, além de não ensinar o árduo trabalho que ela pode representar. Muitas vezes leituras são consideradas obrigatórias em universidades em que o próprio professor não pratica a leitura e os alunos tiveram uma precária formação básica que não propiciou aos estudantes o pleno domínio da língua, o que pode defini-los como analfabetos funcionais já em pleno ensino superior.

Para a poetisa, a solução de tal problema só pode ser alcançada por meio de uma verdadeira educação, a qual mantém sempre parceria com a cultura. Dalila Veras não acredita em uma educação como produto que prepara o estudante para o mercado de trabalho, mas, sim, na real educação pública por meio da leitura.

Graças a sua livraria, a escritora apoia protestos contra desmanches culturais, promove o Ciclo Cultura Sem Carimbo, o qual dá voz aos artistas sem apoio oficial, além de mostrar seu descontentamento com o fim do Ministério da Cultura, com o projeto da escola sem partido e com a nova edição da Bienal Internacional do Livro de São Paulo que, a seu ver, atualmente se importa mais com os livros considerados best sellers, fomentando o “mercado do livro” vigente.

Atualmente

A livraria não deixou de realizar o trabalho de sempre, visando o conhecimento e a cultura a serviço da população. Com uma história que não pretende terminar tão cedo, Dalila Veras mostra imenso orgulho do trabalho que já fez e ainda faz com seu estabelecimento, procurando levar a leitura e a cultura para todos.

“Alpharrabio – livraria e editora” pode ser encontrada nas redes sociais e no site alpharrabio.com.br.

 

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