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Moda, cultura e política – como a década de 60 influenciou o mundo da moda

Moda, cultura e política – como a década de 60 influenciou o mundo da moda

Por Paulo Modesto – Fala!PUC

Como a década de 60 influenciou o mundo da moda

Enquanto grupos culturais e artísticos, ao lado de movimentos sociais, marcaram época na segunda metade do século passado, os mesmos tiveram grande influência na história da moda contemporânea. Com manifestações e críticas claras à sociedade conservadora, foi na década de 60 que esses movimentos culturais se radicalizaram e ganharam força entre a juventude. A vestimenta, o cabelo e os acessórios corporais, ou seja, a formação indumentária desses movimentos, passaram a servir como instrumento de formação identitária.

Apesar de renegada por alguns em análises históricas e estudos científicos, a moda deve ser pensada ao lado das outras expressões culturais que moldaram a década de 60 e que transformaram as gerações seguintes. Assim como o teatro, o cinema, a literatura, a música, a moda se contextualizava num panorama crítico. Ao lado das outras modalidades, também se encontra como forma de comunicação e linguagem que espelham um contexto específico.

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Mas ao mesmo tempo que as formas de linguagem culturais são reflexo do contexto de uma sociedade, podem virar reféns das mudanças nos panoramas sofridos pela sociedade capitalista. E com a moda não foi diferente das outras formas de comunicação, ainda mais por se tratar de um padrão estético. Todo o processo identitário refletido na vestimenta de movimentos culturais e sociais, com o tempo, foram abocanhados e transformados pelo mercado de consumo. É na juventude, em sua grande maioria das vezes, que o processo de autoafirmação ganha destaque, a preocupação com a imagem se fortalece. E é aqui que a vestimenta se torna um dos principais símbolos de consumo. Por conta da formação de identidade dos grupos sociais que ela representa é que o mercado de consumo se apropria dos movimentos de luta formados majoritariamente por jovens do século XX, mais precisamente na década de 60.

Ainda assim, num primeiro momento, os movimentos culturais formados pela juventude tem o objetivo de, através da composição estética recheada de características identificadoras em suas roupas e cabelos, escancarar uma linguagem de contestação. Nesse sentido, a moda urbana daquela década pode ser chamada de anti-moda, uma vez que seu princípio se dá na rua, para depois chegar às passarelas e lojas. Desta forma, movimentos culturais e sociais de grande impacto na moda urbana poderão ser destacados, mais precisamente na Europa e depois Estados Unidos, onde houve a efervescência e radicalização de movimentos sociais.

A moda funcionou na história como um aspecto da cultura que evidencia de modo mais claro uma sociedade, testemunha suas reivindicações. É por isso que se deve ter como referência a moda da sociedade sujeita as relações modernas, urbanas, relações mediadas por meio da aparência.

O que estava acontecendo no mundo na década de 60

Em um mundo sob forte influência do pós Segunda Guerra, os anos 60 foram marcados pelo impulso da juventude na busca pela contestação e protagonismo. Na Europa, países ainda sentiam as consequências dos anos de destruição pela guerra. Alguns perderam suas colônias imperialistas e outros se envolveram em mais conflitos com efeitos desastrosos. As consequências da crise eram claras, longas jornadas de trabalho e baixa remuneração; desigualdade salarial entre homens e mulheres; alto índice de desemprego entre os jovens.

Em janeiro de 68, a França é marcada pela implantação de um plano de ensino considerado opressor com exames de seleção (processo com o qual estamos sujeitos até os dias atuais). Posteriormente, no mesmo ano, estudantes viriam a se mobilizar contra a instituição de ensino e seus valores em uma manifestação que abalaria a França desencadeando nas mais diversas formas de protesto que se alargaram por todo o mundo.

Nos Estados Unidos, a década de 60 se inicia com a eleição do presidente John Kennedy. A Guerra Fria se acirrava com a construção do muro de Berlim e a intervenção militar no Vietnã se tornava cada vez mais polêmica e injustificável.

Em contrapartida a todos esses problemas é nessa época que se vê a possibilidade do radicalismo em movimentos sociais. Inspirado no grupo americano dos anos 50, nos Beatniks, surge na década de 60 nos EUA um movimento de contracultura, mais especificamente o movimento Hippie, fazendo campanha por direitos civis e causas culturais.

O movimento Hippie trouxe consigo um dogma cultural por parte de artistas não só americanos como de todo o mundo. Grupos de cantores e cantoras, assim como festivais de música que pregavam a libertação em todos os sentidos, são símbolos da contracultura que dominaram a época. Os Beatles, Janis Joplin e o festival Woodstock foram exemplos disso.

Após a eleição de Kennedy também se ampliava os movimentos urbanos em defesa dos direitos civis da comunidade negra e o debate em torno da segregação racial ganhava força. Principalmente por conta de que jovens negros estavam sendo mandados para a guerra no Vietnã.

Apesar de alguns desses movimentos anti-racistas e de cunho pacifista, o que ganhou destaque foi a vertente mais radical do movimento, os Panteras Negras, marcados por fortes características identitárias e radicais a ponto de optarem por uma luta armada. Os mesmos exigiam uma participação efetiva do negro na sociedade e criticavam o forte racismo praticado pela polícia americana. A repressão policial contra a população negra dos Estados Unidos da época deu espaço para mais um poderoso movimento de rua ganhar força através da cultura, o movimento Hip-Hop, esse com marcante influência na moda até os dias atuais.

A década de 60 é mais especificamente a era dos movimentos de contracultura, a negação daqueles valores ocidentais estabelecidos, é por isso que Hobsbawm, em sua obra Era dos Extremos, chama a década de 60 de revolução cultural.

Movimentos de cunho político que marcaram a moda

Movimento Hippie

Aquilo que caracteriza o vestuário do movimento Hippie tem origem na década de 50 com a juventude Beat. Os Beatnicks usavam cabelos longos e desalinhados, barba e bigode por fazer, sandálias nos pés quando não descalços e uma bolsa alçada nos ombros. As mulheres usavam roupas pretas e justas remetendo ao luto. Nos pés, sapatilhas. A forma de se vestir passou a se ligar cada vez mais ao comportamento, e na década que viria a seguir a moda passou a ser claramente um sinal de liberdade, logo, as roupas deveriam refletir o mesmo.

Direitos: Ric Manning
Jovens próximos ao festival Woodstock em agosto de 69

Com o movimento Hippie cai o paradigma que é a diferenciação na vestimenta de homens e mulheres. Os cabelos masculinos passam a ser longos e as peças masculinas começam a habitar os guarda roupas femininos. Túnicas orientais permitiram que o uso de vestidos não se desse mais exclusivamente às mulheres.

As duas principais marcas no vestuário hippie é a calça jeans, ainda dentro da questão do vestuário unissex, e a forte influência de tecidos vindos do oriente.

Os cabelos longos, enfeitados por flores e penteados pelos ventos eram uma das principais características de identificação do movimento. No caso dos negros, um cabelo no estilo black power, natural, assumindo a descendência afro. A partir das descrições indumentárias dos hippies é possível lembrar, devido a uma questão estética, diversos artistas que marcaram época justamente na década da contracultura. É muito fácil lembrar dos cabelos longos e floridos e relacionar com a vestimenta dos Beatles. No caso feminino, Janis Joplin. E, mais além, para os negros, Jimmy Hendrix. No momento em que as empresas ficam cientes desse novo mercado consumidor de enorme potencial, movido pela moda, mas também ligado à música, é que se criaram produtos específicos destinados a anti-moda, mas com intenção exclusiva de gerar lucro a uma empresa. O que contrapõe a crítica exercida pelo movimento a sociedade de consumo e a mercantilização da cultura.

Direitos: Warner/Reprise Records
Foto promocional do Jimi Hendrix postada em 1968. Data da foto desconhecida

Panteras Negras

Foi principalmente através do Black Power que o partido dos Panteras Negras influenciou a cultura da moda. Era uma espécie de resistência a estética europeia ocidental. Eles possuíam uma composição única de vestimenta. Os homens vestiam jaqueta de couro, calça, sapato, boina e luvas, todos os itens pretos. Esse visual colaborou para o forte caráter identitário do grupo, uma vez que o vestuário tem papel essencial no processo de construção de identidades. As mulheres sempre vestiam saias pretas, óculos escuros e muitos acessórios no braço. O Black Power era a principal característica. O estilo delas marcava o confronto aos paradigmas impostos pela sociedade.

Enquanto o Partido dos Panteras Negras desafiava a sociedade racista americana com a propagação de um padrão estético com a mensagem “black is beautiful” (preto é lindo), o que marcou foi o armamento em peso da população negra em confronto a intimidação da polícia. Naquela época, qualquer um sem ficha criminal poderia andar armado, inclusive em lugares públicos.

O símbolo do partido era uma pantera devido a seus princípios, apenas atacaram quando se sentiram ameaçados, e nunca em vão. Eles combatiam não só a supremacia branca, mas também toda supremacia capitalista. Rapidamente o Estado americano agiu e criou uma lei para proibir o porte de arma na rua.

Devido aos acontecimentos da época, o ícone visual e estético dos panteras se enraizou entre a juventude negra, e a cultura popular da periferia americana se tornou personagem mais que essencial no que pode se chamar de cultura pop. Os Panteras passaram a ser foco de fotógrafos e revistas, fascinados por aquele padrão indumentário. Eles eram ousados, corajosos e tinham cara de mal, suas roupas refletiam exatamente isso. Todos queriam fazer parte.

Fotógrafos: O’Halloran, Thomas J e Warren K. Leffler
Convenção do partido dos panteras negras em março de 1970

Segundo depoimento de Jamal Joseph (integrante dos Panteras Negras) para o documentário “The Black Panthers”, os panteras não inventaram a ideia do ‘preto é lindo’. As pessoas passaram a usar peças afros e foi o visual urbano do negro é lindo quem eles criaram, e esse visual estourou. Se você era jovem negro de qualquer cidade, você queria ser assim.

A revista Rolling Stones passou a ter integrantes do Partido na capa de seus lançamentos, expondo suas vestimentas e cabelos estilosos. Aquela estética se tornou novamente, através da indústria, forma de comercialização. Assim, a cultura pop dos Estados Unidos ficou marcada. Basta olhar o Hip-Hop de rua e buscar todas as suas heranças herdadas da composição indumentária dos Panteras.

Moda de rua, Hip-Hop

A cultura americana do Hip-Hop não trata apenas sobre música, é quase como um estilo de vida. Os jovens da periferia de Nova York, especificamente do bairro Bronx, viam no Hip-Hop uma porta de saída do gueto, e a luz no fim do túnel era sempre roupas, moda e estilo.

Quando se trata de cultura afro-americana, sempre a um estilo de roupa único, uma abordagem muito particular da moda. A moda e o Hip-Hop se misturaram e se tornaram uma influência cultural expressiva, recorrente da época em que o ritmo musical ganhou expressão. Segundo André Leon Talley, editor da revista Vogue, em depoimento ao documentário Fresh Dressed, a música afro-americana se torna símbolo da moda no país a partir da influência de um famoso cantor da década de 60, Little Richard, um símbolo da liberdade devido a suas famosas canções e modo extravagante de se vestir. Nomes como Little Richard marcarem justamente essa época tem seu porquê.

A era das mudanças culturais por todo o mundo também será lembrada pela violência no bairro do Bronx, bairro precursor do Hip-Hop. Músicas e roupas que fossem símbolo de liberdade eram de grande significado por toda a repressão que os negros vinham passando nos Estados Unidos; os incêndios, a brutalidade da polícia e os recorrentes assassinatos de líderes de movimentos de direitos civis, como Malcom X e Martin Luther King Jr.

Mas foi também com influência da violência que parte da moda afro americana se concretizou, com o papel das gangues nesse processo.

As gangues no bairro do Bronx surgiram como consequência de toda a violência sofrida pela juventude, e nelas a forma como se vestir era de extrema importância. Era importante usar calças jeans pretas e jaquetas de motociclistas personalizadas com costuras e as mangas cortadas. A arte de personalizar do hip-hop, em parte, foi herdada das gangues de rua.

Quando um pacifista do grupo Ghetto Brothers chamado Black Benji é assassinado por clubes rivais, no Bronx, a guerra nas ruas da breve trégua para que as pessoas parassem de batalhar, e, com isso, a atmosfera mudasse. As batalhas musicais tomaram conta das noites, as disputas entre b-boys e b-girls. E nelas o estilo também importava muito. As roupas não eram mais jaquetas de motociclistas, porém ainda tinham letras costuradas formando o nome de seus grupos no casaco ou no suéter.

Algumas brigas eram resolvidas na pista de dança, outras no toca discos, outras no microfone, outras no grafite das estações de trem, mas tudo em função da nova modalidade que ascendia, o Rap. Todos passaram a querer vestir o chamado estilo B-boy, foi lançado uma nova moda, a moda Hip-Hop.

As ruas passaram a ser passarelas para as marcas de roupa, com dezenas de estilos diferentes em ascensão. Não havia ainda um estilo definido, as pessoas começaram a se vestir de acordo com seus bairros. Se você viesse do Brooklyn seria facilmente identificado com um par de tênis da marca Clarks, calças skins Sharks e óculos Cazal sem lentes. Caso viesse do Harlem, a pessoa usaria moletons de velour, onde independente da marca todas as peças do look deveriam combinar. O Bronx era uma mistura de Brooklyn e Harlem. Você sabia de onde as pessoas eram apenas pelo jeito como se vestiam.

O Hip-Hop herdou suas cores do grafite, as cores chamativas das latinhas de spray eram as cores da moda. As jaquetas  e calças jeans eram popularmente personalizadas com tinta, principalmente na lateral, onde o nome de alguma pessoa ou grupo era escrito. Alguns desenhos eram relacionados a realidade que a população vivia,  era recorrente o grafite de algum personagem famoso como o Mickey portando uma arma ou fumando crack.

Os artistas não tinham muito dinheiro no bolso. A única hora que você podia vencer a insegurança, de mostrar o que você faz ou mostrar qualquer tipo de status era pelo que você tinha no corpo, se você se vestia bem, isso significa que estava bem. O estilo era expressão de orgulho e dignidade. Apesar das condições de vida ruins, mostravam alto nível de personalidade na forma como se vestiam. As roupas estilosas eram forma de orgulho, inspirando as pessoas no mundo a quererem se vestir assim, a ter estilo.

Quando grandes revistas começam a estampar estrelas da música como LL Cool J em suas capas, marcas de estilo B-boy, como a Shirt Kings por exemplo, passam a ficar mundialmente conhecidas. Foi através da aparição de rappers em sessões de fotos que a moda afro-americana se tornou famosa em todo o mundo e marcas de roupa passaram a ganhar muito dinheiro capitalizando esse estilo de cultura.

Como os movimentos destas modas repercutiram no Brasil

O Brasil da década de 60 vivia uma ditadura. Os militares, através de um golpe de estado, tomaram o poder em abril de 1964 derrubando o até então presidente João Goulart. Com o passar do tempo, a ditadura cada vez mais a censurava as produções artísticas.

E outubro de 67, um grupo de artistas, durante o Festival de Música Brasileira, começaram o movimento conhecido como Tropicália. Confrontando valores culturais e desafiando o vazio artístico que o Brasil vivia em consequência da ditadura, eles desafiaram os militares em prol da liberdade cultural. Os principais cantores e compositores integrantes do movimento são Caetano Veloso, Gilberto Gil, Gal Costa, Rita Lee, Sérgio Dias, Arnaldo Baptista, Nara Leão, Glauber Rocha e Hélio Oiticica.

É fácil perceber a influencia dos fatores externos ao que aconteceu no Brasil. Dois meses depois das manifestações de maio 68 na França, citadas no texto, um coletivo de artistas brasileiros, com Caetano Veloso, Gilberto Gil e companhia, lançavam um disco chamado Panis et Circenses em referência aos estudantes parisienses estabelecendo uma crítica aos valores culturais da sociedade da época que reprimiam as transformações e mudanças da juventude.

A mudança cultural da Tropicália não foi apenas na musica, o design  de roupas também foi fortemente revolucionado. O tropicalismo não era só consequência do momento que vivia o País, mas também reflexo do contexto mundial da década de 60, onde ocorreu uma virada de página em relação a os costumes da sociedade. A cultura hippie foi a principal influência internacional do movimento, no que se refere a estética. Roupas coloridas com panos vindos do oriente e cabelos longos também marcaram a moda no Brasil dessa época.

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