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O Continente Imaginário de Sidney Nicéas

O Continente Imaginário de Sidney Nicéas

Por Rafael Mastrocinque – Fala! Universidades

 

Era a última quinta feira da 24ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo. Sidney nos saudou novamente, atirando a mão direita ao ar e sorrindo impetuosamente, desinibindo o clima da pequena palestra do estande “Pernambuco Continente Imaginário”. Vocês perderam Zé Brown! – exclamou. Não podia conter as emoções, relatou tudo do pouco que aconteceu. O movimento é bom! Vendi seis ou sete livros! Jura? Isso tudo hoje? Não, desde o começo da semana! Irradiou-se.

O escritor pernambucano nos aguardava nas catracas da Bienal. Deu um forte abraço em Bruna. Estagiária. Fazia assessoria de imprensa para a publicação do quinto livro de Sidney Nicéas, “Noite em Clara”.

– Seguinte, eu fico lá no último corredor, de letra “Ó”, siga até o final e vire a direita, até logo! Instruiu Sidney.

Era alto, tinha cabelos negros cobertos de gel. A recepção suavizou o homem das roupas pretas e rosto de traços firmes. Deu as costas e seguiu ligeiro em seu compromisso.

Toda a estrutura do evento era colossal, erguia o título de “Maior Feira Literária da América Latina” sem sufoco. Parar e xeretar os estandes era inevitável – o que poderia garantir algumas sacoladas surpresa ou pisoteadas de crianças eufóricas por esta contravenção. Pôsteres das celebridades convidadas, como Maísa e Jacquin, estandes faraônicos, redes de fast food, sacolões multicoloridos estufados, balões, coroas e outros brindes extravagantes davam um tom de Disneylândia à feira do livro. Só a compra do ingresso não bastava para aproveitar a festa.

Virando à direita no corredor “Ó” se encontrava o pequeno estande habitado por Sidney, ao fim de mais uma palestra. Discreto e com belas ilustrações de cordel, o “Pernambuco Continente Imaginário”. Estava no corredor dos banheiros e das únicas lanchonetes sem grife, vizinho do Grupo de Educação Fiscal Estadual de São Paulo e da sala de imprensa. Um estande imaginário. O projeto foi um caso amargo, a iniciativa era alçar a literatura do estado para o país inteiro. Era para ser um estande de resistência, sabe? Ressaltou.

Eles concederam espaço aos autores regionais, mas sem comprometimento com passagens, estadia e outras questões necessárias de divulgação. Ficaram então os escritores que já moram na capital e aqueles que tinham as suas reservas ou mecenas para bancar a vitrine.

Afastada de quase toda a muvuca dos estandes, estava a gélida sala de imprensa. O piso cinza, os móveis brancos e as mesas pretas harmonizavam com a saída. A cafeteira rosnava a todo o vapor, e às vezes, alguns ruídos de fora entravam na sala. Com a situação lá fora das manifestações e com o golpe, que jornalista vai querer falar de Bienal? Questionou.

Era primeiro de setembro, pairava ainda toda a violência contada em poucos suspiros, sobre os dois primeiros dias dos movimentos “Fora Temer”. De fato, novos escritores seguiam com olhares perdidos na sala à procura de jornalistas, carregando os seus livros e releases. Alguns apareciam apenas com um maço de marca páginas personalizados nas mãos. Não encontravam ninguém e se consolavam com um café.

Quadrado. Foi a resposta de Sidney Nicéas sobre o evento enquanto estávamos naquela sala envidraçada. Faltou a celebração da literatura! Protestou Sidney. Precisava de um dinamismo artístico maior, se não fica o cara ali assinando, a fila toda e vira aquele velório – acrescentou o escritor em meio à gestos mecânicos e o transladar irônico do corpo.

Sidney já esteve em outras bienais, como a de Pernambuco e Bogotá. Tinha música ao vivo, sarau aberto de poesias e apresentações teatrais. Ali a coisa acontecia! Destacou. Talvez fosse networking demais para o pernambucano.

Sidney atuava antes de pensar em publicar livros. Escreveu sua primeira peça aos 19 anos de idade em João Pessoa, era um texto em versos e muito rock’n’roll, contou aos risos. Foi de curta temporada nas ruas da capital paraibana. Mas desde então, a intervenção artística enraizou-se no âmago do escritor. Seguiu em suas andanças. De Pernambuco ao Paraná, de Bogotá ao Grajaú. Se os trajetos eram inusitados, as ações também eram. Filmou documentários, realizou intervenções artísticas, lançou livros, deu aulas de redação em cursinhos das periferias e por aí vai. Gosto de estar no meio da gente. Explicando em seguida o horror que sentia da esnobe altitude dos egos literatos. Vida de autor é tentar aparecer para o mundo, pontuou.

Podia saborear as suas vivências, contou sobre quando declamou à um morador de rua na Augusta. Isso foi durante o “Poesia em Um Minuto”, Sidney e seu amigo Carlos Sierra serviam café à quem passava em uma mesa vulnerável de plástico, diante da pressa do cruzamento com a avenida Paulista. Em seguida, dedicavam um poema aos convidados.

Era o personagem que eu queria, sorriu. Projetou o encontro todo. Representava no meio da sala o espanto do homem ao ouvir os primeiros versos. Fazia caras e bocas. Poetizou o peso daquele momento para a sua vida, em meio a pausas para receber alguns conhecidos e olhares curiosos diante de sua figura chamativa. Contou que o homem permaneceu mudo até o momento que levantou-se da mesa. Obrigado. Foi tudo que o homem disse antes de deixar Sidney tão realizado quanto ele.

Fomos interrompidos algumas vezes por figurões da bolsa de valores literária. Ofereciam bugigangas editorias. Livros de realidade aumentada, resenhas psicológicas de obras e etc. À primeira vista, Sidney Nicéas era um autor de livros de raiz pernambucana a lá Suassuna. Inclusive, Raimundo Carrero escreve na contra capa de “Noite Em Clara”, Sidney Nicéas é uma surpresa para a literatura nacional. No entanto, a sua escrita nada condizia com o Sidney das manifestações artísticas. O escritor parecia ter um olho mágico embutido no peito. Eu escrevo sobre o que me incomoda, com uma visão mais psicológica sobre a vida e sobre mim, explicou. “Noite Em Clara” é um conto lírico sobre um estupro. Uma narrativa ousada, preocupada em transmutar em palavras os sentimentos, os pensamentos e o cicatrizar tortuoso da personagem, centralizada na obra. Sidney vai refinando até o indivisível para reproduzir a dor de uma personagem em fragmentos.

A sala esvaziou-se de vez. Kéfera Buchmann, blogueira, escritora, atriz e celebridade acabara de chegar na Bienal. Acompanhada de trovoadas de fãs animados. Sidney me contava de achados durante a feira. Nabukov, Clarice e um livro de contos de Níkos Kazantzákis, que logo emendou em sua paixão pelo livro “A Última Tentação de Cristo”. Tornou então a reproduzir um de seus trechos favoritos da obra com prazer na fala e no jogo com as mãos. Algumas partes foram perdidas durante repentinas investidas de delírios dos fãs da blogueira. Kéfera tinha mais apóstolos.

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