Crônica: Por que eles podem, mas eu não?
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Crônica: Por que eles podem, mas eu não?

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Eu tinha uns 7 anos quando tudo começou.

Uma professora me parou no meio do recreio. Correr pela quadra brincando de pega-pega não era coisa de mocinha, eu devia ir para o pátio pular amarelinha com as outras meninas. Abaixei a cabeça e obedeci, ela era a autoridade ali, afinal.

Aos 8, aprendi que as meninas deviam fazer aula de dança durante a educação física. Os meninos podiam ir para o judô. Apesar de querer ter aula de judô, abaixei a cabeça e obedeci, aquelas eram as regras.

Quando tinha 9 anos, ouvi professores alheios cochichando durante uma competição que meus ombros largos e minhas coxas grossas não serviam para a ginástica olímpica. Talvez eu devesse tentar vôlei. Mas como eu poderia tentar vôlei se os esportes com bola eram reservados aos meninos e eu só podia ficar na ginástica ou na dança? Fingi que não havia ouvido os comentários.

Aos 10, pequenos seios de menina marcavam minha blusa justa e notei que os amigos com quem jogava bola nas noites quentes de verão já não falavam comigo olhando em meus olhos. Não disse nada, mas chutei a bola de futebol na cabeça de um deles e voltei para casa irritada. Nunca mais usei aquela blusa.

Aos 11 anos, ouvi pela primeira vez que minha roupa era curta demais. Era Natal e eu havia colocado um vestido novo para comemorar na casa de minha avó. Em dado momento, levantei da mesa para pegar alguma coisa. A frase saiu da boca de minha mãe. Fiz uma careta em resposta, mas me mantive sentada e incomodada com aquilo pelo resto da noite.

Aos 12, fui convidada para uma festa de aniversário. Em certo momento, eu e um amigo ficamos sozinhos conversando do lado de fora do salão de festas do prédio por uma meia hora. Quando entramos para pegar algo para beber, os outros davam risadinhas e nos olhavam com interesse. No dia seguinte, circulava pelo colégio um boato dizendo que tínhamos nos beijado. Abaixei a cabeça e ignorei. Nunca mais falei com aquele menino, mesmo sem nunca descobrir quem espalhou aquilo.

Aos 13 anos, parei de usar shorts. Não gostava da atenção que eu atraia quando os usava em locais públicos. Ninguém nunca questionava o motivo de usar calças jeans (sempre escuras, afinal, as revistas de moda dizem que essa cor afina o corpo) mesmo nos dias mais quentes de verão.

Foi aos 14 que me disseram que garotas devem usar salto alto para irem em festas. Não importava que eles apertam e machucam e que minhas sapatilhas simples eram muito mais confortáveis, subir no salto é uma das dores que as garotas devem passar para ficarem bonitas. Acreditei nas palavras de outras mulheres sem questionamentos.

Aos 15, ganhei de meu pai minha primeira câmera fotográfica, poderia enfim seguir uma paixão que desde a infância me consumia. Mas fui proibida. Não podia sair com ela de casa, onde já se viu uma mulher andando por aí sozinha com um objeto de valor pendurado no pescoço? Seria alvo fácil de assaltantes. Concordei com um aceno de cabeça, mas saia de casa com ela escondida dentro da mochila. Me recusava a deixar pegando pó, sem uso, dentro de casa, apesar dos riscos.

Tinha 16 anos na primeira vez que aconteceu. Caminhava pela calçada com uma amiga e seu cachorro. Um carro parou ao nosso lado e dois homens nos olharam de cima a baixo pela janela. “Sabia que vocês são muito gostosas?” Mostramos o dedo. “Que mal-educadas, a gente nem queria mesmo.” Seguimos nosso caminho caladas.

Aos 17, caminhava na beira da praia com uma amiga quando alguns caras se aproximaram. Começaram a conversar conosco, e lá ficamos por algum tempo, com o mar lambendo nossos calcanhares. Trocamos telefones. Algumas horas mais tarde, recebemos uma mensagem. Pouco depois, uma foto inesperada. Bloqueamos o número e não falamos mais sobre isso.

Tinha 18 quando comecei a frequentar baladas. No primeiro “não” que falei, ganhei hematomas em forma de dedos no braço. No segundo, foram na costela. No terceiro “não” meu punho foi agarrado e a bebida em meu copo parou no rosto dele. Voltei para junto de meus amigos irritada, mas não falei muito sobre aquilo.

Aos 19 anos aconteceu pela segunda vez. Voltava para casa da aula, era hora do almoço e a música alta ecoava nos fones de ouvido enquanto percorria os 200 metros entre o ponto de ônibus e o portão de casa. Ouvi uma buzina e, assustada, olhei sua origem, apenas para ver um motoqueiro que passava fazendo tchau com a mão. Parei de andar por um momento, atônita demais para reagir. Nunca falei sobre isso.

E, aos 20, meu pai não quis me deixar sair porque, segundo ele, o short que usava era curto demais. Era a primeira vez que usava a peça de roupa desde os 13. Calcei os chinelos e fui mesmo assim. Só ia ao mercado que fica a 50 metros de distância e decididamente não iria trocar de roupa.

Desde muito cedo, as mulheres são vítimas de um machismo tão culturalmente aceito e arraigado na crença social que nem se passa mais por machismo. Já se tornou parte do cotidiano. No Brasil, este grande “país tropical e abençoado por Deus”, como Jorge Bem Jor canta desde os anos 60, aproximadamente 7 mulheres são estupradas por hora, sendo que mais da metade vítimas tem menos de 13 anos; uma mulher foi morta a cada duas horas, em 2016 e, em 2019, alcançamos o posto de 5° país com a maior taxa de feminicídio no mundo; apesar disso, 99% dos agressores ficam impunes.

Em um país onde tantas vidas são roubadas, onde tantas meninas sofrem em silêncio por anos, onde nenhum lugar é seguro, nem mesmo nossa própria casa, as coisas que vivi tornam-se insignificantes. O que é um boato, uma foto, um apertão, em um lugar onde o sangue de tantas mulheres mancha o chão todos os dias? Mas a violência começa aos poucos. A violência começa quando somos ensinadas que não devemos correr ou aprender a lutar. A violência começa quando abaixamos a cabeça e aceitamos. A violência se perpetua quando ficamos caladas.

E a violência perde as forças, ao menos um pouquinho, uma menina por vez, quando percebemos que precisamos levantar os olhos, usar a roupa que quisermos, calçar os chinelos, e lutar contra ela. E mostrar nossa voz. E denunciar situações, pessoas e lugares. A violência não acabará da noite para o dia, mas podemos enfraquecê-la, mesmo com atitudes pequenas, um passo por vez, através dos anos, uma mulher seguindo a outra, cada vez mais aumentando nossas forças.

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Bruna Janz – Fala!PUC

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