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Crônica: Existe amor em SP?

Crônica: Existe amor em SP?

Por Nicoly Bastos – Fala!Cásper

ENCONTRO NO METRÔ

7 da manhã. Ana Clara embarca na linha verde em direção a mais um dia de agitação na maior metrópole da América Latina. Carregando consigo sua mochila por um braço e seu livro do momento por outro. “Amor Líquido”, de Zygmunt Bauman. O livro diz tudo. Fora uma semana perturbada para Ana. Já não sabia mais como acreditar no amor após aquele paulistano do carnaval ter despedaçado seu coração. “Era pra ser só um beijo”, continuava a repetir em seus conturbados pensamentos. Sempre fora muito intensa, sem medo de se entregar ao amor. Agora já não sabia mais. No que acreditar, no que se jogar. “Amor Líquido” persistia a repetir à si mesma. É disso que SP está movida. Apenas a amores líquidos, sem consistência, sem solidez. Efêmeros. Já haviam se passado 3 estações quando um inesperado ocorreu para mudar a perspectiva de Ana.

Na baldeação com a iluminada linha amarela, subiu Cecília. Seu nome? Escrito fracamente num crachá de restaurante. Talvez fosse garçonete, pensou Ana. Mas isso com certeza não estava em foco. Assim como a linha de onde veio, Cecília exalava luz. Com seus cabelos louros e olhos cor de mel que contrastavam com os de Ana, que eram escuros, sombrios. Conforme o transporte corria, Ana fixava seu olhar cada vez mais naquela garota cujo nome soava tão lindo e poético em sua mente. De repente, aquela garota era tudo o que importava naquele momento. Cecília, porém, estava ocupada demais planejando seu cheio dia paulistano para reparar nos olhares apaixonados de Ana Clara. A mesma, que sempre sentiu demais, ficou retraída encarando mais um de seus amores cotidianos e aleatórios. Apenas tentou gravar aquele rosto desconhecido por tempo suficiente a guardar em sua memória.

Uma voz feminina e familiar ecoa no recinto anunciando a próxima baldeação. Não era seu ponto, mas Ana nota que era o de Cecília pela sua movimentação em direção a porta. O metrô vai se aproximando àquela linha de cor melancólica e vazia. As portas se abrem e Ana vê sua talvez nova chance de amar sumindo em meio ao aglomerado de pernas apressadas. Cecília partiu sem se despedir. Sem ao menos ter a chance de ter ficado. Ana se sentiu triste. Queria tê-la feito ficar. Talvez ela ter ido sem se despedir tenha sido melhor? Talvez. Mas aí se lembrou de seu rolo de carnaval, lugar em que pessoas se perdem uma das outras constantemente e a trocam por outras, assim mesmo, como trocam de roupa. E vão embora, sem ao menos se despedir. Se ao menos seu antigo amor tivesse se despedido, teria valido de alguma coisa toda a sua entrega. É melhor pensar que independente de qualquer coisa, ambos se amaram muito, mesmo em seu desencontro. E depois, apenas não se encontraram mais. A próxima estação chegou. Ana desceu naquela mesma linha em que havia entrado, mas com um pensamento diferente do anterior. Decidiu que não teria mais medo de despedidas, e que iria deixar a vida decidir por si só. Partiu da linha verde em direção à uma cidade onde não perderia mais oportunidades de se deixar amar e ser amada. Em busca de responder a um questionamento. Existe amor em SP, ou você só precisa o encontrar em si mesma?

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