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Crônica: Centro-sentido

Crônica: Centro-sentido


Centro-sentido

Estação de metrô da Sé, quase onze horas da manhã. A escada rolante me levava pra perto daqueles sons ainda abafados, que gradativamente se tornavam mais claros. Vozes vindas dos diálogos cotidianos e do chamado dos comerciantes, buzinas dos carros e ônibus agora se concretizavam, ainda embaralhados aos ruídos não identificados. Esses sons diversos prenunciavam um Centro a ser experimentado.

Sincronicamente, a imagem tomava forma. O sol que me permitia enxergar a feira de rua logo na saída da estação, também ofuscava minha vista para o alto daquele aglomerado de prédios, que se fariam diversos e singulares quando olhados de perto.

O Centro era experimentado a cada passo e desafiava cada sentido. Entre os sons revelados em instantes, a pele aquecida devida tamanha luminosidade do dia e os cheiros que se alternavam, meus olhos tomavam noção da materialidade daquele lugar. As colunas jônicas da Caixa Cultural vistas num primeiro plano, não escondiam os prédios abandonados ao fundo.

O caminho ganhou novas figuras. As construções históricas, como o Pateo do Collegio, me faziam tentar ir além da percepção e reconstruir na mente o que o Centro foi um dia. No entanto, as ruas contam o aqui e agora. A placa de uma rua foi coberta por um adesivo “Marielle Presente. Rua Quem Mandou Matar Marielle?”. Outra pintura estampava “Existe guarani em SP”. As manifestações urbanas me faziam voltar para o presente.

Tomada de volta a consciência do espaço, a expressão cultural se revelava mais nítida e concreta. Não só dentro daqueles edifícios, a cultura estava nos artesanatos dos ambulantes, nas pichações dos muros, nas identidades variadas. No saxofonista em frente a um prédio público, na exposição de pequenos quadros de uma senhora e no senhor que cantava e tocava o “Caveirinha Show”, como ele mesmo indicou com uma placa, seguido de “Se filmar ou tirar foto, não esqueça de deixar um trocadinho”. E então, senti a necessidade que é manter tudo aquilo vivo. Prestigiar e dar suporte à arte, não só das galerias, centros e teatros.

Manter viva a cidade em todos seus aspectos e das mais diversas formas. Notei que todos os sentidos desafiados num só espaço não podiam me confundir e me fazer optar pela cômoda alternativa de ignorar a complexidade dele. Ainda que pela primeira vez ali, devia exercitar tais sentidos, e só assim, tentar viver o Centro por completo. Afinal, sentir e captar para dentro da gente é também uma forma de manter a riqueza do exterior viva. Na correria da rotina, quanta vida já perdemos por não sentir.

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Por Carolina Lopes Garcia – Fala! PUC

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