Home / Colunas / Crônica: Águas Contaminadas

Crônica: Águas Contaminadas

Beatriz Ennes – Fala!USP

Arregalo os olhos. O suar frio preenche meu corpo. Olho no celular, são 3h10min da madrugada. Acendo a luz do quarto e percebo que meu curativo no punho está encharcado de sangue. Vou ao banheiro. Ao retirar a gaze, dentro de cada corte parece estar entrando um espinho e meu braço quase inteiro começa a latejar de dor. Procuro o analgésico. Cinco caixas são encontradas, todas vazias. Minha cabeça começa a pedir socorro.

Sento no vaso sanitário para fazer um novo curativo. Meus dedos estão tremendo compulsivamente e não consigo prender a gaze no esparadrapo. A tontura domina minha cabeça, meu banheiro ganha novos pontos pretos e a luz incandescente é a única visão que me resta. O coração acelera, minha respiração fica ofegante. Não tenho forças. Não tenho forças para resolver isso. Talvez seja a hora.

Ninguém me entende e eu não entendo esse mundo. Por que eu vim parar nele? Por que eu mereço estar aqui? Sou apenas estudante, não sou ninguém, não tenho nenhum valor. Nenhum ser humano se importa com o que falo, com o que penso e com o que pergunto. Na faculdade, cada um fala com seu grupo de amigos, mas chega em casa, cada um fala o que quer para quem quiser nas redes sociais. Eles não têm respeito. Pra quê viver nesse mundo onde a ignorância é a protagonista? Qual o sentido?

Estou me afogando nesse mar de intolerâncias, onde só tem onda desumana. Respiro fundo e não encontro oxigênio. Acho que chegou minha hora. O meu único objetivo é ir embora. Não existe razão. Não existe sensibilidade. Só existem umbigos sendo encarados. Procuro algum motivo para ficar, mas o que encontro é um buraco negro, onde não há a luz no fim. Não quero mais viver para sentir dor, não sei mais o que é uma alma serena.

Uma nova onda me afoga, dessa vez cheia de brutalidades. Nunca consegui me expressar sem ninguém dizer o estúpido “mas”. Por que eles se opõem a mim? Qual o meu problema? Não consigo mais voltar. Meu corpo está afundando nessas águas contaminadas. Drummond estava certo: o mundo não vale a pena. E no fundo de mim, o grito se calou.

 

 

Confira também

Fotos impressionantes de refugiados

O Prêmio Pulitzer, maior honraria do jornalismo internacional, anunciou seus vencedores e trouxe a crise ...

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *