Crônica: 5 meses de quarentena, e ninguém aguenta mais Crônica: 5 meses de quarentena, e ninguém aguenta mais
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Crônica: 5 meses de quarentena, e ninguém aguenta mais

Crônica: 5 meses de quarentena, e ninguém aguenta mais

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Sábado, 15 de março. Foi esse o último dia. Foi o último dia que eu senti o sol na pele. Foi o último dia que eu peguei o ônibus. Foi o último dia que eu vi meus amigos na minha frente. Foi o último dia em que fui tão livre quanto todos os outros. Tão livre quanto todos deveríamos ser durante a vida. Mas a vida de ninguém contava com uma pandemia.

Quarentena
Quarentena. | Foto: Bruna Janz.

Já se vão cinco meses desde que recebi no celular o aviso: na semana seguinte, a faculdade não teria aulas presenciais. Já faz cinco meses que eu não dou risada com os meus amigos no bar ao fim de uma sexta-feira. Já faz cinco meses que eu tô confinada em casa, sempre com as mesmas pessoas, todos os dias da mesma maneira, como se o tempo jamais passasse. E, ainda assim, ele passa, os números se multiplicam e os hospitais continuam lotados. E ainda, assim, o mundo continua girando. 

São 153 dias olhando as mesmas paredes brancas, cozinhando o mesmo arroz com feijão, lavando os mesmos pijamas, olhando a mesma paisagem vertical de uma cidade que nunca para, mesmo quando deveria. E, após tanto tempo, não há mais ninguém que pode e se mantém em isolamento, que se mostra ileso com toda essa vida obrigatoriamente vivida em seus mesmos metros quadrados delimitados por paredes. E nem falo sobre mudanças físicas, que se tornam quase inevitáveis e que não há motivo para serem apontadas, mas de mudanças muito mais profundas e internas que isso.

Tomo por mim mesma.

Eu, que sempre fui tão ativa nas redes sociais, agora me pego ignorando mensagens e interações sociais. Me pego recusando chamadas de vídeo e voz. Já não mais me contento com contatos virtuais. Preciso ver, ouvir, tocar e sentir a presença dos outros ao meu lado. Mensagens deixam tudo mais frio, e de frio já bastam os constantes 20°C do inverno paulista.

Já são cinco meses em isolamento social, dito preventivo, vivendo por telas, numa rotina sem novidades, sem o contato social que nunca antes me foi tão privado. A “gripezinha” mata milhares de pessoas todos os dias. Mas ela fez muito mais que isso. A pandemia ainda priva o mundo de algumas das coisas que mais nos fazem humanos: o contato físico, o abraço, o carinho, a convivência. A vida em sociedade.

E com um sistema político cada dia mais precário e sem consideração, sair às ruas já parece algo normal. Por que não fazer um churrasco com alguns amigos? Só é aglomeração a partir de 10 pessoas, não é isso que dizem? Ou posso ir à praia em um fim de semana, recuperar a vitamina D perdida! Afinal, praia é lugar aberto, não tem problema algum. Já não há problema em ir num barzinho, a saudade da cervejinha aperta, né? É só passar álcool em gel 70% que tá tudo bem, no dia seguinte eu tomo um cházinho só por garantia. Afinal, se ninguém mais se preocupa, por que eu devo? Os jornais dizem que são mais de 1.260 mortes desde o Carnaval, mas tudo está tão banalizado, pessoas são apenas números agora.

Estaria eu nadando contra a corrente ao me manter em casa? Os quarentenados parecem os errados, já que tudo está voltando ao normal, mesmo com números e gráficos subindo constantemente. Será que ainda sou a única dentro dos mesmos metros quadrados constantemente? A pandemia acabou e já está todo mundo imune? A vacina russa, sem testes, sem comprovações científicas, com altíssimas chances de efeitos colaterais graves… ela já foi aplicada nos 7 bilhões de pessoas do planeta e só eu não estou sabendo?

E as pessoas continuam saindo às ruas, voltando às suas vidas, frequentando bares lotados, restaurantes abafados, shoppings lotados. Mas eu sigo aqui. Cansada, esgotada, estressada. Mas sigo aqui, tentando fazer o certo. Estarei realmente fazendo o certo? A sociedade me põe a duvidar.

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Por Bruna Janz – Fala! PUC

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