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Crítica: o fim de Daenerys é o fim de Game of Thrones

Crítica: o fim de Daenerys é o fim de Game of Thrones

Quando Game of Thrones estreou na TV, havia uma divisão clara entre aqueles que já conheciam a história pelos livros, e os demais que teriam o primeiro contato com Westeros pela adaptação da HBO. Com o avanço das temporadas, essas distinções já não eram mais exatas, mas foram substituídas por outras, ainda maiores. A 8ª e última temporada de Game of Thrones revelou uma audiência mais dividida do que nunca. Há pessoas que estiveram torcendo por personagens específicos, e pessoas para as quais quanto mais mortes de personagens, melhor.

Há pessoas que consomem todo o conteúdo – os vídeos do YouTube, os podcasts, as resenhas, as teorias, os raciocínios – e as pessoas que apenas ligam suas TVs nas noites de domingo. Há os leitores dos livros que rejeitaram a visão dos diretores Benioff e Weiss para o final da série, e há os leitores que se encheram com a incapacidade de Martin em terminar a própria obra. Há pessoas que cresceram e conviveram com Game of Thrones e seus personagens por oito anos, e as pessoas que começaram a assistir tudo só há oito semanas – ou até oito dias atrás. Eu poderia continuar, mas meu ponto é simples: cada um desses grupos tinha uma ideia diferente de como Game Of Thrones deveria terminar.

Por isso, não devemos nos surpreender que a última temporada tenha sido tão divisiva – algumas pessoas chegaram ao ponto de assinar uma petição on-line para forçar a HBO a mudar o final da série. Mas também não devemos fingir que a grande diversidade de audiência do programa e a impossibilidade de agradar a todos significa que os escritores tem um passe livre para fazerem o que quiser – pode ser besteira criticar Game of Thrones por não cumprir todas as expectativas (que eram muito altas), mas é bem razoável cobrar os criadores pelas escolhas duvidosas nessas temporadas finais, que tiraram de Game of Thrones o que a série tinha de melhor.

O fim de Daenerys Targaryen é o fim de Game of Thrones
O fim de Daenerys Targaryen é o fim de Game of Thrones

Um episódio de Game of Thrones?

Como parece ter sido a regra nas duas últimas temporadas, esse último episódio, “The Iron Throne”, não parece um episódio de Game of Thrones. Quando penso em Game of Thrones, penso em uma série sobre a busca e o exercício do poder e suas implicações, ilustradas por uma teia complexa de histórias, em que as ações e consequências se desenvolvem e ecoam por continentes.

Uma série sobre dever, compromisso, vocação, bem como ambição, traição, sexo e vingança. Para alguns, uma jornada que os levou à crueldade e à ruína; para outros, uma odisseia que os levou ao amor e à misericórdia. E, embora houvesse enormes batalhas importantes ao longo do caminho, elas sempre foram pontos de referência nessa jornada maior, personagens e tramas avançando para o próximo desafio enquanto aprendiam a viver com as tragédias.

Mas, nessas temporadas finais, quando talvez a maior jornada da série – a volta de Daenerys a Westeros e sua reivindicação ao Trono de Ferro – finalmente chegou ao fim, Game of Thrones não soube como contar o último capítulo de sua história. A história da garota que cresceu acreditando que sua família havia sido injustiçada, e que era sua responsabilidade corrigir esse erro.

Que tornou-se a história de uma mulher que aprendeu a se tornar uma líder por meio de uma série de escolhas difíceis, que a endureceram com as incongruências da justiça e da misericórdia. Não é fácil concatenar poder e bondade.

E por fim, a história de uma mulher que chegou ao seu destino completamente equivocada quanto ao significado de libertação, acreditando – acreditando de verdade – que a única maneira de consertar o que estava quebrado em Westeros era queimar tudo.

Quando a descrevemos assim, a jornada de Daenerys funciona. Mas na tela, o último capítulo dessa história parecia errado, fora de lugar, como se os mecanismos da própria série não tivessem sido criados para contar essa parte final.

Quando eu ouço Tyrion explicar o arco inteiro de Dany para Jon em “The Iron Throne” – em uma cena que, como outras partes do episódio, parece uma resposta direta às críticas dos últimos episódios, uma explicação improvisada -, até que a coisa toda soa como uma história. Deveria funcionar, como um final poético para última e trágica saga dos Targaryen em Westeros, uma dinastia iniciada e encerrada em fogo de dragões.

Mas assistir à equipe Targaryen (que inclui Dothrakis, Imaculados e cia) sair dos trilhos com tanta violência assim, no fim da série, me desceu como algo muito arbitrário, gratuito, injustificado – parecia mais um erro impulsionado por uma estratégia militar burra do que qualquer outra coisa. Os valores temáticos da saga de Dany estiveram presentes nesse final, é verdade, mas na execução desses valores, no chão da batalha em Porto Real, a trama estava se movendo em um ritmo diferente de tudo o que já tínhamos visto antes em GoT , de tal modo que eu fiquei mais perdido do que na batalha escura contra os White Walkers.

Para atrapalhar a jornada de Daenerys, Game Of Thrones teve que se tornar uma série diferente, com um ritmo muito mais acelerado, diálogos entre o óbvio e o raso e com foco no barulho, no fogo e na fúria. E em meio a tudo isso, faltou espaço para a discussão rica e sutil sobre o poder, que marcou a série inteira.

O Trono de Ferro

“The Iron Throne” gasta um bom tempo justificando suas escolhas com Dany, (as explicações de Tyrion a Jon na masmorra, o discurso idealista de Daenerys para Jon), mas a coisa se torna muito menos nebulosa no segundo em que Jon a acerta com uma adaga.

Depois de surpreender a todos durante A Batalha de Winterfell, quando Arya foi a escolhida a matar o Rei da Noite em vez de Jon, os diretores Benioff e Weiss viraram a mesa aqui: acho que todos nós presumimos que Arya mudaria seu alvo de Cersei para Daenerys, mas Jon o faz antes, com as suas próprias mãos. Fiquei comovido pelo momento romântico antes dele esfaqueá-la? Nem um pouco, mas a verdade é que eu nunca me comovi com esse relacionamento – e nem você, fale a verdade.

O mais interessante disso tudo é que, no fim, Jon não termina essa história como um herói, ou um rei: ele sai como um Queenslayer, um matador de Rainhas, como Jaime Lannister havia feito antes dele – uma traição em nome do bem geral do reino.

O fim de Daenerys Targaryen é o fim de Game of Thrones
O fim de Daenerys Targaryen é o fim de Game of Thrones

Os criadores da série sabiam o que queriam com esse final. O último episódio funciona melhor como uma página em branco para o futuro do que uma reflexão sobre o passado. Afinal, o passado é sombrio e cheio de erros. Game Of Thrones, como uma série de televisão, foi uma super produção sem precedentes, mas essas temporadas finais revelaram que sua história talvez não fosse tão complexa quanto imaginávamos que era quando a série estava no auge.

Sugerir que o espetáculo não foi uma narrativa televisiva inovadora, mas sim uma excelente novela medieval em uma escala gigantesca, não diminui seu impacto. Na verdade, até explica os números surpreendentes de audiência em todo o mundo. Ainda assim, por mais que Game of Thrones tenha piorado um pouco em suas temporadas finais, ela sempre foi algo além do espetáculo, e permanece como meu voto para a série do século. E que venham os prequels.

1 Comentário

  1. Renata Tessalian
    3 meses ago

    Quando o material literário acabou, os roteiristas se perderam e só souberam investir em cenas de ação. Mas cenas com pirotecnia não salvam uma série! Onde estão os diálogos engenhosos? Nesta 8a. temporada eles praticamente desapareceram e os raros foram mal elaborados.
    E as inverossimilhanças? Inúmeras!
    Como engolir a serenidade com que a morte de Daenerys foi acatada pelos exércitos sanguinários e eufóricos que dizimaram Porto Real? O Verme Cinzento submetendo-se àqueles nobres de Westeros? Ah… por favor!!!!! Dentro de um mínimo de lógica narrativa, Jon Snow teria sido trucidado pelos imaculados ou pelos dothrakis imediatamente após matá-la. Mas não, foi apenas preso.
    E o Drogon diante da “mãe” morta, só foi capaz de derreter o trono de ferro? De novo, a lógica exigiria uma reação fulminante do dragão sobre Jon Snow, mas não foi ao que assistimos. Aliás, para onde aquela fera levou Daenerys? Simplesmente desaparaceu resignado diante de nossos olhos.
    E o pateta do Bran (o Corvo de 3 olhos de araque) perguntando “por onde andaria Drogon? Ué, ele não é o vidente, aquele que pode estar no passado e no presente? O onipresente? O que tudo vê?
    O Bran aceitar o trono é a apoteose da incompetência narrativa desses roteiristas, a meu ver. Qualquer literatura clássica grega ensina que os videntes (cegos, na Grécia; “quebrado”, em GOT) têm outra função, a de evitar as transgressões dos soberanos no poder, a de alertá-los sobre a falibilidade humana. Mas não! Em GOT, não só Bran aceita de bom grado o exercício do poder, como ainda afirma que foi para isso que ele se tornou o Corvo de Três olhos. É demais para mim! Decepção total nesta última temporada e o e o episódio final foi risível, patético, absolutamente DECEPCIONANTE!

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