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Crítica – BASEADO EM FATOS RACIAIS: UM DOCUMENTÁRIO NECESSÁRIO

Crítica – BASEADO EM FATOS RACIAIS: UM DOCUMENTÁRIO NECESSÁRIO

Por Lívia Marques – Fala!Cásper

Crítica ao documentário original da Netflix que trata sobre a legalização da maconha nos Estados Unidos e sua relação direta com a população negra do país e que não pode ser deixado de lado.

FICHA TÉCNICA
Título original: Grass is Greener
Direção: Fab 5 Freddy (Fred Brathwaite)
Lançamento: 20 de abril de 2019 (Brasil)
Produção: NETFLIX
Duração: 97 minutos

Baseado em Fatos Raciais é o documentário mais recente da Netflix que aborda um tema atual e, consideravelmente, polêmico: a legalização da maconha. Restrito ao cenário norte-americano, o documentário discute de forma intrigante a relação da proibição da planta nos EUA com a música e a população negra. Segundo o documentário, a história da maconha está diretamente ligada à história da música, em princípio o jazz e, posteriormente, o hip-hop e o rap.

O narrador, Fab 5 Freddy, é extremamente articulado e dinâmico. Ele relata como os músicos de jazz foram responsáveis por criar gírias para a maconha e como o hip-hop e rap foram e são de extrema importância para disseminar a ideia da legalização da planta. O locutor traz uma dramaticidade à narrativa trágica mencionada sobre a “guerra contra às drogas”, proposta por Richard Nixon (vice-presidente dos EUA na década de 70), baseada em uma ferrenha injustiça social. Nixon ligou a imagem dos negros e dos mexicanos como “viciados em maconha”, os primeiros por terem músicos que fumavam, os outros que foram responsáveis por popularizar o termo “marijuana”, agravando o preconceito já existente no país.

Baseado em Fatos Raciais apresenta diversos depoimentos de pessoas que são engajadas à legalização da erva. De Snoop Dogg, o rapper, a Kassandra Frederique, diretora do estado de NY na aliança política de drogas, todos contam sua visão da história e defendem seu ponto de vista. Ao abordar de forma inteligente como a proibição da marijuana afeta diretamente a vida da população afro-americana, o documentário dispõe, apenas, de testemunhas negras. Elas contam desde histórias conhecidas até ocorridos pessoais de familiares e amigos que foram presos pelo porte de maconha, alguns mesmo após sua legalidade. Cheio de efeitos visuais bem produzidos e que parecem ser escolhidos a dedo, o longa-metragem, prende a atenção do espectador a cada minuto e traz um pouco de leveza e descontração para a narrativa densa e instigante.

É inegável que a música tem um papel extremamente importante na mudança de perspectiva sobre a diamba. Atualmente, nos EUA, 30 estados usufruem, de forma legal, com fins medicinais e 10 de maneira recreativa. Sua legalidade foi transformada em uma indústria, mas ela afeta a população de forma desigual. O documentário abre janelas para uma realidade que é jogada para debaixo do tapete e mostra que para a vida negra e latino-americana, diferente dos brancos, a maconha ainda é, como diz Kassandra, “uma porta de entrada para a deportação, para o despejo, para ficar desabrigado e para perder seus filhos”.

Baseado em Fatos Raciais carrega uma reflexão extremamente importante e que não deve passar despercebida. Mesmo com o comércio recreativo da maconha, a vida negra continua afetada, consequências trazidas desde a “guerra contra às drogas” de Nixon, resultados que são fruto de uma ação e ideia extremamente preconceituosas. É complicado ter um olhar humanitário, quando se têm pensamentos de chumbo que são difíceis de serem derretidos. Contudo, podemos expandir o olhar para as complexidades que englobam a legalização da maconha, ela afeta inúmeras pessoas negras, nos EUA e no Brasil, e que, claramente, há uma diferença de tratamento entre fumantes brancos e negros. É difícil convencer, mas é praticável tentar entender. É possível fazer mais do que pensar em si e, de uma vez por todas, entender que vidas negras importam.

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