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Valsa com Jair – Crise da Memória Social

Valsa com Jair – Crise da Memória Social


Por Mario de Andrade Filho – Fala!PUC

Muito se fala, sobre várias óticas, da crise da modernidade: economia, política, comunicação, identidade, etc. há aqueles que a negam completamente, outros que taxam tudo aquilo que se move e o desagrada de pós-moderno. Há autores que sugerem uma nova divisão do tempo, e há até quem pense em um novo tipo de ser humano possa surgir dessa nova Era. Este texto, contudo, não tem objetivo de negar ou discutir aos autores consagrados etiquetados como pós-modernos, muito menos de fazer uma coletânea acrítica destes pensamentos, o objetivo deste texto, é portanto, estabelecer e discutir uma hipótese, à luz das questões levantadas sobre as mudanças sociais ocorridas no mundo pós-muro de Berlim, que existe, não em desarmonia, mas em complemento dos pontos discutidos pelos autores e em sala.



Estabelecido este aviso, afirmo: A crise da modernidade é a crise da memória social. Primeiro, o que isso quer dizer? A ideia aqui é reconhecer que, os avanços das tecnologias e do estabelecimento do capitalismo como sistema único, criaram o período histórico com maior acesso, variedade, e facilidade de produzir informação, ao mesmo tempo em que nos distanciamos de nossa história, e o limite entre verdade e boato se torna cada vez mais tênue. Vivemos no paradoxo da informação que aliena, é como se George Orwell e Aldous Huxley tivessem um filho, não chegamos (ainda) a nenhuma das distopias imaginadas pelos autores, porém, é assustadora a precisão de alguns dos pontos descritos por estes homens da primeira metade do século passado. Em tempos em que algoritmos decidem eleições, 1984 e Admirável Mundo Novo parecem terem sidos escritos por um Millenial, e à luz dessa assustadora precisão de autores do passado, é natural pensar o que as obras de arte atuais podem dizer sobre o tema e sobre o nosso futuro.

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Agora, o que é Memória Social? Desde os anos 1990 este campo de estudos multidisciplinar vem ganhando importância e reconhecimento, e usando de base a coletânea organizada por Jô Gondar, Vera Doebei e Francisco R. de Farias, intitulada “Por que memória social?”, alguns pontos importante são destacados: um dos mais importantes é que a memória implica no esquecimento, só lembramos porque esquecemos e vice-versa. Este é um processo contínuo, e também indissociavelmente político: o que lembramos, como lembramos e quando lembramos, ou deixamos de lembrar, afeta nossas posições políticas e nossas perspectivas para o futuro. A memória não é inócua e muito menos imutável, como lembramos o passado afeta diretamente no futuro que enxergamos possível, e enxergar um futuro diferente também implica em mudar a forma que o passado nos contempla. E por fim, a memória não pode ser reduzida a identidade ou representação, são as imperfeições escondidas, por exemplo, atrás da construção de uma identidade nacional a partir de uma memória social que mais nos revelam. Certo povo pode querer entender um evento histórico de forma diferente de outros por uma questão de formação de sua identidade, mas são nessas incongruências que conseguimos distinguir claramente o que as pessoas escolhem esquecer, ou como escolhem lembrar certos fatos, é que mora a riqueza na análise e na tentativa de entender o fenômeno.

Exemplos para se debruçar sobre este tema não faltam nos últimos anos, desde Charlottesville, ao Brexit, passando pela eleição do Trump e do debate sobre migrações e refugiados, até a ascensão de grupos ultraconservadores simultaneamente em vários lugares do mundo. Todos estes temas podem ser explicados pela ótica da Memória Social, mas deve haver alguém mais competente em algum lugar do globo que já fez uma análise muito mais interessante do que aquela que eu teria capacidade de escrever, em contrapartida, como exemplos para a minha hipótese, irei utilizar três filmes para tentar falar de memória, da mesma maneira que a assustadora precisão de 1984 e Admirável Mundo Novo previam mudanças no nosso mundo, obras contemporâneas podem ser excelentes termômetros dos problemas da nova era. Três filmes, portanto, serão o fio condutor do argumento: Valsa com Bashir, Soldados de Salamina e Rashomon, de Akira Kurosawa, são ótimos exemplos de debates sobre a memória social que nos serão úteis.

Rashomon (Akira Kurosawa, 1950)

O filme Rashomon (1950), do imortal diretor japonês, Akira Kurosawa, é daquelas peças maiores que a própria arte, e alcança esta relevância, não só cinematográfica, com uma premissa simples: Um Samurai foi assassinado e sua esposa estuprada. Em um tribunal, são ouvidos um lenhador, o suspeito do crime, a viúva do Samurai, e a própria vítima, através de um médium, todos dão depoimentos mutuamente contraditórios (porém plausíveis), a “moral” do filme é simples: cada um puxa sardinha para o seu lado, cada um tem sua própria agenda, e portanto, nos lembramos dos eventos de forma diferente, é impossível as pessoas se lembrarem do mesmo fato da mesma maneira. Este filme, causou a criação de um termo que já foi utilizado em pesquisas de psicologia, sociologia e história: O Efeito Rashomon, ou o paradoxo do narrador não confiável, é o fenômeno de várias pessoas terem percepções diferentes sobre o mesmo fato, isso não apenas é uma grande premissa para um filme, mas um diagnóstico preciso sobre a forma que as pessoas interagem e se comunicam, que se torna irritantemente pertinente num mundo em que temos o conceito de pós-verdade.

Valsa com Bashir

Valsa Com Bashir, por outro lado, é sobre aquilo que queremos esquecer. O filme é sobre o diretor Israelita buscando suas memórias reprimidas, que se manifestam como pesadelos, da Guerra no Líbano. Através de digressões e reencontro com amigos e ex colegas de front, o personagem se vê admitindo para si mesmo que foi cúmplice dos massacres nos campos de refugiados de Sabra e Chatila. A jornada de descoberta revela que vários de seus colegas – que também estavam no dia em que as forças falangistas cristãos, em resposta ao assassinato de seu líder, militar de extrema-direita, Bashir Germayel – assim como ele, não se lembravam daquilo. Este evento representa um fato que toda uma sociedade quer esquecer, se desvencilhar da culpa de ter apoiado um massacre. Fica claro a dualidade da lembrança e do esquecimento, e o teor político indissociável da memória, esquecemos por que lembramos, e lembramos por que esquecemos. O trauma de se aproximar do outro lado do holocausto é aquilo que faz os personagens esquecerem suas memórias de guerra, o fardo de ter ajudado, mesmo que indiretamente num massacre de civis é um fantasma que persegue para sempre os envolvidos

Soldados de Salamina (2003)

Por fim, Soldados de Salamina é um romance sobre uma autora perseguindo uma história real. Rafael Sanchez Mazas foi um escritor e fundador da Falange Espanhola, importante político do regime franquista que escapou milagrosamente de um fuzilamento durante a Guerra Civil Espanhola, segundo a história, graças a um soldado que o perdoou após encontrá-lo no bosque. Lola primeiro demonstra desinteresse, mas no fim é incentivada a ir atrás dessa história, que desperta nela a vontade de escrever novamente, a narrativa aos poucos deixa de ser sobre um fato da Guerra Civil e passa também a ser um pouco a história da autora, no fim, quando se vê prestes a encontrar o seu herói, sua narrativa se frustra ao se chocar com a realidade, mas fica com a lição de que quando muito nos focamos em uma história, ou em uma versão, perdemos a oportunidade de ouvir as tantas outras que nos cercam. O filme ensina que as histórias não são sempre do jeito que queremos, narrativas perfeitas podem nos parecer mais satisfatórias, cobertas de justiças poéticas, mas passam longe de transmitir as imperfeições que dão beleza à realidade.

Agora, como estes conceitos se aplicam a crise da modernidade? Por exemplo, as formas que nos lembramos, e contamos histórias sobre o período da ditadura militar, estão diretamente relacionadas aos discursos políticos predominantes. Não seria possível na assembleia alemã algum deputado exaltar a tortura e execução nos campos de extermínio, ainda mais em um evento de extrema importância para um país como a votação de impeachment, mesmo que infelizmente o discurso neonazista encontre cada vez mais suporte na Alemanha, é um país onde a ferida de sua história ainda arde muito, e há plena consciência de sua culpa. Por sorte, aqui no Brasil isso também seria impossível, aqui as chagas deixadas pela escravidão, colonialismo e ditadura ainda ardem e nos alertam claramente sobre o nosso passado e o nosso futuro, pelo menos é assim que eu prefiro me lembrar.

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1 Comentário

  1. 9 meses ago

    Oi tudo bem, ler um bom livro é a essência no dias atuais, por isso precisamos de bons conteúdos que nos ajudem, parabéns pelo blog me ajudou muito.

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