CPI da Covid: Os debates e as polêmicas da 1ª semana de depoimentos
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CPI da Covid: Os debates e as polêmicas da 1ª semana de depoimentos

CPI da Covid: Os debates e as polêmicas da 1ª semana de depoimentos

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Divergências entre o presidente e os ex-ministros da Saúde sobre o uso do tratamento precoce em combate ao coronavírus pautam a primeira semana de depoimentos da CPI da Covid

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CPI da Covid: Os debates e as polêmicas da 1ª semana de depoimentos. | Ilustração: Brum/Tribuna do Norte.

Na primeira semana de depoimentos à Comissão Parlamentar de Inquérito da Covid-19, realizada entre os dias 4 e 6 de maio, os ex-ministros da Saúde, Luiz Henrique Mandetta e Nelson Teich, e o atual ministro da pasta, Marcelo Queiroga, prestaram declarações sobre as ações dentro do Ministério.

Na abertura da CPI (4), o relator Renan Calheiros (MDB-AL) afirmou que a Comissão não representa o governo ou a oposição, mas que está em busca da verdade, das ações, das omissões e das incompetências que trouxeram os brasileiros a uma realidade com quase 430 mil vidas perdidas para o coronavírus.

O ex-ministro Luiz Henrique Mandetta, que ocupou o cargo entre 1° de janeiro de 2019 e 16 de abril de 2020, foi o primeiro a depor e revelou que o presidente Jair Messias Bolsonaro sabia da estimativa de 180 mil mortos para o vírus em 2020, presente em uma das três previsões de cenários da pandemia montados pelo Ministério da Saúde.

No segundo dia da CPI (5), Nelson Teich, ex-ministro da Saúde entre 17 de abril e 15 de maio de 2020, foi interrogado pelos senadores e reafirmou durante toda sessão que as motivações para sua saída do cargo foram a falta de autonomia e liderança dentro da pasta e as divergências com o resto do governo em relação ao uso e ampliação da cloroquina como tratamento para a Covid-19.

Durante a finalização da primeira semana da CPI (6), foi interrogado o atual ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, que ocupa a pasta desde 23 de março deste ano. O ministro destacou a campanha de vacinação e a apontou como o único meio de combate efetivo à pandemia. “A vacina contra a Covid é uma resposta da ciência”, disse Queiroga.

Depoimentos e polêmicas da CPI da Covid

Dia 1

O ex-ministro Luiz Henrique Mandetta iniciou seu depoimento falando sobre reuniões diárias que ocorreram no auditório Emílio Ribas – entre fevereiro e março de 2020 – e sobre as portarias e atendimentos que foram deliberados, como a telemedicina -, ao ser questionado sobre a articulação da pasta com os governadores e os prefeitos e sobre as normas técnicas que foram elaboradas para guiá-los no combate à Covid-19.

Quando contestado sobre a reação do presidente, diante das estimativas, declarou que: “O presidente, na maioria das vezes, compreendia. Mas, passado dois ou três dias, ele voltava para aquela situação de quem não havia talvez compreendido, acreditado ou apostado naquela via”. E complementou informando que o presidente Bolsonaro questionava o uso da cloroquina – como válvula de tratamento precoce – e a implantação do isolamento vertical, enquanto o Ministério tentava adotar medidas presentes na cartilha da OMS.

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“Éramos donos da dúvida”, disse Mandetta após questionamento do relator Senador Renan Calheiros sobre as soluções e sugestões apresentadas pelo presidente Bolsonaro. | Foto: YouTube/TV Senado.

Para o Senador Randolfe Rodrigues (REDE-AP), vice-presidente da CPI, o depoente, interrogado sobre quais eram os adversários dentro do governo e se a tragédia brasileira poderia ter sido evitado, relatou a dificuldade em dialogar com o Ministério das Relações Exteriores, comandado na época por Ernesto Araújo, e sobre a oposição do governo à China. “O Brasil podia mais, o SUS podia mais, a gente poderia mais. Poderíamos estar vacinando desde novembro do ano passado”, declarou.

E Mandetta reiterou ao Senador Eduardo Girão (Podemos-CE), quando perguntada a eficácia da ivermectina e cloroquina: “Aqui é ciência, aqui é estudo. Eu jamais, na minha vida, tomei decisões sem estudar. E a gente quando estuda, principalmente numa situação como essa, que tem uma doença ainda não determinada, a gente tem que acreditar nas bases dos estudos. Tem que estar comprovado”.

Finalizando a sessão, interpelado pelos senadores Rodrigo Cunha (PSDB-AL) e Leila Barros (PSB-DF) sobre a relação com o Ministério da Economia, dirigido por Paulo Guedes, e o plano de contingência nos diferentes níveis de autonomia da Federação, o ex-ministro declarou que havia distanciamento com a equipe econômica e assim: “Muitas tomadas de decisões acabaram sendo equivocadas”.

Concluindo o depoimento, afirmou: “O vírus ataca não só o ser humano, mas ele ataca a educação, o esporte, a cultura, o lazer e acaba com o emprego”. No encerramento do primeiro dia, o senador Omar Aziz (PSD-AM), presidente da CPI, destacou: “Essa CPI é diferente, sim. Ela está na casa de cada brasileiro e não cessa a infecção pelo vírus da Covid-19”.

Veja, na íntegra, o depoimento de Luiz Henrique Mandetta, ex-ministro da Saúde:

Dia 2

Em texto introdutório sobre a sua passagem no Ministério durante a pandemia, Nelson Teich disse: “As deficiências do sistema de saúde brasileiro são históricas, porque elas se tornaram ainda mais evidentes durante o combate à pandemia, que levou toda a estrutura a um ponto de estresse máximo. A rapidez da propagação do vírus e o pouco conhecimento científico contribuem muito para dificultar os sistemas em geral; eles não estão preparados para uma sobrecarga aguda tão grande”.

De primeira, o senador Renan Calheiros questionou se o ex-ministro sabia da produção de cloroquina pelo Exército e da logística de distribuição aos estados, ao que Teich respondeu não ter conhecimento e não ser consultado sobre as ações. Já sobre a recomendação do uso de cloroquina, Teich considerou inadequada: “Existe uma metodologia para incorporar um medicamento (feita através do estudo clínico)”.

A indicação de Eduardo Pazuello, ex-ministro da Saúde, para ocupar a secretaria da pasta veio do presidente Bolsonaro, afirmou Nelson Teich, como já divulgado anteriormente. Ano passado, durante uma coletiva, Pazuello chegou a afirmar que desconhecia completamente o SUS. Segundo Teich: “A gente conversava sobre como conduzir, e ele ia executando o que eu falava. Na verdade, quem definia era eu. Quem trabalhava a estratégia, quem discutia o que fazer era eu”.

Para Eduardo Girão, o ex-ministro disse que, ao assumir a pasta, havia uma carência mundial de insumos e que faltou um planejamento referente aos hospitais de campanha.

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Questionado sobre uma animosidade política devido ao incentivo de Bolsonaro ao tratamento do coronavírus com ivermectina e cloroquina, Teich disse: “Eu acho que são duas situações distintas: uma é o Presidente mostrar a caixa, por exemplo; e a outra é o remédio funcionar ou não”. | Foto: YouTube/TV Senado.

A minha indicação do remédio depende de eu ter uma comprovação de funcionamento, independente do que o Presidente faça, entendeu? Então, o problema que eu vejo, em relação a você liberar medicamentos de uma forma indevida é que você não sabe como eles vão ser usados, você não sabe se a dose vai ser alta, você não sabe como é que isso vai acontecer no dia a dia. Então, para proteger a sociedade, você tem que tomar esse tipo de cuidado.

No encerramento do segundo dia de interrogatório, inquirido pelo senador Fabiano Contarato (REDE-ES) sobre as medidas preventivas, Teich contou: “Em relação ao isolamento, a minha posição era que a gente trabalhasse os critérios e trouxesse aquilo para um programa de controle de transmissão, que é o que eu tenho falado aqui durante o depoimento. Isso era o objetivo”. E relembrou as motivações para a saída do cargo, enfatizando novamente a falta de autonomia e liderança dentro do Ministério da Saúde.

Confira, na íntegra, o depoimento de Nelson Teich, ex-ministro da Saúde:

Dia 3

No terceiro de depoimentos à CPI da Pandemia, questionado por Renan Calheiros sobre as políticas e estratégias de prevenção, Marcelo Queiroga comentou sobre o uso de máscaras, o aumento da testagem e a necessidade de fortalecimento do sistema de saúde – inclusive como fator do alto número de mortes pela doença no país. 

Queiroga se esquivou de muitas perguntas, principalmente das que envolviam o uso do tratamento precoce da Covid-19. Em relação à indicação de uso e distribuição da cloroquina, relatou não ter recebido orientações do presidente Bolsonaro ou ter conhecimento sobre a produção do medicamento. Mesmo com a insistência do senador, o atual ministro se negou a dar “juízo de valor” – como chamou – sobre o assunto.

A respeito da relação com a família do Presidente da República interferir na gestão da pasta, respondeu: “A nossa gestão é uma gestão autônoma”. No que se refere ao aceleramento da vacinação, Queiroga se pronunciou sobre a atuação de Carlos França, ministro das Relações Exteriores, e o diálogo com as embaixadas da China, Estados Unidos, Índia e Reino Unido para conseguir mais doses. O ministro reafirmou também o compromisso com a entrega de 430 milhões de doses compradas pelo governo, conforme alegado.

Para o senador Otto Alencar, quando perguntado sobre a concordância com o posicionamento da Sociedade Brasileira de Cardiologia, que não recomenda o uso da hidroxicloroquina, Queiroga disse: “Não são as sociedades científicas que definem as políticas públicas do âmbito do Sistema Único de Saúde”.

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“Se fossem as sociedades científicas a definirem as políticas públicas de saúde, eu temeria pelo sistema de saúde do Brasil”, disse Queiroga em resposta ao senador Otto Alencar. | Foto: YouTube/TV Senado.

Diante da pergunta do senador José Reguffe (Podemos-DF) sobre quando os cidadãos brasileiros estarão totalmente vacinados, o atual ministro comunicou que a meta é vacinar toda população acima de 18 anos até dezembro. No final do depoimento de Queiroga, o senador Fabiano Contarato questionou se o médico havia tomado ivermectina ou hidroxicloroquina, ao que o ministro disse: “Não, senhor. Nunca usei. Eu tomei vacina”.

Confira o depoimento de Marcelo Queiroga, atual ministro da Saúde:

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Por Isabel Bartolomeu – Fala! PUC-SP

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