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Contos Urbanos – Amor de metrô.

Contos Urbanos – Amor de metrô.

A linha verde do metrô de São Paulo era a mesma de sempre. Não, acho que talvez não fosse a mesma de sempre, pois desta vez, jogada nos trilhos, estava uma latinha de Guaraná, com seu verde destacado meio ao concreto cinza escuro que compunha quase toda a estação. Eram 8:40 da manhã, a estação Vila Madalena não estava mais cheia do que o normal, mas também não estava mais vazia. A rotina também seguia a mesma: lá estava eu, esperando pelo trem para ir trabalhar na mesma empresa da Rua Peixoto Gomide, que trabalho desde meus 17 anos (hoje me encontro no auge dos meus 22). O vento começou a sair do túnel do metrô, anunciando que o meu transporte se aproximava. Junto com a pequena multidão que lá se encontrava, entrei no vagão. Tive o azar de não ter lugar para sentar e me coloquei de pé logo ao lado do último par de cadeiras. O alarme tocou, a luz vermelha que ficava logo acima das portas acendeu, anunciando o fechamento delas.

Encarando a mesma parede de concreto mal iluminada através das mesmas janelas de todo o dia, logo a voz feminina levemente metalizada anunciou que a próxima estação seria a Sumaré, e de qual lado seria possível o desembarque. Pelas janelas passavam os rostos da obra de Alex Flemming, adesivados no vidro que dava vista para a Avenida Paulo VI. Quando o trem finalmente parou e as portas se abriram, vi apenas um par de pernas entrando pela porta que eu não estava apoiado. São Paulo sempre foi cinza escuro pra mim, assim como a estação Vila Madalena era, um lugar difícil de achar cor, mas nos pés daquele par de pernas estava uma sapatilha vermelho-vivo, que estranhamente chamou a minha atenção. Meu olhar rotineiro para o chão foi desviado, e fui subindo meus olhos, acompanhando o desenho daquele par de pernas que havia acabado de entrar no metrô. Quando cheguei à face daquela pessoa, fiquei desacreditado. Tenho quase certeza que soltei um leve som para o qual não tenho uma definição aceitável.  Era uma das mulheres mais bonitas que eu havia visto na minha vida. Tinha um cabelo castanho liso e fino, olhos verdes claros como a grama. Ela mexia no celular, talvez nem tenha percebido em que trem havia acabado de entrar, apenas fazia suas ações no automático, como uma boa paulistana.

O sinal soou, a luz acendeu e as portas fecharam.

Com o movimento retomado do metrô, me veio um calor no estômago, seguido de uma súbita vontade de falar com aquela garota. Eu estava apoiado na porta do lado esquerdo do trem, e ela na do lado direito, entre nós havia pouco mais de dez pessoas. Dei alguns passos adiante, mas logo retornei à minha porta de apoio, me faltava coragem para ir mais à frente. Fiquei olhando para ela, e ela talvez também nem tivesse notado que eu fazia isso, porque se tivesse, talvez não se sentisse confortável com tal situação.

A parede de concreto mal iluminada, que passava através das mesmas janelas de todo dia parecia não importar mais, o que importava era ela. O que importava eram aqueles olhos verdes. Dei alguns passos para frente, deixando duas pessoas para trás. Esqueci de me segurar nos ferros de apoio, a freada do metrô me jogou para o lado, em direção à parede, e a garota parecia ser anti-gravidade, apenas o cabelo dela obedeceu a inércia. Chegamos na estação Clínicas, e ela continuava digitando ativamente em seu celular, apenas se desencostando das portas para elas abrirem e nem se incomodando com os leves empurrões que tomava das pessoas saindo e entrando. Ela sorriu com algo que leu. Seu sorriso era lindo, tenho certeza que também era um dos mais bonitos que eu já tinha visto, tinha os dentes brancos como a neve.

O sinal soou, a luz acendeu e as portas fecharam.

O metrô estava mais cheio dessa vez, ia ser mais difícil chegar até ela. Logo à minha frente estavam posicionados dois grandes homens de cabelos grisalhos, altos e gordos, vestindo ternos cinza e conversando sobre um tal de formulário do departamento de finanças da empresa. A passagem por eles foi difícil, mas depois deles o caminho era curto até ela. O trem chacoalhava mais do que o normal, eu ia sendo jogado para trás e para os lados. A voz feminina metalizada anunciou a estação Consolação, e que desta vez o lado de desembarque seria o esquerdo. Ela deu uma leve levantada na cabeça e foi para o outro lado do trem como se não houvesse ninguém para atrapalhar seu caminho. Mas no meu havia. E como. O trem freou, mas dessa vez eu estava determinado, me apoiei com os pés e segui empurrando as pessoas. Estiquei meu braço para tentar cutucar seu ombro, mas as portas se abriram, ela se virou, fazendo com que fios de seu cabelo batessem em meus dedos e foi embora. Fiquei desolado, perdi a determinação e motivação que havia adquirido. Fiquei olhando para ela, que ia andando devagar rumo à saída. Ela virou o rosto, olhou para mim e deu um leve sorriso, depois retomou seu caminho.

O sinal soou, a luz acendeu e as portas fecharam.

A rotina do trabalho foi a mesma naquele dia. No dia seguinte, a linha verde do metrô era a mesma de sempre. E dessa vez era de fato a mesma, a latinha de Guaraná não estava mais jogada nos trilhos, não havia mais contraste, apenas o mesmo cinza escuro.

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Foto: eshmivida.wordpress.com.


Por: Felipe Martins – Fala! Mack

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