Contos de Terror: Desmembrados
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Contos de Terror: Desmembrados

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Quando os dias que antecedem o halloween se aproximam, a história do dia mais aterrorizante da minha vida volta à tona com ainda mais força. Eu era menina, não tinha mais do que quinze ou dezesseis anos e, como é ordinário à adolescentes insurgentes daquela idade, o ceticismo me era característico. Tinha por hábito zombar daqueles que acreditavam em signos, olhar com desprezo para religiosos fervorosos, ou mesmo para quem se envolvia em demasiado ou se aterrorizava com histórias de terror. Adorava contá-las, no entanto. O fazia apenas pelo sadismo: me agradava ver o horror que se formava nas faces daqueles pobres coitados que acreditavam em fantasmas e monstros do gênero. 

Meu repertório era extenso. Conhecia as mais diversas narrativas, com protagonistas que não poderiam ser mais fantasmagóricos. Nada me assustava, de modo que poderia incluir em minhas histórias os mais aterrorizantes personagens, sem nem um pingo de responsabilidade afetiva, como costumam dizer nos dias atuais. Embora os traços delicados e os longos cabelos loiros indicassem um caráter afável, eu não costumava atender às expectativas. Era uma garota de personalidade forte e hábitos, por assim dizer, excêntricos. Só para se ter uma ideia, gozava de uma completa coleção de ratos mortos, dos quais arrancava os rabos e pendurava com tachinhas em um imenso quadro de cortiça que mantinha no topo de minha cama. Considerava-me mais forte do que todos, quiçá até do que o mundo e quaisquer que fossem suas possibilidades e imprevistos. Nada poderia me intimidar. 

Certa vez, a convite de meu namorado da época, fui passar uma semana em sua casa de campo num denso bosque do interior do Rio de Janeiro. Meu namorado era um rapaz alto e magro, fascinado por histórias de heróis e de terror. Seus desgrenhados cabelos ruivos e o largo sorriso marcado por um nada discreto aparelho ortodôntico lhe davam a aparência de um dos monstrengos das séries que assistia. Eu apreciava sua companhia, no entanto. Adorávamos passar horas juntos assistindo às mais espantosas películas. Era como se ele fosse a única pessoa do planeta que não se importava com minha coleção de rabos de rato logo acima do travesseiro, e eu me apegava bastante a isso. 

Estávamos muito animados, afinal, seria a primeira vez que viajaríamos sozinhos, isto é, sem a presença de nossos pais para perturbar. Decidimos chamar um casal de amigos – também esquisitos – do colégio, muito movidos pela ideia de aterrorizá-los com histórias de terror em volta da fogueira. Eram as duas pessoas mais ingênuas e inocentes que eu já havia conhecido. Seria extremamente fácil que ficassem com tanto medo que fossem incapazes de dormir à noite, pensei. A garota, Laura, não devia ter mais do que um metro e cinquenta de altura e ainda dormia na companhia de um ursinho de pelúcia que ganhara da avó em seu primeiro aniversário, ao passo que o rapaz, Fernando, era um daqueles garotos extremamente gentis, cujo cavalheirismo meloso chegava até a me dar nos nervos. Mas eram boas companhias e gostavam de nós, ou ao menos fingiam muito bem. 

Assim o fizemos. Na primeira noite, eu e meu namorado elencamos, um atrás do outro, os melhores contos de terror que conhecíamos, enquanto assávamos marshmallows no fogo incandescente. Nossa tarefa parecia completa: Laura e Fernando entreolhavam-se a todo momento, como se dissessem um ao outro que precisariam se abraçar ainda mais forte do que o habitual para conseguir sobreviver àquela noite. 

Se na manhã seguinte esperávamos acordar com gritos provenientes de pesadelos do casal feliz, ou mesmo nos deparar com lençóis encharcados de urina, o que se viu foi algo bem diferente. Laura e Fernando não estavam mais no bangalô, e sobre a cama de casal em que dormiam, havia dois bonecos palito pintados em tinta preta. O boneco do rapaz não tinha o braço esquerdo, à medida que na representação da garota faltava a perna direita. Os membros desaparecidos nos causaram estranheza, não era do feitio deles apresentar um desenho com tamanho desleixo. Deveriam estar se vingando de nós, supomos. Talvez tivéssemos desdenhado daqueles dois jovens amorosos. Optamos por procurá-los. 

Como fãs de histórias de terror, aquele cenário era o que havia de melhor. Teríamos de buscar por nossos amigos em meio a uma mata fechada, com pouca luz e ninguém ao redor, o que em muito se assemelhou com um certo filme de terror que meu namorado revelou ter assistindo meses atrás. Era o sonho e estávamos vivendo dentro dele. 

A preocupação, porém, começou a aparecer quando, vinte e quatro horas depois, não obtivemos nenhum sinal de Laura e Fernando. Pensamos que poderiam ter ido embora, assustados e ressentidos com nossa noite de sustos em volta da fogueira, mas suas malas continuavam intactas e os pijamas que vestiam eram as únicas peças que nelas faltavam. Nos demos conta de que éramos responsáveis por eles, afinal, o convite partira de nós e, se os dois adolescentes já eram daquele jeito, não quisemos nem imaginar como seriam os pais daquelas criaturas tão medrosas. Então, eu e meu namorado determinamos que só iríamos parar de procurar quando os encontrássemos.

Caminhamos incansavelmente, como se fôssemos bandeirantes desbravando o interior em busca do ouro, ou mesmo como as pessoas buscam toda a vida por aquilo que os completam, seja um grande amor, um emprego que lhes traz segurança ou mesmo a pura e simples felicidade. Como na analogia, também, a busca pelos nossos amigos – ou por qualquer pista que nos levasse até eles – começou sendo um imenso fracasso. Mais três dias se passaram e, novamente, não houve nenhum sinal de Laura e Fernando. Começamos a nos desesperar. 

Ao fim do terceiro dia, entendemos que, como já havíamos circulado toda a área próxima ao bangalô, deveríamos ampliar nossas buscas, de modo que optamos por nos separar. Meu valente namorado desbravaria a região mais ao Norte, munido apenas de bússola e um pedaço de pau, enquanto que eu, corajosa como sempre, nada levara para minha procura na região mais ao Sul. 

Contos de Terror: Desmembrados
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Foi quando entrei numa pequena cabana no topo de um relevo, que aquilo aconteceu. Aquilo. O motivo pelo qual escrevo hoje esse texto e que me faz odiar halloween e tudo que envolve terror e suspense. Ao entrar na cabana, me deparei com algo que me fez gelar a espinha. Sobre um colchão mofado no chão, havia o braço esquerdo de Fernando, que fui capaz de reconhecer pela tatuagem que fizera com o nome da amada, e a perna direita de Laura, facilmente identificada pela tornozeleira prateada com um coração que não tirava do pé. Ali, eu tive certeza: meus amigos haviam morrido. 

Quando minimamente retomei a consciência e me virei para sair correndo e encontrar meu namorado, dei de cara com um homem imenso e peludo, que deveria ter, sem exagero, quase três metros de altura por quatro de largura. Seu cabelo era gigantesco, com a franja caindo sobre os olhos, dando a impressão de nunca ter sido cortado ou lavado. O homem, se é que poderia ser assim chamado, era um monstro, escondido por detrás dos trapos que utilizava como roupa. 

Dei um berro e caí para trás. De pé sobre mim, o homem apanhou de dentro da calça um pequeno pote e me ofereceu. Antes que eu pudesse refletir se o abriria, ele vociferou:

—  Você notou se havia olhos no desenho que fiz dos seus amigos?

E riu ardilosamente.

Atirei o pote para longe o mais depressa que pude. Deitada e visivelmente perturbada, só pude perceber que, sobre a cama do monstrengo, havia um gigantesco quadro de cortiça, lotado de rabos de rato. Meus amigos haviam sido mortos por minha própria arrogância. 

Desmaiei. Até hoje não sei como escapei ilesa daquela cabana, mas o fato é que estou aqui para contar essa história. Quanto a aquele meu namorado, ninguém nunca mais soube de seu paradeiro. Meu palpite é que seu encontro com a criatura peluda terminara como o de Laura e Fernando. Que Deus os tenha, aliás.

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Por Bruno Genovesi

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