Contos de Terror: Chorinho de Madrugada
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Contos de Terror: Chorinho de Madrugada

Contos de Terror: Chorinho de Madrugada

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Seu único hobbie era cuidar das plantas. Apesar da varanda minúscula, sempre conseguia colocar mais uma. E tinha muitas: cactos, violetas, samambaias e bromélias. Quando não estava trabalhando, Virgínia dedicava seu tempo para decorar o pequeno jardim. Tinha tempo de sobra, aliás. Por ser contadora autônoma, ficava em seu apartamento praticamente o dia todo, a semana toda, o ano todo. Sua única companhia era seu vizinho Ed, mas eram raras as ocasiões em que podiam sair já que ele estava sempre fora a trabalho. Nem ao luxo de conversar com o porteiro ela podia ter, pois vivia no prédio mais decadente da Tijuca, que não tinha elevador, câmeras de segurança, muito menos um porteiro.

Virgínia era uma mulher alta e magra. Tinha cabelos castanhos, que estavam cada vez mais ralos por conta do estresse no trabalho. Ainda que estivesse na casa dos trinta anos, seu rosto expressava muito mais. Seu pai morreu quando ela tinha oito anos, ficando aos cuidados da mãe, Maria. Embora a viúva estivesse de luto, fez o melhor que pôde para dar à filha uma infância feliz. Maria sempre foi superprotetora, impedindo que Virgínia saísse muito de casa. Infelizmente, doze anos após a morte do marido, sofreu um AVC e ficou em estado vegetativo. Com isso, Virgínia teve que se desdobrar fazendo faculdade, trabalhando e cuidando da mãe, nunca tendo tempo para encontrar um amor ou amigos, ficando mais introvertida a cada dia. Aos vinte e um anos já havia enterrado pai e mãe, vendo-se sozinha no mundo.

 Olhando para as inúmeras fotos na sala, Virgínia lembrou-se de Ed comentando que não era bom ter fotos de defuntos expostas daquele jeito, que poderiam atrair energias negativas. Ela o ignorou. Como poderia não querer por perto as pessoas que mais amou? Para ela, era quase um pecado expor lembranças tão preciosas em um lugar tão decrépito. O pequeno apartamento foi o único lugar que pôde comprar com a herança da mãe. Ah, como ela o odiava. O piso rangia. A porta de seu quarto estava quebrada e sempre que abria os olhos encarava o corredor vazio. O encanamento era barulhento. O banheiro, um cubículo. Subitamente, foi interrompida de suas reclamações por uma batida na porta. Era Ed, só havia essa possibilidade.

 – Virgínia, me aventurei na cozinha e trouxe um incrível bolo de queijo com frutas!

 Ela forçou um sorriso. Só ela sabia como ele cozinhava mal.

 – Obrigada! Não quer entrar?

 – Não, tenho um importante serviço logo e não posso demorar!

 – Tchau! Tenha um ótimo trabalho!

 Virgínia estava acostumada a fingir entusiasmo na frente de seu único amigo. Por mais que se gostasse dele, não o queria incomodar com seus problemas. Estava familiarizada com sua companhia e de suas plantas. Para ela, não havia melhor companhia que seus pensamentos. Ninguém a podia entender como ela mesma. Pelo resto da tarde, terminou um de seus trabalhos. Até tentou provar a iguaria de Ed, mas jogou fora. Apenas assistiu à televisão até o sono chegar. Já passava da uma da madrugada quando dormiu. Estava tendo um sonho agitado, mesmo dormindo sentia sua musculatura tensa, quando foi despertada por batidas na porta. Praguejando contra Ed por tê-la acordado, abriu a porta com raiva e levou um susto com o que viu: um pequeno cesto com um bebê enrolado em um paninho preto. 

 Virgínia mal conseguia raciocinar. Como alguém subiu até o quinto andar e parou logo na sua porta? Por que ela? Antes que pudesse pensar mais, tirou o bebê do cesto e o aconchegou em seus braços. Ao pegar o cesto, notou que havia um bilhete escrito com uma letra caprichada: O nome dela é Mandee. Não a ignore.

Sobre a imagem: criador: Mart Klein/ Crédito: Getty Images/ Ikon Images
Sobre a imagem: criador: Mart Klein/ Crédito: Getty Images/ Ikon Images  

 Mandee? Virgínia não achava certo mudar o nome de uma criança, afinal, alguém que a carregou por nove meses tinha escolhido este. Mas se fosse para ser um nome americano, por que não Mandy? O mal de Virginia sempre foi fazer perguntas demais que não teriam respostas. Ela só resolveu aceitar que sua filha teria um nome peculiar. Teria que tomar cuidado. Poderiam tirar o bebê dela. Deve haver alguma lei que proíba ficar com uma criança dessa forma.

 A nova mamãe sentou-se no sofá e ficou admirando cada detalhe do bebê, agora em seu colo. Tinha uma aparência indefesa e pele branca quase transparente. Bruscamente, Mandee abriu os olhos e encarou Virgínia. Seus olhos eram negros, mal se viam as pupilas, e pareciam ler toda a mente da mulher. Ela sentiu-se mal, um medo irracional atravessou seu corpo. Quando tentou colocá-la de volta no cesto, Mandee começou a chorar. Virgínia percebeu a grandeza do seu despreparo. Como podia ter medo dos olhos de um bebê? Por mais que tentasse, não conseguia controlar aquele choro agoniado. Mandee chorou até o nascer do sol. Só depois disso, Virgínia conseguiu um sono merecido.

 Acordou quase meio dia. O bebê dormia tranquilamente. Ela começou a fazer uma lista mental de tudo que precisaria comprar e aprender. Quanto mais pensava, mais ansiosa se sentia. O coração acelerou e uma dor de cabeça surgiu. Levantou-se para beber um copo de água e tentar se acalmar. Estava quase relaxando quando bateram em sua porta. “Três vezes em apenas dois dias, nunca me senti tão popular”.

 – Está tudo bem? – disse Ed- De madrugada, ouvi um choro. Achei que fosse seu.

 – Ed.. – ela decidiu confiar nele – Você não pode contar pra ninguém, promete?

 – Prometo, claro.

 – Deixaram uma bebê na minha porta. E decidi ficar com ela.

 – Virgínia, você está maluca? Não pode passar por isso sozinha. Precisa de alguém que te ajude a lidar com ela.

 – Eu consigo. Sempre lidei com tudo sozinha. Vai ser fácil e logo as coisas vão melhorar. Bom, você me deu sua palavra e espero que não me decepcione.

 – Sou um homem de palavra. Mas continuo a dizer que não pode ficar sozinha nessa. Eu posso ajudar. Será que posso ver a bebê?

 – Obrigada, mas não quero ajuda. Acho melhor não vê-la agora. Demorei muito para que ela dormisse e não quero que você a acorde. Preciso ir, depois conversamos.

 Virgínia bateu a porta antes de uma resposta. Quem Ed achava que era pra supor que ela não era capaz de lidar com isso? Depois dessa atitude impetuosa, ela decidiu se afastar dele.

 O tempo passava e Mandee crescia rápido, sugando todas as energias de Virgínia. Com a convivência, a mãe descobria algumas particularidades de sua cria. Aos quatro meses, notou que seria impossível tirar um retrato seu. Bastava chegar com uma câmera que a choradeira começava e não parava até que o objeto estivesse bem longe. Aos oito meses, Mandee começou a engatinhar. Não no chão. Não na cama. Em Virgínia. A brincadeira favorita da menina era fazer a mãe sentar e depois escalar seu corpo até chegar à cabeça. Por mais que gostasse de brincar disso, Virgínia nunca viu a filha gargalhar ou sorrir, em nenhum outro momento também. Como a adoção nunca foi legalizada, tudo que Mandee precisava, Virgínia fazia em casa: educação, remédios e brincadeiras. Nada de médicos, professores ou amigos.

 À proporção que Mandee se desenvolvia, Virgínia sentia-se mais e mais exausta. Mal dormia por conta das frequentes crises de insônia. As dores de cabeça eram como uma explosão de fogos. Não tinha forças para se alimentar direito ou cuidar do jardim. A vivência com Mandee era mais difícil do que jamais tinha imaginado, mas logo ia ficar tudo bem.

 Ed mal via Virgínia ultimamente. A aparência da bebê era um mistério para ele. Inúmeras vezes pensou em ligar para o Serviço Social, mas a promessa que fizera sempre vinha à mente e ele desistia. Por mais que sua amiga tivesse se afastado, Ed ainda se importava com ela.

 Fazia cinco anos que estavam juntas. Anos que ficavam cada vez mais árduos. Mandee era uma criança muito esperta e suas atitudes sempre surpreendiam a mãe. Algumas vezes, Virgínia conseguia relaxar e até se divertir, mas a preocupação com Mandee era maior. Agora a menina tinha entrado na fase dos porquês. Um dia, enquanto estava trabalhando, Mandee parou atrás de Virgínia e perguntou:

 – Como eu nasci?

 Virgínia gelou. Ela nunca ouvia quando a filha aparecia. Sempre parecia flutuar. Depois do susto inicial, a mente precisou trabalhar rápido. Não podia contar para Mandee que alguém a abandonara em sua porta. Resolveu mentir.

 – É uma história muito interessante. Só que antes tenho que contar outra. Era uma vez um homem muito poderoso chamado Zeus. Um dia ele sentiu uma dor de cabeça fortíssima e quando abriram sua cabeça, sua filha Atena saiu dali. Comigo foi a mesma coisa. Eu sentia uma dor de cabeça muito forte por um tempo e logo depois você apareceu! – Virgínia forçou um sorriso para dar credibilidade à mentira.

 – Humm, entendi. Quero comer!

 Enquanto comiam, Virgínia propôs a Mandee uma coisa que pensava há um tempo. Uma coisa da qual precisava.

 – Eu estava pensando em algo que pode ser bom para nós duas. O que acha de procurarmos uma pessoa para nos ajudar?

 Mandee parou de comer e encarou Virgínia. Subitamente, jogou o prato na parede e gritou:

 – NÃO! SÓ. NÓS. DUAS.

 – Calma, não grita.

 – NÃO. NÃO. NÃO

 Virgínia implorava para Mandee parar de gritar. Quanto mais pedia, mais a menina gritava. Seus berros causavam a sensação de que iriam explodir a cabeça da mulher. Ela só queria que aquilo acabasse. Foi chorando até o banheiro pegar um remédio com Mandee em seu encalço gritando sem parar. Sentindo-se tonta, Virgínia pegou vários analgésicos e tomou de uma vez. Não demorou para estar desmaiada com Mandee encarando o corpo de sua querida mamãe.

 Virgínia acordou desorientada. Ed estava ao seu lado.

 – Onde estou? O que houve?

 – Eu ouvi você gritar. Gritar muito. Eu bati na sua porta, mas não respondeu. Fiquei preocupado e a arrombei. Você tava caída. Agora está no hospital. Você podia ter morrido! O que tá acontecendo?

 – Eu tô tendo uns problemas com a Mandee… mas vou resolver tudo. Ed! Como ela está? É muito pequena para ficar sozinha.

 – Virgínia, não tinha ninguém no apartamento. Só você e o que restou da suas plantas. Quando se tornou tão descuidada?

 – Isso não me interessa mais. A Mandee deve ter se escondido quando você entrou. Poxa, ela está acostumada a ficar só comigo. Eu preciso ir!

 Depois de muito insistir e alegar que estava bem, Virgínia obteve alta e foi embora. Chegando ao prédio, agradeceu a ajuda de Ed e foi para seu apartamento. Estancou diante da porta, criando coragem. Ao entrar, deparou-se com Mandee parada diante da porta, esperando por ela.

 – Mandee, precisamos conversar. O que você fez não nada legal.

 – Eu acho que você não entendeu, mamãe. Vamos ser nós duas. Eu vou estar sempre com você.

 Virgínia não sabia o que responder. A única coisa que passava por sua mente era que nunca devia ter ficado sozinha com essa menina. Nunca sentiu tanto medo.

 A insônia apareceu novamente. Tentava, mas achava que nunca mais conseguiria dormir. Depois de muito, caiu num sono leve. Após algumas horas, despertou. Quando abriu os olhos, viu Mandee parada na porta de seu quarto. Sorrindo. Inclinando o pescoço enquanto o sorriso se alargava. Era o primeiro sorriso que Virgínia via naquele rosto. E isso fez com que os pelos de seu corpo arrepiassem. Aquele simples gesto era frio e sombrio. Era perceptível que sorrir causava grande agonia à Mandee. Virgínia paralisou. Mal conseguia respirar. Mandee ia se aproximando da cama, o sorriso diminuindo à medida que chegava mais perto. Sua voz era sussurro gélido quando pronunciou: 

 – Você fez as escolhas erradas, mamãe. Isso não vai acabar.

 Virgínia não sabia o que fazer. Sentia todo o seu corpo tremer enquanto Mandee saía do seu quarto. Tentou fechar a porta, mas estava quebrada e o que restava era encarar o corredor escuro, onde aquele serzinho poderia aparecer a qualquer momento. Ela passou o resto da noite pensando em tudo o que poderia fazer para se sentir melhor. Só uma possibilidade passava por sua mente.

 No dia seguinte, Virgínia usou toda sua força para fingir que tudo estava bem. Ofereceu o café da manhã à Mandee e notou que a menina não tirava os olhos dela. Ao se retirar da mesa, Mandee também saiu. Aonde quer que fosse, Mandee estava atrás. Nada falava. Apenas seguia. Virgínia se trancou no banheiro na tentativa de ficar só, mas podia ver os pezinhos da menina pelas frestas. Além de parada, arranhava a porta como se pedisse para abri-la. Virgínia estava à beira da loucura. Estava pronta para acabar com tudo aquilo. Saiu do banheiro gritando:

 – Por que você não me deixa em paz? VAI EMBORA!

 Mandee riu alto.

 – Eu não vou embora. Já falei várias vezes.

 Ao falar isso, Mandee correu até Virgínia, tentando escalá-la como fazia quando era bebê. Virgínia gritava e tentava empurrá-la, mas, para uma criança de apenas cinco anos, era incrivelmente forte e ágil. Em menos de dez segundos, ela já estava agarrada no pescoço da pobre mulher, passando suas pequenas pernas pelos ombros a fim de que pudesse estar em cima de Virgínia, segurando seus cabelos como se fossem rédeas de um animal.

Virgínia nunca se sentiu tão humilhada. Estava sendo controlada por uma criança que criou e alimentou. Via-se em um beco sem saída. Desde o ataque de gritos que a levou para o hospital, ela sabia o que tinha que ter feito: expulsado aquele mal de sua vida. Até matando-o se necessário. Não sentia amor por Mandee. Desde o dia em que chegou sentia um medo que era proporcional ao crescimento da criança. Agora era tarde demais.

 – Virgínia, – dizia Mandee enquanto a conduzia até o jardim – você sabe o que tem que ser feito. Sua vida é desprezível. Você não tem amor, amizade nem um propósito. As únicas pessoas que te amaram esperam por você. Há quanto tempo não vê seu pai? 20 anos?

 As palavras de Mandee eram como facadas. Virgínia queria lutar, mas o conforto que a ideia de rever sua família lhe trazia era tão grande… Mas ela ainda tinha planos. Precisava de muita força e ajuda para alcançar o que queria. Ela sabia que conseguiria, mas seria tudo tão cansativo…

 – Vamos lá, Virgínia, – continuava Mandee, agora quase entrando na varanda- Não pense muito. SÓ FAÇA.

 – Se eu for, você vai também?

 Antes que Mandee pudesse responder, Virgínia se jogou de sua varanda.

 O suicídio tomou notoriedade por um tempo, até ser esquecido por todos da vizinhança. Exceto por Ed. Não acreditava que aquilo pudesse ter acontecido. Uma culpa tremenda o invadiu. Se ele tivesse sido mais presente? Se ele tivesse notado os indícios… Com o retorno de sua racionalidade, começou a pensar em Mandee. Ele perguntou a todos que viram o que aconteceu e todos afirmaram que Virgínia estava sozinha, pulou sozinha e caiu sozinha. Ed não conseguia compreender o que aconteceu. Vasculhou todo o apartamento e não encontrou um bilhete de despedida. Nem os indícios de que uma criança vivia ali.

 No momento em que Virgínia saltou, Mandee desapareceu. Ela tem esse poder e outros mais. E é muito forte. É difícil vencê-la, mas não impossível. Preparada para destruir outra pessoa, Mandee bateu em uma porta, dessa vez de um senhor idoso, transformando-se rapidamente em um bebê, que seria alimentado e cresceria cada vez mais. Ela já se considerava invencível.

Nota da autora: é interessante. após o término do conto, pesquisar o significado de “Mandee” no Google Tradutor

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Por Lívia do Couto Olivieri

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