Conto: Dor
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Viajante paciente, apologético do amor, eu te amo

Dias de enchente marcados por inseguranças desconhecidas jogadas em uma ilha onde só eu sei me afogar. Bela terra não afundada em alto mar. Vi alguém remar de muito longe e, apesar de não gritar socorro, ele soube me alcançar. Observei ele por muito tempo a distância, mas nunca foi capaz de me notar. Estava bem escondida entre espinhos e arame farpado.

Com armadilhas em todos os cantos ele foi capaz de não se intoxicar. Não foi enganado pela turmalina negra no caminho, não acreditou nos segredos das nuvens carregadas, não escutou o canto dos corvos, não deixou a noite escurecer seu céu. Não quero ser salva porque não posso ser salva. Ele encontrou meu covil submerso de pedras quebradas, meu corpo ferido largado em mágoa, estendeu sua mão apesar de não enxergar o futuro nos dedos, e me chamou de amável.

dor
Ilustração por Ilya Kuvshinov.

Peso por peso me removeu dos escombros e me disse: “se esse paraíso fosse meu, eu aprenderia a voar”. Andamos por chãos verdes, subimos montanhas e aprendemos a escalar, quando chegamos no topo, ele prometeu me amar. Prometi lhe amar também. Quando beijas meu corpo, venera minha alma, quando escolhe me escutar, me abriga um lar, quando me entrega a liberdade de te amar, me liberta. Não existo mais sozinha, meu secreto esconderijo não pode mais clamar por atenção.

O veneno escondido entre as plantas que habitam meus ossos tem antídoto próprio e eu posso provar. As águas escurecidas agora eram cristalinas. A mimese das sombras perseguidoras que insistiam contar a verdade queimavam ao por do sol. O testemunho dos planetas era mais forte, eles já sabiam do meu amor pelo homem do remo. Ele tem uma identificação. O grande amor da minha vida. Não queria que passasse tanto tempo explorando minha terra, conhecemos o suficiente dos desastres naturais e as fortes correntes de água. Pedi que me levasse até sua ilha; a sua tinha muros muito altos e um pequeno espaço para entrar.

Ele remou lentamente. Foram dias de tortura silenciosa, dias onde eu via a forma do céu, mas não entendia o que acontecia. Dias que lhe abracei e esperei por seu abraço. Aos poucos seu mundo me acolhia. Pacientemente, conheci os cristais perdidos, o chão de ouro, as paredes cravadas de sentimentos esquecidos. Compartilhamos nossas terras. Nos perguntamos muitas vezes “Se você soubesse como é viver neste lugar, sentiria o que sinto?”.

“Sou toda sua. E você é todo meu”. Sem posse, sem comando, sem controle. Somos visitantes de longo prazo. Somos casa em construção. Somos igreja em oração. Somos Lua e Sol. Não entendo como estivemos separados.

Sensibilidade e carinho são nossos nomes. Vaidade e esquecimento nossos complementos. Insegurança e raiva nossos inimigos. Verdade e honestidade nossa cama para dormir. Intimidade e proximidade nossa lei. Vulnerabilidade nossa estação do ano. Amor e eternidade nossa imortalidade. Eu te amo.

Dor em romeno significa “o sentimento de ansiedade quando se está separado daquele que você ama”.

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Por Isabela Aoyama – Fala! Mack

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