Conheça melhor a luta cibernética entre Estados Unidos e Irã
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Conheça melhor a luta cibernética entre Estados Unidos e Irã

Conheça melhor a luta cibernética entre Estados Unidos e Irã

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Há mais de vinte anos, o Irã e os Estados Unidos travam uma espécie de Guerra Fria. Essa batalha entre as duas potências, que antes se restringia ao mundo armamentista e político, tem conquistado espaço por meio de plataformas digitais.

As divergências entre os dois países intensificaram-se após um anúncio do presidente Donald Trump, em 2018, de que a sua nação iria romper com o Acordo Nuclear, firmado em 2015 por seu antecessor Barak Obama, após 20 meses de negociações em conjunto com as potências mundiais Rússia, China, Reino Unido, França e Alemanha.

luta cibernética
Conheça a luta cibernética entre Estados Unidos e Irã. | Foto: Reprodução.

Luta cibernética entre EUA e Irã

Em maio de 2020, a IBM, empresa norte-americana de tecnologia da informação, descobriu uma invasão nas contas Google e Yahoo de autoridades americanas. O grupo de hackers envolvido se autodenomina Charming Kitten, ou ITG18. Eles conseguiram obter informações de oficiais da marinha americana, do departamento de estado, da embaixada dos EUA no Irã e de um oficial da marinha da Grécia.

Existem altas chances de que o grupo de hackers esteja trabalhando para a inteligência iraniana, por mais que esse fato não seja confirmado. Os dados obtidos com as invasões podem ser usados para mapear e atacar bases militares e operações norte-americanas contra o governo iraniano.

No mês seguinte, o grupo fez diversas tentativas de invadir contas relacionadas à campanha eleitoral de Donald Trump. Segundo o Yahoo News, tais ataques também podem ser uma retaliação causada pelas explosões e incêndios na Usina Nuclear de Natanz, no Irã, que ocorreram no início de junho. Na época, Trump deu maiores poderes à CIA para que atacassem seus adversários de formas mais destrutivas.

Desde então, o Irã tem utilizado diversos artifícios digitais para roubar informações dos grupos de oposição ao seu governo e dados do governo americano, manipulando de forma árdua as campanhas eleitorais do país. Em setembro, a empresa Microsoft anunciou que hackers utilizaram diferentes meios para espionar usuários via Telegram e WhatsApp, com a finalidade de obter dados eleitorais, manipular campanhas e monitorar civis iranianos em situação de asilo políticos nos EUA.

Um dos golpes mais recorrentes utilizados não apenas pelos hackers iranianos, como por cibercriminosos de todo o mundo, é a tática phishing. Ela consiste em “fisgar” a vítima em questão por meio de mensagens ou e-mails falsificados, levando-a a abrir um link no qual informará os seus dados de forma voluntária por acreditar se tratar de um comunicado oficial, como uma mensagem de troca de senha, por exemplo. Essa técnica é muito usada para sequestrar números de telefone e contas em redes sociais, com uma exigência de pagamento em criptomoedas aos contatos do usuário hackeado.

No Brasil, a tática se tornou uma via comum de roubo digital nos últimos meses, apelidada de “Golpe do WhatsApp”, uma vez que o aplicativo de mensagem é o principal meio de atuação dos criminosos. O golpe se realiza por meio de ligações, anúncios em sites de compras ou até mesmo do Linkedin, convencendo a vítima a informar o número cadastrado no aplicativo de mensagens e confirmar um código por SMS. Tudo acaba se tornando simples, rápido e viável, baseado inicialmente em dados obtidos nas redes sociais da vítima, como Instagram e Facebook.

Em entrevista, o professor de marketing digital da Universidade Anhembi Morumbi, Gabriel Derisio, alerta que qualquer informação trocada por meios virtuais está exposta na rede, é vulnerável e pode ser interceptada, inclusive mensagens e imagens compartilhadas em chats privados.

Derisio ainda diz que parte das soluções para que esse tipo de golpe seja minimizado no futuro é o voto consciente, em políticos comprometidos em melhorar a segurança digital no Brasil, além do que chama de “etiqueta digital”. “Nós temos que ensinar as crianças como se portar na Internet. […] A gente tem que pensar nas crianças pensando na gente, na nossa saída, sobre como a gente não vai se expor tanto, pensar exatamente em que tipo de informação você compartilha na Internet”, completa.

Diferente do golpe brasileiro, os hackers iranianos praticam o phishing principalmente por anúncios e e-mails. Ainda outra forma utilizada pelo grupo, com a intenção de roubar códigos de autenticação de números telefônicos e obter dados do Telegram Desktop, são os aplicativos falsos. Com eles, é possível conseguir acesso aos computadores pessoais das vítimas, que variam desde funcionários da campanha eleitoral de Trump, funcionários da Casa Branca e membros da imprensa norte-americana, até civis e eleitores.

O Telegram disse em nota ao New York Times que “nenhum serviço pode evitar ataques quando alguém convence os usuários a inserir suas credenciais em um site”. O WhatsApp, pertencente ao Grupo Facebook, não quis comentar sobre os incidentes.

Faltando poucas semanas para as eleições norte-americanas, no mês de outubro, as tentativas de invasão de dados se intensificaram. No dia 21, foi confirmado que a Inteligência Iraniana passou a enviar e-mails falsos intimidando eleitores assumidamente democratas: “Estamos de posse de todas as suas informações. Você está registrado como democrata e sabemos disso porque obtivemos acesso a toda a infraestrutura da votação. Você votará em Trump no dia de eleição ou iremos atrás de você”, dizia a mensagem. Os e-mails ainda se passavam pelo grupo supremacista Proud Boys, que nega qualquer envolvimento no ato.

Por meio de um comunicado oficial do Senado dos EUA, essa ação tem como objetivo “disseminar o caos e a discórdia ao dividir o país nas eleições”, uma vez que a reeleição de Trump acarretará em ainda mais pressão sobre o Irã e fomentará uma mudança no regime totalitário. O FBI já havia anunciado anteriormente que estava investigando os e-mails ameaçadores.

Já no dia 28, faltando menos de uma semana para as eleições, o ataque se tornou mais intenso e objetivo: o site da campanha presidencial de Trump (www.donaldjtrump.com) foi invadido. Uma mensagem no site dizia: “Este site foi tomado. O mundo não aguenta mais as notícias falsas espalhadas diariamente pelo presidente Donald J Trump”. Os hackers ainda afirmaram possuir informações confidenciais sobre Trump e sua família, informando que as pessoas deveriam enviar criptomoedas para um endereço digital em troca das informações e para um outro em troca do sigilo. O porta-voz da campanha, Tim Murtaugh, afirmou que o site foi rapidamente reparado e nenhum dado foi comprometido.

A guerra cibernética entre Irã e Estados Unidos marcam a presença da tecnologia e a influência dela sobre as nossas vidas. Segundo Mauro Luiz Peron, professor de culturas tecnológicas da PUC-SP, ela tem o poder de construir alguns aspectos de nossas vidas, assim como também pode destruir. Ele exemplifica ao dizer que a tecnologia fez a humanidade largar o nomadismo para favorecer a sobrevivência, mas que novos empecilhos surgiram com o decorrer do tempo.

“O trabalho para minimizar esses problemas constitui uma luta política, tanto para o acesso e o uso de inovações tecnológicas para tal, como […] para o domínio de softwares livres, que permitam a criação e recriação de softwares voltados para esse combate”, afirma. Ele propõe que uma solução para a problemática que enfrentamos é a criação de um software que combata esse tipo de invasão que ocorre diante de lutas políticas.

Peron ainda afirma que “muito embora os avanços da chamada inteligência artificial, já presentes, suscitam noções de um potente controle brutal sobre indivíduos e grupos inteiros, […] é preciso que reconheçamos as instâncias de poder que produzem tecnologia”.

O docente também considera a tecnologia uma criação de uma sociedade desigual, uma vez que algumas potências políticas possuem um domínio maior sobre ela, e que a guerra cibernética entre EUA e Irã se trata de um confronto planetário, uma vez que as consequências afetarão o mundo inteiro e não apenas os países diretamente envolvidos. Ele finaliza dizendo que as guerras virtuais tratam-se de um problema crescente, originado pelas desigualdades sociopolíticas entre as nações.

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Por Bruna Janz, Geovanna Hora, Giovanna Montagner e Maiara Flor – Fala! PUC

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