Conheça as revistas pulp - O berço da cultura nerd
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Conheça as revistas pulp – O berço da cultura nerd

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O ano é 1896 e a revista Argosy, publicação do revolucionário editor Frank Munsey, acabava de se tornar inteiramente dedicada a “ficção de polpa” – revistas pulp. Com aproximadamente 135 mil palavras distribuídas em 192 páginas sem ilustrações internas e nem arte de capa, ela começava uma transformação não só no mercado editorial, como também em toda a cultura norte-americana.

Essa publicação fez algo que nenhuma outra tinha conseguido antes, ela agregou impressão barata, papel barato e autores que cobravam pouco em um pacote para entreter jovens de todas as classes sociais.

Em pouco tempo, a revista saiu de alguns milhares de cópias para mais de meio milhão de exemplares vendidos por edição. O sucesso rapidamente inspirou novos concorrentes a entrar na área, a Street & Smith lançou a The Popular Magazine que trouxe um nível maior de qualidade e que alçou voos ainda mais ousados. Agora, as revistas eram recheadas de ilustrações e se dividiam em subgêneros diversos, com publicações de terror, velho-oeste, noir e muito mais.

The Popular Magazine
Edição da The Popular Magazine, outubro de 1938. | Foto: Reprodução.

Revistas pulp e a cultura nerd

Mas o que é “ficção de polpa” e por que é tão importante para a cultura nerd? Bom, para começar, esses romances eram produzidos de uma forma bem baratinha e o melhor papel para cumprir com esse objetivo era o que vinha da polpa da árvore. O fornecimento dessa celulose possibilitava uma economia grande que deixava o produto extremamente acessível, hoje, o conhecemos como papel jornal. Nesse terreno fértil, muitas vezes não visto como literatura de verdade pelos estudiosos da época, gêneros renegados ganharam espaço para florescer.

No seu apogeu, algumas revistas vendiam mais de um milhão de exemplares e, em 1934, o número de publicações já passava de 150 títulos mensais. Entre os mais famosos estavam a pioneira Argosy, a horripilante Weird Tales, o sucesso de ficção científica Amazing Stories e até mesmo a Marvel Tales, um título publicado pela própria Marvel quando ainda era conhecida como Atlas Comics.

Muitos autores jovens tinham espaço para publicar suas histórias e explorar novos conceitos, muita coisa boa surgiu a partir de então. Grandes nomes como Isaac Asimov, Agatha Christie, Arthur C. Clarke, Philip K. Dick, H. P. Lovecraft, H. G. Wells e Robert Howard marcaram presença nas revistas, sendo que muitos começaram as suas carreiras a partir delas. Da mesma forma, personagens como Zorro, Tarzan e Conan nasceram dessas mesmas páginas e, até hoje, são figuras marcantes na cultura pop.

Argosy
Edição da Argosy sobre o Tarzan, março de 1938. | Foto: Reprodução.

Destaques na literatura de massa dos EUA

Essa mídia foi responsável por inúmeros marcos na literatura de massa estadunidense, abordando ideias que, até então, não haviam sido exploradas ou,, ao menos, não haviam achado uma plataforma para tal. Por exemplo, em 1905 a escritora indiana Roquia Sakhawat Hussain publicou O Conto de Sultana na The Indian Ladies Magazine, uma utopia declaradamente feminista que explorava o conceito de inversão de papéis de gênero.

Se você ainda questiona a importância dessas revistas para o mundo nerd, aqui, vai uma história que, com certeza, o convencerá! Quando a primeira publicação de ficção científica surgiu em 1926, a Amazing Stories trazia na sessão de cartas o endereço dos leitores. Imediatamente, eles começaram a trocar correspondências entre si e criar suas próprias histórias, publicando-as em revistas independentes, que mais tarde ficariam conhecidas como fanzines. O primeiro desses foi o The Comet do Clube de Ciência Por Correspondência de Chicago, mas, em 1933, essas mesmas publicações independentes iriam subir um degrau de importância.

Na terceira edição do Science Fiction: The Advance Guard of Future Civilization, Jerry Siegel e Joe Shuster publicaram um conto ilustrado chamado The Reign Of Superman, que trazia nada mais nada menos que a primeira versão do Super-Homem.

Essa versão ainda era muito diferente da que seria publicada na Action Comics #1, ao invés do escoteiro azul de índole implacável, o vilão Bill Dunn, com o terrível superpoder de controlar a economia era quem marcava presença. De qualquer forma, esse é um marco significante, talvez esses dois nunca teriam se conhecido e muito menos trabalhado juntos se não fosse pelas revistas pulp.

Superman pulp
Primeira aparição do Superman, 1933. | Foto: Reprodução.

Inevitavelmente essas pulp fictions (sim, é daí que vem o título do filme de Quentin Tarantino) influenciaram demais todas as produções que vieram depois de seu surgimento. Muitos consideram as histórias em quadrinhos e o fenômeno dos super-heróis como conhecemos hoje um produto das revistas pulp, fora os milhares de livros, radionovelas, seriados e filmes que beberam dessa fonte para se desenvolver nas décadas seguintes.

Impactos sofridos pelas pulp fictions

A Segunda Guerra Mundial, infelizmente, teve um impacto extremamente negativo nessas publicações, afinal de contas, os custos subiam cada vez mais e o diferencial já havia sido perdido. Muitos editores optaram em mudar o formato para algo menor na tentativa de se enquadrar como literatura de bolso, mas a competição com os quadrinhos e os próprios livros de bolso (muitos desses escritos pelos mesmos escritores das revistas) dificultou demais essa implementação.

Em grande parte, a popularização da televisão também foi responsável por essa derrocada e, agora, a mídia que forneceu entretenimento barato para as massas durante a Grande Depressão não encontrava um mercado vasto o suficiente para se manter.

revistas pulp e universo nerd
Menina lendo em uma banca de jornal rodeada por revistas pulp, 1948. | Foto: Reprodução.

O que selou o caixão foi a migração em massa dos autores, agora renomados, para a escrita de romances ou até mesmo para roteirizar programas de TV. Essa mudança deu fim ao período de quase 60 anos de publicações que reverbera até hoje na cultura pop.

Por conta da baixa qualidade do papel, é bem difícil achar um exemplar intacto, mas garimpando um pouco na Internet, ainda é possível encontrar uma edição das revistas mais famosas esperando por um olhar mais curioso.

Para ajudar no seu garimpo, o The Pulp Magazine Project (Projeto Revistas Pulp) tem diversas revistas em seu acervo, é só acessar clicando aqui.

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Por Davi Alencar – Fala! Anhembi

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