Contos de Terror: Madame Cassandra
Menu & Busca
Contos de Terror: Madame Cassandra

Contos de Terror: Madame Cassandra

Home > Lifestyle > Contos de Terror: Madame Cassandra

Madame Cassandra, como era conhecida no parque, vinha de uma longa linhagem de ciganos. Assim como sua mãe, e a mãe de sua mãe, e a avó, antes delas, Madame Cassandra tinha um dom genuíno, embora ela preferisse “maldição genuína”. A mulher podia ver o futuro. Não sempre, é claro, as vezes só inventava profecias de sorte e amor para os adolescentes que entravam em sua barraca, no parque itinerante. E por que faria diferente? Quando se é jovem, sorte e amor é o que não vai faltar na vida.

Concurso de Histórias de Terror: Madame Cassandra

Madame Cassandra fazia sua performance teatral, sotaque cigano que era só em parte falso. Então jogava cartas ou lia as linhas da mão, ou mesmo consultava a bola de cristal. “Sorrrte e Amorrr”, dizia ela, dando uma piscadela e um sorriso, mesmo não vendo nada. Era o bastante para deixar as crianças felizes.

Só que, algumas vezes, havia algo lá para ser visto. Madame Cassandra geralmente sabia antes mesmo de consultar as cartas ou ler as mãos. Era aquele arrepio na nuca, o mesmo que sua mãe tinha, que a alertava assim que batia o olho no jovem desavisado que a procurava.

A mulher fingia, é claro, com seu melhor sorriso, chacoalhando pulseiras de ouro e movendo a seda do vestido colorido. “Dê-me sua mão, crrriança”.  Ela nem sempre falava a verdade em suas previsões. “Sorrrte e Amorrr” era melhor do que “Morrrte Horrrível”.

Madame Cassandra andava cansada dessa vida. Às vezes sonhava em abandonar o parque e a carreira de vidente e se estabelecer em algum lugar. Tinha dinheiro o bastante guardado para isso, e certeza que o Grande Mancinni, o dono do parque, entenderia. Ele era um homem bom para sua trupe.

Perdida em seus devaneios, quase nem percebeu as duas garotas entrando na barraca. Quase, porque nada escapava de verdade ao sexto sentido da mulher.

– Vamos, Bia, vai ser divertido – dizia a moça mais alta, de cabelo escuro e encaracolado, praticamente arrastando a amiga.

Ao botar os olhos nela, Madame Cassandra sentiu o arrepio na nuca, acompanhado de dedos gelados percorrendo sua espinha. Sinal de que o futuro de uma delas estaria claro feito água, e não seria nada bom. Nada, nada bom…

– Sentem-se, crrrianças. Estava esperrrando por vocês – disse Cassandra, mantendo a personagem. As duas se olharam e riram. Havia incredulidade naqueles rostos jovens.

– Eu quero que leia a sorte da minha amiga aqui – disse a mais alta. O nome “Amanda” veio à mente da cigana.

– Clarrro, mas Madame Cassandrrra cobra adiantado. Cinquenta de cada, menina Amanda.

Amanda ficou boquiaberta ao ouvir seu nome. Abriu a carteira, tirou duas notas de vinte e colocou sobre a mesa.

– É tudo que tenho.

– Você devia guardar esse dinheiro para depois – disse Bia, sem se impressionar muito com o clina esotérico do lugar.

– A gente saca mais depois, a caminho da festa – respondeu Amanda, quase cochichando, antes de encarar a cigana. – A senhora pode fazer um desconto.

Madame Cassandra sorriu e estendeu a mão para Bia. O dinheiro já não estava mais sobre a mesa.

– Vamos verrr o que o futuro te reserrrva, crrriança.

Bia deu a mão para a mulher, palma para cima. Madame Cassandra passou as unhas longas pelas linhas da pele macia e fechou os olhos, respirando fundo. Nada.

– Eu vejo sorrrte. Sorrrte e amorrr no seu futuro, minha jovem.

– Eu sabia – retrucou Bia, retirando a mão. – Sabia que era bobagem, ainda bem que não me fez gastar o meu dinheiro.

A garota levantou e saiu da barraca pisando duro, sem se despedir. Amanda ficou com as bochechas coradas pela vergonha.

– O namorado acabou de terminar com ela, então não vai ter muita sorte e amor para a Bia tão cedo. Mas obrigada, Madame, foi divertido mesmo assim.

– Esperrre – disse Madame Cassandra, um tom mais alto do que o normal, sem nada de falso no sotaque. A cigana levantou, deu a volta na mesa até ficar de frente para a menina, e segurou sua mão. Seus olhos imediatamente giraram nas órbitas, revelando apenas a parte branca.

Madame Cassandra viu claramente a garota encontrando a amiga no lado de fora. Então estavam em uma festa, Bia conversava com alguém que Cassandra não conseguia ver (como se tivesse algum tipo de interferência) enquanto Amanda beijava um rapaz qualquer.

Amanda estava em casa, em sua cama, selecionando homens naquele aplicativo de namoro. “Não, não, definitivamente não”. Então viu a foto de um rapaz simpático, sorridente. Usava óculos, cabelo bagunçado, não parecia ter muito mais do que a idade dela. Amanda sorriu de volta e deu um coração para ele.

Amanda acompanhava a amiga na seção infantil de uma loja de roupas. A barriga de Bia estava grande, sinal que o bebê não demoraria. Elas escolhiam um tiptop amarelo quando o celular vibrou. Amanda abriu o whatsapp e era ele, a mais recente de uma longa série de mensagens. Ela respondeu com uma figurinha de beijos. Estava feliz.

De pé, a jovem via o caixão de Bia descer lentamente para o buraco. Complicações no parto, disseram. A mãe da garota estava em choque, chorando copiosamente. Amanda também chorava, mas em silêncio. Cada lágrima cortando seu coração. Quando o enterro acabou ela ficou lá, parada. Foi a última a abandonar Bia naquela cova fria de cemitério. Jogou uma rosa sobre a tampa. “Adeus, minha amiga”.

Era inverno. Amanda estava com o cabelo curto, vestindo um agasalho de lã. Bonita, embora um pouco tristonha. “Quando vamos nos encontrar?”, digitou para o namorado. Ele começou a escrever a resposta. Ela estava ansiosa vendo aqueles três pontinhos enervantes do whatsapp. Depois de um tempo que parece longo demais, apenas uma palavra surgiu na tela: “Logo”.

A garota estava radiante, metida em seu vestidinho florido curto, com o cabelo preso, batom vermelho discreto, olhando a paisagem pela janela do avião. Iria encontrá-lo afinal. Depois de todo esse tempo, finalmente iria beijar e abraçar e apertar aquele rapaz que tanto amava.

Amanda tentou gritar, mas o pano enfiado em sua boca abafava os berros de desespero. Quando achava que não tinha mais lágrimas para chorar, elas voltavam a cair. Lágrimas de choque, de tristeza, de dor…

A garota tentou em vão se soltar das correias apertadas que a prendiam à cama, pulsos em carne viva de tanto se debater. Cada movimento arrebentava os pontos da facada, no abdome. A garota ouviu um barulho no quarto e tentou levantar a cabeça para ver o que era. Ele estava parado na escada que subia do maldito porão para a casa. Parado, com aquela cara de lunático, olhando para ela sem piscar.

O foco da garota saiu do monstro, lá no fundo, para própria perna direita. Ou melhor, para o lugar onde deveria haver uma perna direita. A cabeça caiu para trás, gritos vieram, braços lutaram para se libertar. Um filme que ela já conhecia bem o final.

Ele desceu devagar, andou até seu lado, na cama. Estava comendo algo, um pedaço de carne frita. Ofereceu, por educação. Amanda gritou, sentindo o gosto do pano encardido que ele enfiara em sua boca. Ele mastigou, sentindo o gosto dela…

Então tudo desvaneceu e os olhos de Madame Cassandra estavam de volta no lugar. O cheiro da pipoca e algodão doce, lá de fora, rapidamente sobrepôs o cheiro de produtos químicos e sangue seco e carne morta da visão.

Madame Cassandra ainda segurava as mãos da garota. Um aperto firme, gelado. Seu coração batia forte.

– O que… O que a senhora viu para mim, Madame?

Cassandra olhou bem dentro daqueles olhos castanhos, respirou fundo e respondeu.

– Sorrrte e Amorrr, minha crrriança. Apenas Sorrrte e Amorrr.

_________________________
Por André Luiz de Melo

Tags mais acessadas