Como tempos de crise influenciam na intensificação de preconceitos
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Como tempos de crise influenciam na intensificação de preconceitos

Como tempos de crise influenciam na intensificação de preconceitos

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Momentos de crise são constantes na história da humanidade, sejam eles econômicos, sanitários ou ambientais. E tão comuns quanto as crises são as situações de discriminação e perseguição de minorias. Situações essas que costumam aflorar em momentos de crise, por diversas razões. Então, hoje, iremos falar um pouco como as crises explicitam os preconceitos.

Uma resposta evolutiva aos preconceitos

A primeira coisa que devemos pensar quando tratamos de preconceitos é que eles estão pautados em uma resposta evolutiva desenvolvida por milhares de anos. O medo ao diferente é uma característica que serviu como base para a lealdade dentro das sociedades primitivas, já que a proteção do grupo era necessária para o bem-estar de todos os membros ante uma ameaça externa.

Quando analisamos espécies que compartilham conosco algum tipo de parentesco, percebemos que estes comportamentos pautados no ódio também são por eles repetidos. Por exemplo, no caso dos chimpanzés, que assim como os humanos, também costumam dividir-se em grupos e, assim, geram a diferenciação “eles vs nós”. Através dessa diferenciação, os chimpanzés são capazes de decidir em quem devem confiar. Chimpanzés estranhos que invadem, conscientemente ou não, o território de um grupo costumam ser violentamente atacados.

A sociedade dos chimpanzés está totalmente pautada nas relações violentas de dominância. Assim como a nossa sociedade, a sociedade dos chimpanzés é patriarcal e marcada por uma relação de dominância entre os machos e as fêmeas da espécie. A violência é uma das bases do modo de vida dos chimpanzés, eles são umas das poucas espécies que matam sem motivo.

No entanto, os bonobos, outro grupo de primatas parente do ser humano, não costumam apresentar uma organização social tão violenta como a dos chimpanzés (ou a dos humanos). Os cientistas associam isso ao habitat em que os animais vivem, enquanto os chimpanzés habitam uma área com escassez de recursos alimentares, os bonobos são endêmicos de uma área ao redor do Rio Congo que é farta. Apenas essa diferença de distribuição de recursos desenvolveu duas sociedades distintas, uma matriarcal e com baixo índice de violência entre os membros da espécie e outra patriarcal e que se utiliza da violência como meio de dominância.

Absorvendo esses conhecimentos, podemos inferir que o medo ou o ódio ao estranho, ao não integrante do grupo, é algo que tem raízes nos primórdios da nossa existência e estaria em nossos genes. Obviamente, não podemos excluir (além dessa predisposição) o ambiente no qual o indivíduo cresceu e suas vivências.

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Tempos de crise influenciam na intensificação de preconceitos. | Foto: Unsplash.

A perpetuação do tribalismo

Contudo, muitas pessoas podem imaginar que esse “tribalismo” ficou para trás, findou-se com nossos antepassados e hoje perduram apenas entre os primatas. Mas isso não é verdade, se analisarmos o nosso cotidiano, perceberemos que o tribalismo continua vivo e influente entre nós.

Um bom exemplo condiz com os estados-nação, essa é uma organização política totalmente pautada na ideia do tribalismo. Através dessa teoria, passa a existir o pertencente, que está ligado de alguma maneira aos outros membros do grupo e, assim, detém direitos perante o mesmo; e o não pertencente, que dentro da própria teoria dos estados-nação é considerado uma ameaça (já que a mesma é baseada na competição entre as nações).

A natureza das crises

Crises são momentos de grande fervor social, costumam mexer com a estrutura vigente. Crises geram incertezas, ameaças (às vezes desconhecidas) e muitos questionamentos para os quais não estamos preparados. Isso representa um gatilho e tanto para os “genes do ódio”. Se analisarmos ao longo da história, diversos foram os momentos em que as crises desencadearam na perseguição de grupos minoritários.

Ainda na Idade Média, o continente europeu passou por uma epidemia de peste bubônica que dizimou milhões de pessoas, uma situação que desestruturou a sociedade europeia da época. Tendo em vista a escassez de recursos (e conhecimento) para se combater a propagação da doença, os europeus ficaram reféns da ameaça sanitária. Neste momento, uma das explicações que surgiu foi a de que os culpados eram os judeus, durante o período da epidemia ocorreram diversas situações contra os judeus.

A incerteza sobre o futuro e o desconhecimento de métodos sanitários eficientes levou a população europeia da época ao caos (não que isso justifique as atrocidades cometidas durante a Peste Negra). Esse é um exemplo que se repetiu durante o curso da história em várias crises: ocorre uma situação adversa (epidemia, crise econômica ou guerra) e busca culpabilizar outrem (geralmente alguma minoria que será incapaz de se opor à perseguição).

A ideia do ressentimento ou esquecimento e a relação com os preconceitos

No entanto, nem só o medo ao outro ou ao diferente é responsável pela propagação do ódio. O ressentimento ou a ideia de esquecimento é um grande vetor do ódio em nossa sociedade e isso foi evidente nas últimas eleições em diversos países. Muitos políticos extremados que surgiram se baseiam justamente neste discurso do ressentimento.

Essa ideia foi defendida pela socióloga americana Arlie Hochschild, quando ela analisou as eleições nos EUA, em 2016. A pesquisadora mostrou que grande parte do discurso de ódio propagado pelo presidente conseguiu atrair a classe média branca decadente norte-americana, justamente por instigar o pensamento de ressentimento, mesmo que este defendesse propostas que afetam diretamente esta parcela da população que está mais próxima da classe baixa do que da classe alta.

O estudo demonstrou que, para um indivíduo da classe média branca ou da classe operária (que sofreu com os desmantelamento de parques industriais importantes), faz todo sentido pensar que o governo americano os largou. Eles olham as ações afirmativas tomadas pela Casa Branca sobre populações negras, latinas e estrangeiras e acreditam que eles estão sendo “privilegiados” pelo governo, estão trapaceando. 

Não que o preconceito contra estas populações não existisse anteriormente. Mas os impactos econômicos da crise de 2008 e a fuga de empresas dos EUA para a Ásia fizeram com que a classe média visse com maus olhos a ascensão econômica de hispânicos e negros americanos, em grande parte fruto de políticas afirmativas desenvolvidas pelo governo.

A canalização política

Tendo em vista que as crises afloram preconceitos e inflamam ressentimentos, não é de se admirar que políticos se apoiem em discursos que abarquem esses pensamentos. A canalização dos discursos de ódio para o ambiente político costuma não só acatar as ações contra as minorias, como também legitimar essas mesmas ações.

Um grande exemplo que podemos citar foi a ascensão do nazismo na Alemanha durante o período entre guerras. A Alemanha que havia perdido a 1ª Guerra Mundial e foi obrigada a pagar multas e assinar acordos desvantajosos foi o ambiente perfeito para a instalação de um governo autoritário como o de Adolf Hitler.

Não que já não houvesse pessoas que compartilhassem a visão nazista, mas, para que ela fosse amplamente aceita perante a sociedade alemã, foi crucial que os alemães estivessem sentindo-se humilhados. O ressentimento acabou por validar a propaganda leviana, tendenciosa e racista de que um dos culpados do fracasso germânico eram os judeus.

Esse comportamento de uso político dos discursos de ódio pode ser percebido em diversos países da Europa Ocidental, por exemplo, após a crise 2008. Com o desenrolar da crise e seus impactos econômicos, surgiram inúmeros políticos que clamavam por leis imigratórias mais rígidas e o desmantelamento da União Europeia.

Cabe ressaltar que, além dos preconceitos gerados por questões econômicas, esta guinada em direção a políticos mais radicais também representou o aflorar de vários outros, não ligados à questão econômica. Muitos dos governos eleitos após a crise de 2008 passaram a tirar direitos, e até mesmo perseguir, de outras minorias, como a população LGBT e as mulheres.

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Por Jefferson Ricardo – Fala! UFPE

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