Como os romances proibidos do cinema podem afetar o comportamento
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Como os romances proibidos do cinema podem afetar o comportamento

Como os romances proibidos do cinema podem afetar o comportamento

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Romance e cinema nem sempre andaram atrelados. A origem do gênero se deu na literatura e sua chegada às grandes telas teve início por volta dos anos de 1930 e 1940. De fato, não é mistério que amamos romances, ainda mais aqueles onde os protagonistas iniciam a história se odiando e, no final, como pouco previsto, acabam se apaixonando da maneira mais frenética possível.

Mas será que os romances sempre despertam o melhor dos espectadores? E se, de repente, esse sentimento de desejo se transformasse em um pesadelo disfarçado ou, até mesmo, um crime envolto por uma “máscara” denominada “um romance proibido”? Será que existem certos comportamentos que realmente podemos inserir nesse gênero?

O abuso e a manipulação no cinema

Em 1962, era lançada a primeira adaptação do livro Lolita, dirigida por Stanley Kubrick (o mesmo diretor do conhecido O Iluminado). A segunda versão foi levada aos cinemas em 1997, agora, dirigida por Adrian Lyne. A obra conta sobre como Humbert, um professor britânico de meia-idade que decide morar nos EUA, acaba alugando um quarto na casa de uma viúva extremamente carente, mãe de Lolita, uma criança de 12 anos que acaba lhe despertando um interesse doentio romântico e possessivo.

Humbert acaba se juntando à viúva apenas para poder passar mais tempo com a menina. No livro, contamos apenas com a visão de Humbert sobre a situação, onde ele afirma com total certeza que a garota se insinuava e o provocava, almejando sua atenção – isso no ponto de vista de um manipulador, pedófilo e abusador – no filme não é muito diferente, vemos a manipulação tomando conta da própria audiência, romantizando uma história de pedofilia. Contamos, ainda, com várias cenas onde a atriz de 15 anos é sexualizada, com roupas, maquiagens e comportamentos de uma adulta. Lolita transmite a pedofilia de uma forma romantizada. 

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Cena retirada do filme Lolita, Humbert e Lolita viajando. | Foto: Reprodução.

Outro clássico citável: Manhattan. Lançado em 1979 e dirigido por Woody Allen, o romance relata sobre a vida de Isaac Davis, um adulto de 42 anos que tem um emprego infeliz e se vê passando por um momento de frustração por sua ex-esposa, Jill, estar escrevendo um livro sobre a relação conturbada que o casal teve, além de trocá-lo por uma nova parceira. No meio de toda confusão, temos Isaac com uma namorada de nada mais, nada menos que 17 anos, Tracy (a qual ele não ama) apaixonada por Isaac, um homem mais velho que seu pai. Vemos a garota fazer de tudo para despertar o sentimento recíproco em Isaac, entretanto, se dá conta de que ele nunca a levará a sério por conta do contraste das idades. 

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​Cena retirada do filme Manhattan​, Isaac revela a Tracy que não a ama. | Foto: Reprodução.

​Visto de outro ponto, não mais como romance, no filme, 3096 dias de cativeiro, vemos uma história real do horror que a austríaca Natascha Kampush viveu durante 8 anos presa em cativeiro, sequestrada apenas com 10 anos por um técnico de telecomunicação, que a isolou completamente do mundo, forçando-a a lidar com maus-tratos, humilhações, tortura e fome. Natascha não relata ter sido abusada fisicamente, entretanto, seu sequestrador Wolfgang Priklopil, obrigava a garota a participar de filmes sadomasoquistas enquanto estivera em cativeiro, longas que ele mesmo gravara.

Wolfgang apresentava inúmeras tentativas de convencê-la de que ninguém gostava mais dela, como um gatilho mental para a garota que enfrentou toda sua adolescência em cativeiro, ser manipulada era fácil. Ele fazia tudo isso com o intuito de que, um dia, Kampusch se apaixonasse por ele.

(…) o mundo exterior não era mais meu mundo. (…) E havia apenas uma pessoa que podia me tirar da solidão opressiva – a mesma que criara aquela solidão pra mim.

Natascha Kampush (trecho retirado do site ScienceBlogs, para ler a matéria completa clique aqui).

Natascha Kampush desenvolveu a Síndrome de Estocolmo – um estado psicológico em que a vítima, em altos níveis de tensão por estar exposta à intimidação, à agressão e, até mesmo, ao medo de morte, desenvolve amor ou empatia por seu agressor.

Em Verdades Secretas, telenovela brasileira dirigida por Mauro Mendonça Filho, vemos a história de Angel e Alexandre. A modelo, menor de idade, chama a atenção do empresário Alex por sua inocência e honestidade, ele que em seu instinto possessivo promove um acordo com a agência da garota para que, em troca de divulgação da marca, tenha a modelo como garota de programa exclusivamente para si e limitando-a a eventos da cidade, até mesmo se casa com a mãe de Angel na intenção de ficar cada vez mais próximo da filha. Ao redor de pressão e manipulação, tanto do parceiro, quanto de sua agência, a menina se encontrava apaixonada por Alex, mesmo sendo manipulada ainda queria se casar, ter filhos e viver um romance ao lado dele.

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Cena retirada da telenovela Verdades Secretas, Angel e Alex brigando. | Foto: Reprodução.

Como a normalização influencia o caráter humano

Há várias vertentes problemáticas que surgem de um único comportamento. Cogite uma mente psicopata se deparando com qualquer um desses filmes, todos no gênero “Romance”. Uma mente com distúrbios ou até mesmo pensamentos questionáveis se deparando com a romantização de crimes na TV automaticamente considerará seus desejos “aceitáveis” ou ao menos “alcançáveis”. “A vida imita a arte” – a mídia, independente de seu meio, apresenta um poder absurdamente forte sobre as ações humanas, vemos a prova disso na política, jogos de imprensa, mas o que não nos atentamos de forma específica é o poder que o cinema tem sobre nós.

Assim como o cinema apresenta seus pontos altíssimos e positivos para influenciar e aguçar sentimentos como amor, empatia e até mesmo alegria a seu público, ele também tem o poder de gerar comportamentos doentios, descontrolados e criminosos, ainda mais quando um desses atos é considerado “paixão proibida” no meio público cinematográfico.

A verdade é que normalizamos a acreditar que não há nada terrível acontecendo debaixo de nossos olhos. Se nesse instante entrarmos no YouTube e digitarmos “Humbert e Lolita”, “Angel e Alex” encontraremos diversos vídeos romantizando ambas situações. E se por acidente uma criança acessar isso? E se sua mente compreender o abuso infantil algo “normal”, “aceitável”? No Brasil, 55% da população de 14 a 18 anos consome a plataforma. Entre as crianças de 11 e 12 anos, 62% utilizam o aplicativo. O ser humano é realmente o que consome?

Infelizmente, a romantização com atos de violência e brutalidade por vezes se mostrou prazeroso ao público, com reações positivas a comportamentos negativos. Um filme interessante para analisar o quão horrível e pesado eles podem ser é a recente obra da Netflix, de 2017, Fica Comigo, dirigida por Brent Bonacorso, onde mostra de uma forma exageradamente necessária o quão perigosa é e até onde pode ir a manipulação, o desejo doentio e o que ele pode causar caso não se mostrar recíproco. Em resumo, uma história que começa com comportamentos super naturais, aparentando ser apenas mais um romance juvenil, mas quando as coisas não saem como Holly (interpretada pela atriz conhecida Bella Thorne) espera, seus desejos falam mais alto engatinhando todo clímax da história. 

O abuso, tanto emocional, verbal ou físico, é um crime onde a intenção do abusador é transferir tudo o que ele sente em relação a si mesmo para outra pessoa, desenvolvendo comportamentos e situações específicas que provoquem oportunidades dele sugar as forças da vítima e controlá-la, principalmente através do medo. Medo e Romance não aparentam nem de longe serem sinônimos. Na maioria dos casos, o indivíduo viveu uma relação abusiva quando criança e por isso acha normal o jeito de tratar as pessoas de tal forma quando busca relacionar-se. 

O documentário Um Crime Entre Nós, de Adriana Yañes, lançado em 2020, apresenta um olhar ousado e instigante para a busca constante da luta pela exploração sexual infantil, onde o Brasil se encontra em 2º lugar no ranking mundial. Um mercado no qual a infância é trocada por qualquer comportamento menos valioso. Confira a crítica completa no site, vale a pena! 

​Trailer Um Crime Entre Nós. | Fonte: YouTube. 

O público assiste aos filmes e deseja viver as mesma histórias, então quando se depara no meio de uma situação parecida, acredita que o certo a fazer é o que aprenderam com algum conteúdo, e inconsequentemente acredita que é um comportamento normal. Filmes que se classificam como Romance e retratam pedofilia, abusos, e até mesmo violência, atribuindo como características de paixão amorosa, são conteúdos tão perigosos quanto um filme que trate necrofilia como paixão ardente de ambos os lados. 

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Por Milena Ogeia – Fala! Mack

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