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Como a pornografia afeta a geração Y

Como a pornografia afeta a geração Y


Por Arthur Santos, Beatriz Biasoto, Beatriz Cavallin, Gabriel Balog, Nathalia Andrade e Yasmin Altaras – Fala!Cásper

A relação entre jovens e conteúdo pornográfico pode gerar dependência e até desvio afetivo

O fácil acesso a celulares e computadores com internet na atualidade tende a impulsionar visitas em sites e visualizações de vídeos pornográficos entre as pessoas cada vez mais cedo. O debate acerca desta temática encontra barreiras para se conectar com a sociedade. Para o sexólogo Marcelo Lima, crianças e o jovens entre 8 e 17 anos de idade tem curiosidade de aprender coisas novas. A grande questão é a forma distorcida que a pornografia transmite. “Ele passa a ver no sexo algo mecânico, e não afetivo”.

Segundo dados do site de pornografia Pornhub, em 2017 houve um decréscimo de dois por cento de consumo pornográfico por parte dos visitantes com 18 a 24 anos em comparação a 2016. Os números gerais foram de 31% para 29%. Se especificarmos para estatísticas somente no Brasil, o declínio foi de 32% para 30%. Ainda assim, pesquisadores e especialistas no assunto vêm estudando os múltiplos prejuízos que o consumo contínuo de pornografia provoca aos indivíduos, principalmente os mais novos. Entre os problemas mais citados estão o vício, a crise de afetividade e implicações sexuais e emocionais, como disfunções, insegurança e idealizações.

A psicóloga e sexóloga Bruna Zimmermann faz um paralelo da pornografia com as drogas em relação à satisfação e seus efeitos colaterais. “O pornô acaba gerando um bem-estar muito grande, principalmente no primeiro contato com esse tipo de conteúdo, que jamais será igual ao das outras vezes, como uma droga. As pessoas sempre vão atrás dessa primeira sensação”, aponta. Seguindo essa mesma linha, o sexólogo Marcelo Lima explica que o sistema neurológico possui muita plasticidade dos 12 aos 20 anos e que a pornografia ativa diversas áreas do cérebro, podendo levar ao vício. “O cérebro se acostuma com o estímulo e o nível de dopamina (neurotransmissor responsável pelo prazer e motivação) liberado. Fica muito difícil desvincular o prazer da pornografia que até certo período não era visto como vício” indica Marcelo.

A psicóloga Lillian Félix detalha que o cérebro humano tem uma facilidade de perceber as situações que causam certa ansiedade ou desconforto. A atração sexual na adolescência é ainda mais estimulada. Em busca de satisfazer esse estímulo, a pornografia torna-se o caminho mais simples e acessível. “Quando se está nesse incômodo, procura-se uma forma de sair desse estado e satisfazer o nosso organismo. Quando o cérebro percebe o uso da pornografia na internet como alívio, estabelece-se uma relação de vício. Cria-se um ciclo de incômodo, satisfação e alívio. Com o tempo, isso cresce”, explica.

Marcelo constata que, além de poder levar ao vício, a questão do corpo e da violência são outros pontos que devem ser destacados. “Os jovens olham para aqueles corpos e tudo que as pessoas fazem nos vídeos e não se identificam. Daí vem a frustração. Também há as agressões que as mulheres sofrem nos vídeos, o que faz com que os meninos subjuguem a mulher para ter uma relação satisfatória”, reflete. Bruna comenta que a referência que se tem através da pornografia “é muito irreal e gera percepções deturpadas da masculinidade e da feminilidade, assim como distorções e idealizações corporais”.

Visão dos jovens

Para a estudante de 19 anos, Bruna Rodrigues*, seu primeiro contato com a pornografia foi em torno dos 9 anos de idade, por meio do computador de seu irmão. “Entrei em um dos sites marcados como favoritos. Vi sem querer com uma amiga minha porque achávamos que era outro tipo de vídeo”, conta. Segundo a jovem, o que veio inicialmente a sua mente ao se deparar com as cenas pornográficas foram as expressões de dor que as atrizes demonstravam. “Pensei: ‘Nossa, isso deve ser péssimo’. Depois, eu e minha amiga nos sentimos mal e nunca contamos para ninguém”. Além do medo de que algum adulto descobrisse o que elas tinham assistido, a experiência repentina com conteúdo pornô trouxe implicações na compreensão de questões relacionadas ao mercado pornográfico e à atividade sexual. “Isso me deixou muito nervosa, e eu não entendia o porquê da mulher se submeter àquilo. Com certeza me deu uma visão muito distorcida do sexo”, afirma a garota.

Um fator característico da pornografia é a ‘hipersensualização’ dos corpos — principalmente feminino -, o que poderia proporcionar uma idealização de um corpo perfeito a ser seguido. Na visão da vestibulanda, esse ponto nunca foi seu foco, apesar de considerar que varia de cada pessoa. “Prestei mais atenção no fato da mulher parecer estar sofrendo e na brutalidade dos atos. Foi só na minha primeira relação sexual que percebi o quão distante da realidade é a pornografia”.

“O problema, na verdade, é desde o início. Eu acho que ainda existe esse tabu sobre falar de sexo para o jovem, dá medo nas pessoas”, é o que diz Guilherme Nakamura, de 18 anos. Para ele, a pornografia em si nem é o epicentro do problema, mas, sim, a resistência que a sociedade tem em trabalhar o assunto e conscientizar as pessoas ainda na juventude. Em sua opinião, o conteúdo pornográfico é pura ficção, criando padrões de corpos não saudáveis e ideias que pouco tem a ver com o que o sexo realmente representa. A situação se torna ainda pior quando o jovem não aprende sobre sexo em casa nem na escola, com profissionais da área, porém nos sites de pornografia e sozinho na internet, criando falsas expectativas sobre o que é uma relação sexual.

Indo mais a fundo, dominação e subjugação do gênero feminino, a banalização do sexo e até a violência sexual são, para ele, problemas conectados à pornografia. Guilherme reitera como simplesmente conscientizar sobre o teor ficcional daquilo tudo, “como qualquer filme na tv”, poderia ser a resposta. O ensino do sexo e o debate do tema poderiam amenizar grande parte da problemática, dizendo que não teve tal coisa no ambiente escolar, mesmo que seja algo essencial. “A pornografia é muito perigosa quando você não tem uma orientação porque ela te leva a entender que o mundo é daquele jeito”.

*Nome alterado para proteger a identidade da entrevistada

Quem mais está falando?

“Temos que prestar atenção em tudo que colocamos pra dentro de nosso corpo, a mesma coisa com nossas mentes. Pornografia não escapa disso”, é a ideia chave de Ran Gavrieli em seu Ted Talk “Por que eu parei de ver pornô” (Why I stopped watching porn), com mais de 18 milhões de visualizações no Youtube. O palestrante, escritor, ativista e coordenador da instituição ELSE, de educação e saúde sexual, viaja o mundo com o objetivo de conversar e ensinar pessoas sobre todo esse universo que muitos consideram tabu, em uma tentativa de prevenir problemas como: disfunções sexuais e de afeto em relacionamentos, desigualdade de gêneros, transtornos de autoconhecimento e até o mercado de prostituição, muito ligado, de acordo com ele, à pornografia.

Foto: Arthur Fuhrer


Em seu livro, A Agonia de Eros, o filósofo coreano Byung-Chul Han discute qual a real proximidade entre pornografia e a verdadeira sexualidade, bem como as consequências dessa distinção na contemporaneidade. “O pornô é a antítese de Eros (deus grego primordial do amor). Aniquila a própria sexualidade”, diz Han. Ainda ressalta o processo de perda do mistério e do aspecto comunicativo do ato sexual, já que os estímulos e imagens de entretenimento erótico levam ao distanciamento do sentimento amoroso. Essa análise legitima também uma lógica na qual os corpos não passam de produtos a serem consumidos, a mercadorização dos corpos, que garante a eles valores pautados pela sensualidade e graus de desejo.

Foto: Massimiliano Minocri (El País)

Sexo e sexualidade

Por outro lado, Laura Stoppa, educadora de sexualidade e idealizadora do site Transemosressalta a importância de se distinguir a diferença entre sexo e sexualidade. “Isso é muito importante, porque muitos adultos, atualmente, pensam que falar de sexualidade é incentivar a prática e não discuti-la.”, declara. Para a profissional, a questão da sexualidade é intrínseca a cada um independentemente de a pessoa ter uma vida sexual ativa ou não, englobando a característica multidisciplinar do próprio tema em si, pois “a nossa sexualidade é composta por elementos sociológicos e biológicos, levando em conta o tempo que vivemos, e também por aspectos éticos e religiosos que levam para as discussões de moralidade”, adiciona.

Além desses problemas, a relação do jovem com o sexo é algo que deve ser discutido, especialmente no que diz respeito ao próprio corpo, pois muitos não o conhecem, incluindo a total falta de domínio do que os excita e dá prazer. A falta de diálogo entra aqui como protagonista que, mais uma vez, dá à pornografia o papel de ‘professora sexual’. Para Stoppa, a complexidade da sociedade é tamanha que se torna complicado discutir esses temas. Contudo, é preciso que levar em consideração que é por meio do debate sobre sexo e sexualidade que a geração mais nova irá se conhecer melhor, é “fazer o jovem saber que ele pode, sim, escolher”.

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