Clay Jensen, de '13 Reasons Why', e a masculinidade tóxica
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Clay Jensen, de ’13 Reasons Why’, e a masculinidade tóxica

Clay Jensen, de ’13 Reasons Why’, e a masculinidade tóxica

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No mundo contemporâneo, as masculinidades são um problema real. Pesquisas feitas para o documentário O silêncio dos homens, do projeto PapodeHomem, nos contam que sete em cada dez homens não conversam sobre seus sentimentos com seus amigos, deixando de compartilhar seus maiores medos e dúvidas. Tal situação se dá em decorrência de anos de frutificação de uma cultura de masculinidade tóxica, que impõe, aos homens, determinados comportamentos.

Eles são ensinados a serem os provedores de suas famílias, bem-sucedidos profissionalmente, a não demonstrarem seus sentimentos e a serem fortes – emocional e fisicamente. Todas essas heranças acarretam em diversos problemas, como a violência doméstica, a tendência ao assédio e altíssimas taxas de suicídio e homicídio.

Traçando um paralelo com a indústria cinematográfica, em quatro temporadas repletas de reviravoltas e conflitos, a série americana 13 Reasons Why narra a intensa vida dos adolescentes do ensino médio da Escola Liberty. No decorrer dos episódios, os jovens têm de conviver com uma extensa lista de problemas, como suicídios, assassinatos e abuso de substâncias químicas. Os segredos se amontoam e tornam o cotidiano extremamente complicado – muito mais do que deveria ser para adolescentes daquela idade. No cerne de todas essas adversidades, está um dos protagonistas do seriado: o garoto Clay Jensen (Dylan Minnette), em quem é possível notar alguns traços de masculinidade tóxica

13 Reasons Why
Clay Jensen, de 13 Reasons Why. | Foto: Reprodução.

13 Reasons Why: Clay Jensen e masculinidade tóxica

Na primeira temporada, o suicídio de Hannah Baker (Katherine Langford), garota por quem Clay era apaixonado, dá início a uma maré de azar em sua vida. Seus dias como estudante do ensino médio se tornam uma verdadeira jornada de herói. Ele evita que um de seus colegas pratique um school shooting durante o baile do colégio, encobre um homicídio praticado por seus amigos, faz de tudo para ajudar Justin Foley (Brandon Flynn) a livrar-se do vício em heroína, entre tantas outras atitudes de coragem e altruísmo.

Contudo, ao focar-se tanto nos problemas dos outros, Jensen acaba esquecendo-se de cuidar de si, como retratado em um diálogo que o personagem tem com sua namorada, Ani (Grace Saif), que o aconselha: “se você não se ajudar, não vai conseguir ajudar ninguém”. 

De tanto envolver-se com as adversidades alheias, Clay desenvolve uma série de paranoias. Suas crises de pânico tornam-se mais frequentes, sua ansiedade e depressão aumentam exponencialmente, ele tem pesadelos em todas as noites e passa a enxergar espíritos de seus colegas falecidos. Tudo isso o leva a tomar atitudes bastante questionáveis.

O garoto passa a envolver-se em brigas físicas, dirige o carro de seu amigo Zach Dempsey (Ross Butler) em alta velocidade até capotá-lo e passa a experimentar drogas, por exemplo. Mesmo assim, o rapaz não expõe suas dificuldades para ninguém e passa a sofrer em silêncio. Um silêncio tanto verbal quanto emocional e social. Um silêncio que passa a corroê-lo internamente.

É consenso, atualmente, que o fato de os homens terem, em geral, maior dificuldade de expor seus sentimentos faz com que eles acabem recorrendo a outros meios para expressá-los ou até mesmo para tentar escondê-los, como a violência e o uso de entorpecentes. Já que tantas emoções acabam por ficar reprimidas, não é incomum ver indivíduos do sexo masculino tendo reações intempestivas e explosivas perante a situações adversas. Essas características se fazem muito presentes no protagonista de 13 Reasons Why, principalmente nas cenas nas quais ele agride outros personagens ou atira objetos no chão como forma de demonstrar sua raiva. 

Para piorar, Clay apresenta enorme relutância em procurar ajuda psicológica. Assim, ele entra para mais uma estatística masculina. Mesmo suicidando-se quatro vezes mais do que as mulheres, os homens ainda são minoria nos números de pacientes de psicoterapia. Na série, além de inicialmente recusar tratar-se com um profissional, Jensen não consegue abrir-se nem com seus próprios pais, que por diversas vezes tentam ajudá-lo e perguntam sobre seu estado mental.

Isso acontece devido à supracitada necessidade dos homens de parecerem fortes e intransponíveis, graças a essa cultura de masculinidade não saudável intensamente difundida. Dessa forma, rapazes como Clay Jensen acabam por guardar seus maiores medos e angústias apenas para si, transformando-os numa bola de neve de emoções prestes a explodir.

Ainda nesse sentido, outro tipo de comportamento do personagem recai justamente nessa questão da masculinidade tóxica: sua enorme necessidade de proteger os outros. A figura do homem como protetor de sua família é extremamente alastrada, principalmente em suas relações com mulheres, que, por serem vistas como mais fracas física e até emocionalmente, deveriam supostamente ser protegidas.

Nesse sentido, Clay Jensen apresenta uma certa “síndrome de herói”, como dito anteriormente. Ele se sente na obrigação de salvar a tudo e a todos e busca sempre estar no controle de situações, mesmo quando essas não o envolvem.

Clay Jensen, de 13 Reasons Why
Clay Jensen, personagem de Dylan Minnette na série.

Vale ressaltar, também, que o personagem analisado foge dos estereótipos do homem másculo tidos na sociedade. Ele não é um rapaz atlético, forte e nem possui o maior traquejo quando o assunto são as garotas. Pelo contrário. Tímido, Clay nunca esteve entre os mais populares de sua turma, o que, à primeira vista, pode fazer com que se assemelhe aos batidos mocinhos “excluídos” das comédias românticas.

No entanto, nem o mais doce dos meninos em 13 Reasons Why consegue escapar desses traços machistas. Esse tipo de masculinidade não saudável está exposto a todos os homens da sociedade. E é preciso muito cuidado para não se deixar afetar.

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Por Bruno Genovesi – Fala! Cásper

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