Home / Colunas / Cinema / Cinema: Os Grandes Épicos Modernos

Cinema: Os Grandes Épicos Modernos

Por Matheus Menezes – Fala! Anhembi

 

OS GRANDES ÉPICOS MODERNOS

Os filmes épicos dominaram a Era de Ouro de Hollywood. Todo ano novas produções eram lançadas, uma mais ambiciosa do que a outra. Mas o orçamento desses longas sempre foi um problema. Depois da década de 1960, o gênero entrou em decadência, e os estúdios se recusaram a investir tanta grana em apenas um título. Chegava ao fim a fase mais frutífera dos filmes épicos. Você pode ler mais sobre isso aqui.

Os jovens que cresceram admirando essas produções se tornaram diretores de cinema, roteiristas, atores, produtores, etc. Eles empreenderam um enorme esforço para trazer de volta o cinema épico. Com isso, conseguiram retomar o gênero com uma nova roupagem, mais moderna.

A RENASCENÇA

Fonte: (Guild Films)

Os primeiros exemplos de uma tentativa de retomada do épico surgiram ainda na década de 1990. O ator Kevin Costner, em sua estreia como diretor, lança o faroeste Dança com Lobos (1990). Ele precisou lutar bastante por esse trabalho. Muitos espertalhões em Hollywood desconfiavam do potencial do longa. Apesar disso, o filme foi um enorme sucesso e ganhou sete prêmios no Oscar, incluindo Melhor Filme e Melhor Diretor. Ainda que possua aspectos épicos, Dança com Lobos é mais lembrado e entrou para a história por ter revitalizado outro gênero do cinema: o faroeste. Mas essa história merece outro artigo.

Fonte: (Paramount Pictures/Divulgação)

A verdadeira retomada do épico, nos moldes dos antigos clássicos, foi Coração Valente (1995), estrelado e realizado por Mel Gibson. O filme narra a revolta popular de William Wallace – guerreiro escocês – contra o rei Eduardo I da Inglaterra na virada do século XVI. Esse épico histórico combina ação brutal com tragédia romântica. Mel Gibson financiou a produção e garantiu no Oscar a estatueta de Melhor Diretor, além de Coração Valente ter ganho também como Melhor Filme.

Fonte: (20th Century Fox/Paramount Pictures/Merie W. Wallace)

Agora a obra que alavancou qualquer patamar já alcançado por um filme épico foi Titanic (1997), de James Cameron. A história de ficção, baseada no naufrágio real do RMS Titanic, entrelaça um romance proibido e desastre em alto-mar. Os efeitos especiais utilizados para representar o naufrágio são espetaculares. Assim como Ben-Hur (1959) havia recebido o maior orçamento para um filme na sua época, Titanic também estourou os cofres de Hollywood, com um orçamento aproximado de 200 milhões de dólares. Mas o risco pareceu pequeno diante do megassucesso: o filme faturou mais de um bilhão de dólares, permanecendo como a maior bilheteria do cinema por doze anos. Bateu um recorde no Oscar ao vencer em 11 categorias, desde Melhor Filme e Melhor Diretor até Melhores Efeitos Visuais e Melhor Canção Original.

Na década de 1990, Hollywood voltou a brincar com o épico, embora somente em ocasiões específicas. Os lançamentos eram mais espaçados, e recebiam roupagens diferentes, como o faroeste de Dança com Lobos e o desastre romântico de Titanic. Não havia uma leva de respeito para realmente firmar o retorno do épico. Ainda faltava uma obra que reassumisse os trejeitos do épico clássico. E isso só iria acontecer na década seguinte.


A FASE MAIS ABUNDANTE

Fonte: (Dreamworks/Universal Studios/Jaap Buitendijk)

O filme que de fato traria o épico de volta às telonas foi Gladiador (2000), de Ridley Scott. A trama segue o General Máximus, vivido por Russell Crowe, o romano leal transformado em escravo. Ridley Scott acumulou todas as referências do cinema épico coletadas da Era de Ouro e produziu uma síntese impecável, ao mesmo tempo homenageando e garantindo o fôlego para produções do tipo por anos a fio. O cineasta soube equilibrar os momentos emotivos com as cenas de batalha, brilhantemente encenadas. Gladiador não é épico apenas em escala, mas também em suas imagens, com toda a grandiosidade de Roma. Obteve cinco estatuetas no Oscar, incluindo Melhor Filme e Melhor Ator.

Graças a Gladiador, os filmes épicos ganharam uma nova oportunidade no cinema. O início da década de 2000 testemunhou uma explosão no interesse por histórias épicas. Entre os novos títulos dessa fase estão Alexandre (2004), Rei Arthur (2004), Tróia (2004), Cruzada (2005), 300 (2006), A Última Legião (2007) e Robin Hood (2010) – esse último marcando mais uma parceria entre Ridley Scott e Russell Crowe. Foi a fase mais frutífera do cinema épico desde Spartacus (1960) e Lawrence da Arábia (1962). Ainda que essa nova leva de filmes tenha encontrado seu público nas salas de cinema, podemos questionar a qualidade artística de muitas dessas obras.

Fonte: (IMF Internationale Medien/Film GmbH/ Co. 3 Prod. KG)


Alexandre
(2004), por exemplo, dirigido por Oliver Stone – um dos maiores cineastas vivos – foi indicado em seis categorias do Framboesa de Ouro, incluindo pior filme, pior diretor e pior roteiro. Uma mancha horrível na carreira de Stone e de toda a equipe envolvida. A despeito disso, não devemos levar em consideração apenas o Framboesa de Ouro para julgar o valor dessas produções, mas fato é que, devido a essa aparelhagem pouco requintada, os filmes épicos entraram na década de 2010 com um fôlego rastejante e quase falecendo.

Nesse contexto, foram lançados Centurião (2010), A Legião Perdida (2011), Imortais (2011), 300 – A Ascensão do Império (2014), Pompeia (2014), Hércules (2014), Deuses do Egito (2016) e, mais recentemente, Rei Arthur: A Lenda da Espada (2017). Com menos de dez anos após a sua retomada, a audiência já se saturou com tantas obras e tramas sem muito sentido.

Fonte: (Paramount Pictures/Divulgação)

Talvez o único que se salva desse bolo é o épico bíblico Noé (2014), de Darren Aronofsky, um cineasta com uma pegada forte, mas que se sujeitou a fazer um filme tipicamente de estúdio. Nesse caso, ele encontrou um equilíbrio satisfatório. Entretanto, a comunidade religiosa não gostou muito da adaptação, que tomou diversas liberdades artísticas e fugiu do texto bíblico original.

Fonte: (Record Filmes/Divulgação)

Nesse meio-tempo, o Brasil também se envolveu na produção de épicos bíblicos. A Record Filmes transpôs a sua telenovela de sucesso Os Dez Mandamentos em um longa-metragem para os cinemas. Os Dez Mandamentos – O Filme (2016) rendeu a maior bilheteria já registrada em território nacional, ainda que as críticas tenham sido, no geral, negativas.


UM NOVO TIPO DE ÉPICO

A modernidade provou para o cinema que não são apenas as temáticas de impérios, guerras e grandes figuras históricas que rendem bons épicos. Antes de tudo, épico é uma linguagem cinematográfica, que pode se aplicar a diversas tramas. Com receio de retomar o épico nos mesmos moldes dos antigos clássicos, Hollywood testou outros gêneros em conformidade. As primeiras experimentações aconteceram na década de 1990, com os já citados Dança com Lobos e Titanic.

Fonte: (Pierre vinet/New Line Cinema/Kobal/Rex)

Na década seguinte, o projeto mais ambicioso de todos os tempos tomava forma. O épico fantástico O Senhor dos Anéis (2001, 2002, 2003), adaptação dos livros de J. R. R. Tolkien, foi algo sem precedentes na história do cinema. O cineasta neozelandês Peter Jackson, até então desconhecido do grande público, encabeçou o projeto. As três partes foram filmadas em sequência ao longo de 16 meses, e contam uma narrativa épica imponente e fantástica.  A Terra Média, mundo mágico criado por Tolkien, é o pano de fundo para a aventura de Frodo e Sam.

Uma das maiores conquistas de O Senhor dos Anéis são seus efeitos especiais. Por anos a indústria tentou adaptar a antológica série de livros, mas só conseguiu fazer jus ao universo de Tolkien através de animações.

Fonte: (New Line Cinema)

Dessa vez, a produção reuniu um elenco de peso e personagens em computação gráfica que são indistinguíveis dos atores de carne e osso. A trágica figura de Gollum é uma peça icônica dos filmes, e foi responsável por um avanço gigante no ramo dos efeitos visuais.

Independente da sua amplitude, a essência de O Senhor dos Anéis está na amizade entre Frodo e Sam, e na bravura de seus heróis. Todas as três partes receberam indicações ao Oscar, com o terceiro e derradeiro filme sendo coroado triunfalmente com a categoria de Melhor Filme.

Depois da trilogia de Peter Jackson, foram necessários alguns anos para que alguma produção se igualasse no mesmo patamar de O Senhor dos Anéis. O nível só seria estremecido com a estreia do novo projeto de James Cameron.

Após dirigir Titanic, Cameron trabalhou por doze anos naquela que se tornaria a sua obra-prima. No ápice da sua carreira, ele lança o épico de ficção científica Avatar (2009), delimitando novos paradigmas para o cinema.

A trama já é costumeira: um soldado busca a paz interior durante a guerra, transformando-se em nativo. Mesmo carecendo de uma complexidade de personagens ou acontecimentos, o filme se mantém espetacular em razão de seus efeitos visuais, um verdadeiro triunfo.

Fonte: (20th Century Fox)

As tecnologias empregadas transformaram a indústria, e permanecem até hoje como o exemplo máximo de computação gráfica em qualquer mídia. Avatar se tornou a maior bilheteria da história, superando Titanic. No Oscar, venceu com Melhor Fotografia, Melhores Efeitos Visuais e Melhor Direção de Arte. No momento, três continuações estão sendo planejadas, a serem filmadas em sequência, da mesma forma empregada por O Senhor dos Anéis.

Alguns filmes recentes de aventura, tais quais Piratas do Caribe: A Maldição do Pérola Negra (2003) e Mogli: O Menino Lobo (2016), também trabalharam elementos épicos em suas tramas, bem como os filmes de super-heróis, a exemplo de Vingadores: Guerra Infinita (2018). Até musicais incorporam o épico em sua mise-en-scène, como no caso de Os Miseráveis (2012).

Experimentamos no cinema recente uma fase muito rica em filmes épicos, entregando pérolas do escalão de Gladiador e O Senhor dos Anéis. O épico nunca vai deixar de existir. Ele ressoa até hoje nos gêneros aventura e fantasia. E considerando os movimentos cíclicos em Hollywood, ainda há uma esperança de um dia chegarmos a ver um épico raiz.

Confira também

Unicórnios: onde começou essa moda?

Os Unicórnios dominaram tudo, deixando para trás os flamingos e os abacaxis. Hoje em dia ...

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *