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Cinema e afeto: O que assistimos muda nossa vida?

Cinema e afeto: O que assistimos muda nossa vida?

Nina dança pelo palco, ela está nervosa. Seus ligeiros pés mostram com maestria os passos que lutou para realizar perfeitamente: rodopia, é levantada, salta, movimenta-se. É o centro das atenções. Sacrificou sua sanidade mental para se tornar o cisne perfeito. Em seus olhos, angustia e agonia.

A música “Perfection”, de Clint Mansell, potencializa a tensão, que além de ser de Nina, também é nossa. Ela faz de tudo para manter seu papel. Do alto, vê o orgulho que tanto almejou nos olhos de sua mãe. Ela pula. Ela foi perfeita. Ela se tornou o cisne, física e mentalmente, e isso lhe custou a vida. Assim como seu personagem, encontrou a liberdade em seu último suspiro.

Cisne Negro - Cinema e afeto: O que assistimos muda nossa vida
Cisne Negro – Cinema e afeto: O que assistimos muda nossa vida

A cena descrita acima foi retirada do filme Cisne Negro, do diretor Darren Aronofsky. É, sem dúvida, uma das sequências mais marcantes do cinema. Ela faz uso de diversos elementos para transmitir tudo aquilo que a personagem de Natalie Portman está sentindo ao dar o melhor de si para manter seu papel, depois da entrega mental e corporal que enfrenta ao longo da narrativa em busca da perfeição.

Quais elementos visuais afetam?

É certo que o cinema tem o poder de despertar certos sentimentos e sensações, e isso não acontece por acaso. Desde os primórdios as produções já geravam efeitos emocionais e despertavam curiosidade em seus espectadores.

Com o desenvolvimento tecnológico, surgiu a necessidade de novos métodos de produção de histórias. Hoje temos a possibilidade de combinar elementos visuais e auditivos, para estimular sensações com maior facilidade.

Ao planejar seus trabalhos cinematográficos, sejam eles para puro entretenimento ou aqueles que buscam ser mais instigantes e desafiadores, os produtores de um filme pretendem transmitir algo através daquilo que estão apresentando ao receptor.

Para isso, utilizam de estruturas especificas na construção de sua narrativa. Entre elas, o enquadramento, que é um dos elementos de maior importância. A partir dele, o diretor determina o que faz parte ou não da história, o que merece ou não atenção – nada é mostrado por acaso.

Hoje temos a possibilidade de combinar elementos visuais e auditivos, para estimular sensações com maior facilidade.

A criação e apresentação dos personagens também são importantes nesse processo. É necessário que tenham a capacidade de provocar emoções, que sejam marcantes e com um propósito claro. A personalidade, movimentos, diálogos e roupas auxiliam nessa construção.

Além disso, a direção de fotografia e de arte, iluminação, escolha de cores, valorização do espaço físico e suas simbologias, som, trilha sonora, montagem e efeitos visuais também estão entre as estruturas que auxiliam a incitar essas emoções. Cores frias costumam passar a sensação de tristeza, por exemplo. Já uma música, pode ser escolhida com a intenção de causar euforia.  

 Cisne Negro - Cinema e afeto: O que assistimos muda nossa vida
Cisne Negro – Cinema e afeto: O que assistimos muda nossa vida

Relação do cinema com a psicologia do afeto

Apesar desse planejamento, as narrativas podem ser percebidas de formas diferentes por cada pessoa. De acordo com o modelo de terapia cognitivo-comportamental, que considera a interpretação dos acontecimentos como o fator mais importante, e não o acontecimento em si, isso acontece porque ao longo da nossa vida nós criamos o que a psicologia define como esquemas, que são estruturas cognitivas que impõem um padrão de percepção da realidade, como se fossem filtros mentais.

Com o passar do tempo, essas memórias passam a servir como um filtro e selecionar o tipo de informação ao qual iremos dar atenção, ou ignorar.

Conforme o ser humano estabelece certas interações e vivencia determinadas situações, essas estruturam codificam e interpretam esses acontecimentos de modo a criar uma rede de memórias.

Cada rede de memórias apresenta conteúdos cognitivos conceituais, que seriam uma espécie de associação, como de uma pessoa à uma comida, por exemplo: uma macarronada que te lembra todos aqueles finais de semana na casa da avó.

Além disso, elas também guardam um conjunto de associações emocionais e afetivas, como sentimentos relacionados ao momento em você comeu aquele alimento com determinada pessoa.

Com o passar do tempo, essas memórias passam a servir como um filtro e selecionar o tipo de informação ao qual iremos dar atenção, ou ignorar.

Divertidamente - Cinema e afeto: O que assistimos muda nossa vida
Divertidamente – Cinema e afeto: O que assistimos muda nossa vida

Como Divertidamente entende e usa essa ideia?

Essa teoria é muito bem aplicada no cinema, e pode ajudar a compreender de uma forma mais simples. Pete Docter apresentou, em 2015, a animação Divertida Mente, que conta a história de Ellie. A percepção apresentada pelo autor mostra a complexidade da relação entre sentimentos e memórias.

Ao desenrolar da história, descobrimos que cada personagem apresentado no filme tem um painel de controle, onde os sentimentos de alegria, tristeza, medo, raiva e nojo são personificados, cada um com sua devida cor. Sempre que um sentimento assume o painel de controle, cria ações relacionadas a ele. 

A narrativa segue a vida de Ellie enquanto suas ações cotidianas são controladas pelos sentimentos. A cada momento se criam novas memórias, que no filme são exemplificadas por bolas, sempre relacionadas ao sentimento que a controlou ao viver aquilo.

Se ao jogar hóquei a alegria tomou conta, essa memória será feliz. Ou, por exemplo, quando sua família decide se mudar de cidade e a tristeza toma conta, todas as memórias associadas à sua nova casa são tristes.

As redes de memórias são exemplificadas por grandes torres, cheias de memorias coloridas, que conforme o tempo vai passando se tornam obsoletas ou mais importantes. A cada novo momento, essa relação entre memórias e sentimentos moldam como Ellie observa o mundo ao seu redor. 

Isso significa que se Ellie fosse assistir a um filme, usaria todo o seu arsenal de memórias para compreender e se conectar. Portanto, o importante deixou de ser a obra em si, mas a leitura que é feita dela. Um filme que mudaria a vida de Ellie provavelmente não teria o mesmo efeito em outra pessoa.

Ao assistir um determinado filme, uns podem se emocionar e avaliar aquela produção como sendo de grande qualidade. Outros, ao ver o mesmo filme, podem ter uma visão totalmente diferente, e achar péssimo. Isso acontece porque cada individuo tem redes de memória diferentes, e cada uma delas têm seus elementos ativadores particulares.

Portanto, o realizador de um filme pode esperar que os receptores manifestem determinadas emoções e recebam uma mensagem específica, mas isso também depende da interpretação pessoal e contextos no qual o indivíduo está inserido.

Professora de psicologia na Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, Aline Henrique Reis destaca que o que importa é a perspectiva, e não o evento em si.  

“Eu, Aline, ao assistir um filme, vou atribuir um significado especial àquele conteúdo conforme as minhas expectativas, o meu estado emocional e os esquemas que eu já tenho previamente formados. E aí ele vai me ativar de uma maneira específica que não necessariamente vai acontecer com você”.

Ela também conta que essa ativação depende de quão explicito é o conteúdo do filme. Algumas obras são mais furtivas, sutis na mensagem que pretendem transmitir, e exigem maior interpretação, enquanto outras são mais diretas.

“Se eu quero passar uma mensagem política, cultural, emocional, enfim, o quanto as pessoas têm o conhecimento prévio pra captar a mensagem e não entender o filme só como uma narrativa de entretenimento?”

 Curtindo a Vida Adoidado - Cinema e afeto: O que assistimos muda nossa vida
Curtindo a Vida Adoidado – Cinema e afeto: O que assistimos muda nossa vida

Mas enfim, o cinema pode afetar diretamente a vida de uma pessoa?

 Depois de analisar as ferramentas do cinema, e toda sua história de construção, é inegável que sim. A questão está na intensidade e forma com que isso acontece, e não existe resposta simples para como isso se manifesta.

A forma e intensidade com que o filme nos afeta está diretamente ligado as redes e conexões de memórias afetivas que temos

 “O cinema é muito usado em terapias, no que chamamos de psico-educação” admite a professora Aline. Neste tipo de terapia o cinema age por meio de “Role Models”, personagens que podem ser analisados e levam o paciente a uma reflexão.

Funciona como se pudéssemos falar através dele, projetando nossos sentimentos e emoções. O tratamento é efetivo, mas para a professora, o tipo de consumo que temos ao assistir um filme em casa é completamente diferente, não tem como ter controle ou medir a potencialidade.

A forma e intensidade com que o filme nos afeta está diretamente ligado as redes e conexões de memórias afetivas que temos. João Costa, jornalista e organizador do projeto Cine Café em Campo Grande, cita “Curtindo a vida adoidado “como um dos filmes que o marcou.

Ele tinha faltado aula naquele dia, e quando ligou a Sessão da Tarde viu justamente a história de um cara que enganou os pais pra não ir na aula e passar um dia divertido. Por um momento ele era o próprio Ferris Bueller. A identificação é instantânea, e nem sempre, como nesse caso, é racionalizada e identificada facilmente.

Porém, ela é a chave para entender a profundidade com que um filme pode nos afetar. Ao nos identificarmos, passamos a questionar a realidade apresentada na trama e compara-la com a nossa realidade.

“Eu não sei se um filme é capaz de mudar o curso de uma pessoa, o destino de uma pessoa, a não ser que ela deseje se expressar, em termos de cinema, na mesma formula do filme, na mesma formula que o filme propôs a se expressar”.

Para João, talvez um filme não mude o destino de alguém, mas certamente fica inscrito na história do sujeito de alguma forma. “O que é certo é que todo filme nos afeta, e a forma como esse filme nos afeta determina uma série de outras questões.”

Mudar vida de alguém a partir de um produto cultural é muito ambicioso, os casos são raros. Porém, cada filme consumido passa a ser parte de nós, aumenta o nosso arcabouço cultural. Ou seja, quanto maior o arcabouça, mais compreensão, diálogos e possibilidades.

Os filmes têm esse glamour de projetar para uma realidade. Funcionam como uma maquina de sonhos acordado, que coloca o espectador no mesmo palco que os personagens. Fazem pensar e questionar. Mas o quanto um filme nos afeta depende do modo, tempo, ambiente e sentimento em que o consumimos.

Talvez, se “Curtindo a vida adoidado” for assistido em uma sala de aula, traz consigo um sentimento de revolta nos alunos por estarem sentados ali. Ou se “Brilho eterno de uma mente sem lembranças” for visto na tela de um celular por pessoa que nunca esteve em um relacionamento, o filme não tenha efeito reflexivo algum. Tudo depende da nossa rede de conexões.

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Por Guilherme Carrara – Fala! Cásper
E Gabriela Dalago – Fala! UFMS

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