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Cinema brasileiro: processo de distribuição

Cinema brasileiro: processo de distribuição


Das pornochanchadas ao filme  “Tropa de Elite 2” (2010), longa de maior bilheteria nacional até hoje, as formas de consumir cinema no Brasil transformaram-se radicalmente ao longo do tempo. A popularização dos shoppings centers fez com que as salas de cinemas das grandes metrópoles brasileiras se tornassem praticamente obsoletas, desconfigurando as chamadas “Cinelândias”.

Atualmente, apesar de alguns ainda resistirem com a exibição de filmes pornográficos, a grande maioria dos cinemas da Belle Époque Brasileira estão desativados e/ou abandonados. Outros poucos locais foram reformados e incorporados a grandes franquias, como é o caso do PlayArte Marabá, modernizado e readaptado para a Avenida Ipiranga (SP) do século XXI e do Cine Odeon, o único que ainda funciona na Praça Floriano (RJ).

A produção é frequente, mas é na distribuição que está o real problema. O cinema, cada vez mais elitizado, possui 89% dos filmes exibidos em shopping centers.

Apesar de o filme ser um meio de comunicação de massa, ir ao cinema passou a ser considerado um programa de elite. “Era uma coisa muito barata durante o século XX (até os anos 50 seria em torno de um real, hoje). A partir da década de 60, o público e o número das salas começaram a cair, principalmente no Centro de São Paulo, e os preços a subir, mas foi na segunda metade dos anos 80 que dispararam, por conta de inflação.

Algumas salas fecharam, outras menores inauguraram e outras migraram para diferentes espaços da cidade. Isso tudo está atrelado às estratégias que estão sendo adotadas pelas produtoras”, explicou o produtor cinematográfico Felipe Abramovictz.

Do que vivem as grandes produtoras de cinema

O processo de execução de um filme é árduo. Depois de oferecer uma ideia às produtoras, é necessário que o projeto seja aprovado, ganhando assim credibilidade para tentar conquistar determinada distribuidora. Esta, por sua vez, analisará as potencialidades da obra para chegar às salas de cinema e a possível margem de lucro. Fechado o negócio, começa a disputa por uma fatia dos editais de incentivo para os custear a operação.

Como o processo de distribuição influencia o cinema brasileiro.
Como o processo de distribuição influencia o cinema brasileiro.

A Agência Nacional de Cinema (ANCINE), é a grande responsável por fomentar os projetos cinematográficos. Entre produtores, distribuidores e pessoas do meio existem polêmicas acerca dos critérios de distribuição de verba, que acabam frequentemente concentrando o Fundo Setorial do Audiovisual nas duas maiores distribuidoras do país, gerando uma forma de monopólio e não levando em conta as empresas independentes, que correspondem à metade dos lançamentos no Brasil.

Silvia Cruz, fundadora da produtora Vitrine Filmes que tem o objetivo de divulgar o cinema autoral brasileiro e é hoje uma das maiores produtoras independentes do Brasil, acredita que pelo fato de a ANCINE lidar com um fundo de investimento (e não com um patrocínio) e com a ideia de que o dinheiro investido precisa ter um retorno, os filmes comerciais são mais valorizados e por isso as grandes empresas acabam sendo uma opção mais atrativa.

“O cinema comercial não é um inimigo e também precisa existir para que a indústria se mantenha aquecida, entretanto ele não deve ser priorizado”, explicou. Ela acredita que dar prioridade para certas produtoras também pode ser prejudicial.

“Essas empresas acabam detendo grande parte do mercado e como todo monopólio, ele pode ser prejudicial para a indústria, para as outras empresas, para os concorrente, para o mercado… porque ele dita as regras, e nesse momento, porque exerce a sua capacidade máxima, até mais do que isso, então alguns filmes saem prejudicados porque outros já vem na sequência”, explica.

E ainda assim, o Brasil é um dos países da América Latina com maior incentivo para o cinema nacional. “Em qualquer parte do mundo os filmes americanos chegam com muito mais força, fazendo com que superproduções de ação ou super-heróis, por exemplo, sejam privilegiados por muita gente”, aponta Silvia.

Como o processo de distribuição influencia o cinema brasileiro.
Como o processo de distribuição influencia o cinema brasileiro.

O Latim American Institute Film (LaFilm) é conhecido por seu curso de formação de cineastas, suas produções de longas metragens como “Alguém Qualquer”, “Jogo do Copo” e sua participação na produção de “Tropa de Elite 2”. Luciana Stipp, produtora, diretora e atriz do instituto, diz que há dificuldades em fazer um longa ser um filme bem sucedido e que poucos emplacam de forma marcante no Brasil.

“Quando alguma produtora diz que tem filmes parecidos com “Tropa de Elite” ou “Cidade de Deus”, até pega mal porque isso é como se comparar a um pico fora da curva”, aponta. Para a produtora, obra precisa de dinheiro para atingir um grande público.

Como sobrevivem as pequenas

Uma das alternativas utilizadas pelas produtoras menores, como a LaFilm, é vender seus filmes diretamente para canais de televisão fechados, pois para levá-los para o cinema é preciso pagar antecipadamente a uma distribuidora e no caso dos canais fechados, basta ter contato com um agente, que só cobra – um valor que chega no máximo a 30% da venda para uma distribuidora – após o contrato ser fechado com o canal.

A realidade é que de qualquer forma a produtora não possui uma boa margem de rentabilidade “Pensando no lucro, o gasto é menor quando vendemos diretamente para o canal mas, por outro lado, quando o filme não passa pelo cinema o preço da venda é inferior independente de ser inédito ou não”, afirma Luciana.  

As obras da produtora já passaram por muitos canais da televisão como FOX, Warner Bros. Pictures, TNT, MTV, Canal Brasil, AXN. Além disso, no cinema já passaram pelo Espaço Itaú de Cinema, Cine Joia e Centro Cultural de SP. “Nós vendemos quase todos os filmes para canais, porque dessa forma abrem-se portas para a produção sair como lançamento”, explica.

Incentivo concentrado

Uma possível saída para esse impasse seria um investimento governamental para incentivar as pequenas produtoras, porém esse sistema está caminhando na contramão dessa ideia. Recentemente a ANCINE divulgou as novas redistribuições de verbas, que beneficiam grandes produtoras e não incentivam as empresas independentes.

Para Luciana, trata-se apenas de um edital contendo o que já era posto em prática. “Isso sempre aconteceu mas agora ficou mais claro. Se formos analisar em editais e leis as grandes produtoras conseguem muito e as pequenas nem tanto, não por falta de qualidade e sim de contatos renomados”, denuncia. Ela afirma que essa iniciativa da ANCINE coloca tudo às claras.

“Por um lado, isso é bom para que não haja mais enganação, mas por outro, é ruim pela falta de verba e pela impossibilidade de produção das empresas pequenas”, reclama. Segundo a diretora, a LaFilm nunca trabalhou com leis de incentivo ou editais. Todos os filmes ali produzidos são literalmente independentes.

“Mexemos com o dinheiro de apoiadores e empresas privadas sem nenhuma isenção fiscal”. Ela completa reafirmando sua posição sobre o impacto da redistribuição da Ancine: “é claro que isso é ruim, porque tem gente querendo começar a trabalhar e utilizar as leis e as novas redistribuições dificultam para que consigam o dinheiro.

Como o processo de distribuição influencia o cinema brasileiro.
Como o processo de distribuição influencia o cinema brasileiro.

Com esse modelo atual, as pequenas produtoras geralmente recorrem aos investimentos em outros setores, como a publicidade ou a relação de festivais. Nesse processo, o problema real deixa de ser as distribuidoras em si, mas sim esse modelo concentrado de negócio. “O mercado de filmes também é muito estreito, é uma disputa de poder e de interesses, o papel do governo é garantir que os recursos sejam distribuídos de forma igualitária, o que nem sempre acontece”, afirma Abramovictz.

Assim, apesar das medidas tomadas pelo Estado, os incentivos ainda funcionam como uma forma de renúncia fiscal das empresas, o cinema é entendido como um produto no qual as companhias terão seus nomes atrelados. Essas leis de incentivo do Estado pertencem a um projeto de curto prazo, dependendo diretamente das decisões do governo, que pode cortar os fomentos e estímulos a qualquer momento.

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Por Bárbara Moura, Clara Serranoni, Giovanna Favero, Isabelle Araújo e Karolina Pestrin – Fala! Cásper

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