Cidades brasileiras e impactos na construção da identidade nacional
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Cidades brasileiras e impactos na construção da identidade nacional

Cidades brasileiras e impactos na construção da identidade nacional

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História é uma construção de narrativas e, sem dúvida, todo lugar tem sua narrativa construída, por menor que ela seja. Sendo assim, seria injusto julgar o grau de importância histórica das cidades brasileiras e pô-las num ranking, como se fosse possível comparar a importância intrínseca dessas narrativas. Qualquer cidade possui sua relevância histórica na medida em que contribui para a identidade de seus habitantes, compondo o mosaico que chamamos Brasil. 

Dito isso, uma lista das 5 maiores cidades brasileiras precisa se justificar por aspectos definidos, que legitimem o elenco e não caiam numa arrogância geográfica das grandes metrópoles. Por isso, proponho um roteiro, uma temática guia, que, ao mesmo tempo, servirá de guia cronológico e justificativa para que as cidades mencionadas ali estejam.

Nesse roteiro, a inserção das cinco cidades seguem a seguinte premissa maior: que cidades tiveram experiências locais que impactaram a construção da identidade nacional nos século XIX? Em outras palavras: se o “ser brasileiro” é efeito de uma comunidade imaginada e construída, que cidades seriam importantes nessa construção?

Cidades que construíram a identidade nacional

Recife

Durante o século XVII , ainda que a sede do governo fosse Salvador, a joia da coroa estava em Pernambuco. O litoral do estado era o local onde mais se produzia açúcar no mundo, e Recife, por ser a capital, atraía atenções de vários Estados europeus , incluindo a Holanda, que invadiu a cidade em 1630.

A importância de Recife está não só pelo patrimônio histórico deixado pelos holandeses, como por exemplo, a primeira sinagoga do Brasil (Kahal Zur Israel) e a atração dos mais variados artistas, mas também na mitologia de construção nacional na expulsão dos holandeses. O episódio conhecido como batalha dos Guararapes, que até hoje é data magna do exército brasileiro. Todos esses fatores mostram que nossa formação de identidade tem forte relação com esse período e com essa cidade.

Primeira sinagoga do Brasil
Primeira sinagoga do Brasil. | Foto: Reprodução.

Rio de Janeiro

A segunda escala do texto também poderia ser a última, pois, dentro do recorte analítico sugerido na introdução, o Rio de Janeiro pode ser considerada a cidade histórica mais importante do país. Sede administrativa da colônia desde 1763.

A partir de 1808, com a chegada da família real, a cidade torna-se sede administrativa de todo império português, e o RJ manteria sua posição de centro administrativo na república até 1960. Então, falamos aí de praticamente 200 anos sendo o centro político-administrativo do país, ou seja, em  períodos que o Brasil sofreu grandes mudanças e transformações, O RJ estava em foco.

Destaca-se a importância na construção de nacionalidade durante o império, especialmente no Segundo Reinado, com a construção, por exemplo, do IHGB. A questão cultural é evidente com os diversos prédios históricos e museus, como Paço Imperial, Biblioteca Nacional, Teatro Municipal, Palácio do Catete. 

Alerj
Vista do alto da praça XV com Alerj no centro e paço imperial à esquerda. | Foto: Reprodução.

Ouro Preto

Para a próxima cidade, vamos continuar no Sudeste e viajar para o século XVIII. Ouro Preto, à época ainda chamada de Vila Rica, era a capital de Minas Gerais e uma das cidades mais atraentes no período chamado de Ciclo do Ouro.

O crescimento foi substancial, o que fomentou não só o movimento de interiorização, mas também a construção de uma sociedade colonial de costumes urbanos, como os de ir ao teatro e aos cinemas.

O traço artístico de Ouro Preto é muito marcante também, o desenvolvimento de uma expressão artística verdadeiramente brasileira, combinando as influências europeias do rococó com o barroco. Antonio Francisco Lisboa, o Aleijadinho, é considerado o maior produtor de arte barroca do Brasil e tem a maior parte de suas obras expostas nas cidades, especialmente em igrejas.

Em 1980, o centro histórico de Ouro Preto recebeu o título de Patrimônio Cultural da Humanidade, sendo a primeira cidade brasileira a ter esse título concedido. 

Altar da Igreja Sao Francisco de Assis
Altar da Igreja São Francisco de Assis. | Foto: Reprodução.

Belém

Agora, subindo mais de 2,5 mil quilômetros chegamos à Belém. Destaca-se o fato de estar situado no Norte do país, além de ser um dos estados que fazem parte da chamada Amazônia Legal, que tem o intuito de planejar o desenvolvimento social e econômico das regiões que abrangem a floresta.

Além de ser um dos maiores patrimônios naturais do mundo, é um símbolo de identidade nacional também. Belém já foi a cidade mais visada no Brasil na época da borracha e teve um forte desenvolvimento arquitetônico nesse período colonial, preservado até os dias de hoje.

Os costumes são muito ricos e diversificados, especialmente na gastronomia, o famoso Mercado Ver-o-Peso atrai muitos turistas e estimula o dinamismo da capital.

Mercado Ver-o-Peso
Mercado Ver-o-Peso. | Foto: Reprodução.

São Paulo

De volta ao Sudeste. São Paulo – a capital econômica do país. Fazendo o recuo histórico, é inevitável mencionar talvez o principal produto agrícola da história do país. Curiosamente, teve seus primeiros cultivos em Belém, para depois chegar ao Sudeste (RJ e SP). O café se consolidou como base da economia do país desde meados do século XIX até a primeira metade do XX, e São Paulo foi a cidade que mais atuou e sofreu transformações no que se refere aos fatores da economia cafeeira. Com o intuito de escoar o produto, construiu-se a primeira ferrovia da cidade e a segunda do país, inaugurada em 1867.

O dinamismo e as riquezas que fluem no estado foram motivos para a atração de mais de 4 milhões de imigrantes num período relativamente curto de tempo, finais do século XIX e início do XX, vindos majoritariamente da Europa. Na economia atual, São Paulo possui o maior PIB do Brasil e especialistas dizem que, em 10 anos, a projeção é ficar entre os 5 maiores PIBs do Mundo.

Ferrovia São Paulo Railway
Ferrovia São Paulo Railway (SPR). | Foto: Reprodução.

Construir narrativas é algo essencial quando se visita algum lugar, entender sua origem estudar a cultura é de alguma maneira identificar-se com seu povo, tornando aquele passeio mais vibrante e especial. Esse é apenas um roteiro dentre os milhares possíveis pelas cidades do nosso país, mas certamente é um percurso que todo historiador gostaria de fazer.

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Por Pedro Tavares – Fala! UFRJ

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