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Caso de Racismo no Mackenzie Provoca Manifestação de Alunos

Caso de Racismo no Mackenzie Provoca Manifestação de Alunos

Na última quinta-feira (17), estudantes do campus Higienópolis da Universidade Presbiteriana Mackenzie, encontraram no prédio de Ciências Sociais e Aplicadas a seguinte mensagem: “fora PT e devolvam os negros para a senzala” – escrita a caneta, em uma das portas do banheiro do prédio.

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Não é a primeira vez que a universidade encontra mensagens do tipo dentro do campus, como em agosto do ano passado em que encontraram a mensagem:

“O Mack não deveria aceitar negros e nem nordestinos”.

Em outubro do mesmo ano, também foi encontrado a seguinte frase: “Lugar de negro não é no Mackenzie, é no presídio”, escrita nas paredes do banheiro do prédio 3, do curso de Direito.

A universidade sempre teve certa “má fama” nesse sentido, desde a época da ditadura militar, como no famoso Conflito da Rua Maria Antônia, em que alguns estudantes do Mackenzie, que representavam a direita conservadora e defensora do regime militar, entraram em confronto com os alunos da FFLCH-USP, manifestantes da esquerda. O conservadorismo é algo que está entre as paredes do campus desde a sua criação, instaurando uma aura constante de superioridade seletiva – dos homens cis, héteros e brancos. O que alguns alunos não sabem, é que existem grupos de resistência dos mais diversos tipos dentro da universidade, lutando por seus direitos e exigindo mudanças – inclusive na época da ditadura, que também contava com Mackenzistas da esquerda, mesmo que fossem minoria.

O grupo do recente episódio, contra as mensagens racistas encontradas recentemente na faculdade, é o AfroMack.

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Foto: Michelli Oliveira.

 

De um dia para o outro, após serem encontradas as recentes mensagens racistas, o grupo que reúne negros e negras de diversos cursos organizou uma manifestação para combater o preconceito. Um grupo de negros e brancos apoiadores da causa, se reuniu na portaria principal da universidade por volta das 10h, escrevendo cartazes com frases fortes e colando adesivos de apoio a diversas causas. Perto das 11h, os líderes puxaram o movimento para uma passeata, fazendo um percurso que passou por grande parte dos locais do campus enquanto exclamavam bordões de luta ao racismo na faculdade como “Ei racista, preto também é Mackenzista” e “Vai ter cotas sim”.

Em alguns momentos, o grupo até fechou a Rua da Consolação, uma rua de grande movimentação e principal entrada do campus, além da famosa Rua Maria Antônia.

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Foto: Michelli Oliveira.

 

No Facebook do grupo AfroMack, foi compartilhada uma nota de repúdio em resposta à terceira mensagem racista encontrada no campus da instituição, incluindo uma carta enviada para o reitor da universidade explicando sobre o ocorrido. Leia a nota abaixo:

Nota de Repúdio a Terceira Mensagem Racista dentro da Universidade:

O Coletivo de Negras e Negros da Universidade Presbiteriana Mackenzie vem por meio deste manifestar seu total repúdio ao TERCEIRO Discurso de Ódio direcionado aos alunos e alunas negras dessa Instituição. Reiteramos pela terceira vez, o peticionamento de ações concretas da Direção dessa Universidade para o combate aos Atos Racistas que ocorrem. Segue abaixo a nossa primeira Carta direcionada ao senhor Reitor.

São Paulo, 09 de Outubro de 2015.

Ao Exmo. Reitor da Universidade Presbiteriana Prof. Dr. Benedito Guimarães Aguiar Neto

Os integrantes do Coletivo Negro da Universidade Presbiteriana Mackenzie veem por meio dessa nota manifestar sua indignação ao ato de cunho racista assistido no dia 6 de outubro de 2015.

Em sua própria discrição histórica, o Instituto Presbiteriano faz alusão da premissa de ter sido uma das pioneiras na recepção de alunas e alunos de origem negra dentre seus discentes, contudo o que se observa nos dias atuais é que apesar dessa premissa o espaço universitário ainda abarca um forte sentimento excludente étnico-social.

Mais precisamente no dia 6 de outubro do presente ano, um aluno que utilizava uns dos banheiros do prédio 3, que abriga os últimos níveis de graduação do curso de Direito, se deparou com os seguintes dizeres em uma parede “ Lugar de negro não é no Mackenzie, é no presídio”. Sendo esse o segundo ato racista em menos de dois meses, visto que o primeiro desse formato ocorreu em agosto em um banheiro de um complexo de restaurante intensamente frequentado por mackenzistas.

Em uma sociedade onde a população negra encabeça estatísticas alarmantes como que 77% dos 30.000 dos jovens assassinados por ano Brasil, são negros (fonte: anistia internacional), a mulher negra é a mais atingida pelo desemprego (12%), e a renda dos negros é 40% inferior que a das pessoas de fenótipo brancos (fonte: revista exame) e em São Paulo onde ocorreu o fato, a maioria (38%) da população de moradores de rua é negra (fonte: Censo/SP), entende-se que as palavras descritas em banheiros nada mais é que um reflexo do pensamento elitista e opressor da sociedade.

Dentro da nossa Universidade encontramos inúmeros casos de discursos racistas, violência verbal e até coação de pessoas por causa da cor de sua pele. Esses fatores acabam por limitar a presença das negras e negras nos espaços que deveriam ser ocupados por todos dentro do campus, sejam esses espaços discentes, docentes ou mesmo empregatícios.

Tendo como foco essa questão podemos pontuar a parca presença de pessoas de origem afrodescendente nessa instituição, mesmo que estejam dignamente trabalhando em serviços terceirizados, os quais infelizmente são, em sua maioria, serviços de limpeza, construção civil ou segurança. Não estamos aqui desprivilegiando essa classe trabalhadora, pelo contrário, a Ela prestamos todo o nosso respeito e agradecimento. Entretanto, não podemos deixar velado o fato do Corpo Docente da Universidade praticamente não possuir professoras ou professores de origem negra, em quaisquer dos cursos oferecidos, o que evidencia a pouca representatividade das negras e negros no corpo docente e administrativo da universidade.

Com a Lei 12.288 de 2010, o Estado passou a protelar a população negra a garantia da efetivação de igualdade de oportunidades, a defesa dos direitos étnicos individuais, coletivos e difusos, o combate à discriminação e às demais formas de intolerância étnica, o mecanismo mais utilizado para esse fim foi à criação das Ações Afirmativas.

De acordo com o Ministério da Educação, no ano de 2013 a porcentagem de cotistas negros nas universidades chegou a 17,25%, sendo que em 2014 obteve um aumentou que chegou a 21,51%, mesmo com o crescente dado quantitativo, observamos que esse não se configura em uma mudança na mentalidade cultural da sociedade.

Os dados descritos acima se tornam notórios para evidenciar a busca de reparação da exclusão e dos abusos direcionados à um grupo étnico específico. Porém, a entrada de pessoas negras em espaços universitários não se traduziu em mudanças nas estruturas sociais, culturais e principalmente nas relações de poder. Podemos pontuar que as ações afirmativas são apreendidas por uma parte da sociedade como algo a ser temido ou mesmo criticado de forma pejorativa. Visto que, a inclusão de pessoas historicamente excluídas nos campos do conhecimento abre margem para a conscientização dos indivíduos como sujeitos de direito, não que esses tenham por si escolhido um “lado”, pelo contrário, a sociedade escolheu previamente antes de seu nascimento.

Assim compreendemos que o ato racista ocorrido dentro do campus de Higienópolis da Universidade Presbiteriana Mackenzie deve ser ferozmente combatido por todas as esferas que compõem a estrutura acadêmica. E nós como Coletivo Afromack, formado por alunas e alunos afrodescendentes de cursos distintos dessa instituição, não ficaremos passivos e omissos frente a qualquer demonstração publica ou velada de opressão ligada ao nosso fenótipo ancestral.

Dessa maneira exigimos que a Reitoria da Universidade Presbiteriana Mackenzie e o Instituto Presbiteriano se posicionem contra esses fatos e tomem atitudes concretas para que o racismo que existe dentro do campus seja combatido. Seja com o posicionamento em repúdio ao racismo estrutural e institucional, seja contratando mais professoras negras e professores negros, com debates acerca do racismo, com cotas raciais no vestibular e principalmente com a responsabilização administrativa e interna de pessoas que propagam o pensamento racista na universidade, seja no corpo discente, docente ou administrativo.

Na posição de alunas e alunos afrodescendentes regularmente matriculados na Universidade Presbiteriana Mackenzie, o Coletivo AFROMACK, solicita uma reunião com o Emxo. Senhor Reitor com a finalidade de debatermos as questões descritas ao longo do texto, pois acreditamos que o debate ideológico possui o poder de construir as bases para uma sociedade justa e igualitária.

Atenciosamente,

COLETIVO DE NEGRAS E NEGROS – AFROMACK.

Confira mais fotos:

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Foto: Michelli Oliveira.

 

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Foto: Michelli Oliveira.

 

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Foto: Michelli Oliveira.

 

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Foto: Michelli Oliveira.

 

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Foto: Michelli Oliveira.

 

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Foto: Michelli Oliveira.

 

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Foto: Michelli Oliveira.

 

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Foto: Michelli Oliveira.

 

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Foto: Michelli Oliveira.

 

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Foto: Michelli Oliveira.

 

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Foto: Michelli Oliveira.

 

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Foto: Michelli Oliveira.

 

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Foto: Michelli Oliveira.

 


Por: Carolina Ferreira Campos e Michelli Oliveira – Fala!M.A.C.K

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