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Cartunismo – Rindo na cara do perigo

Giovanna Stival – Fala! Cásper

Rindo na cara do perigo

A arte que faz da política uma história menos sem graça de se contar

A realidade retratada nas notícias dos jornais, muitas vezes brutal e cruel,  ganha cores diferentes com os traços precisos e sátiros dos cartunistas que ocupavam, costumeiramente, as últimas páginas das edições impressas. Muito anterior a essa forma artística de jornalismo, as charges tiveram importante papel na construção de uma política que, para não chorar, aprendeu a rir de si mesma.

Os desenhos de caráter cômico apareceram pela primeira vez na década de 1840 com a revista Punch, publicada uma vez por semana na Inglaterra. Na época, o parlamento inglês era decorado com murais, oportunidade perfeita para que críticas ao governo fossem feitas de forma sútil e artística. A imprensa brasileira, por outro lado, enfrentava um problema que estava no caminho das ideias abolicionistas e republicanas propostas por volta do mesmo período: a maioria da população era analfabeta, o que dificultava a participação política exigida para que mudanças no cenário nacional começassem a acontecer. As charges foram a saída encontrada para entreter a população e, ao mesmo tempo, popularizar questões relevantes para a construção do país – e desde então já ajudavam a compor os traços mais “zoeiros” do brasileiro.

Em 1837, anos após a independência do Brasil, a arte intitulada “A Campanha e o Sujo” circulava nas ruas do Rio de Janeiro por 160 réis, tendo a autoria atribuída a Manuel de Araújo Porto-Alegre, artista e diplomata brasileiro que, entre 1837 e 1839, depois de ter retornado de uma viagem à Europa, produziu uma série de litografias satíricas que eram vendidas de forma avulsa. A mais importante delas, e considerada a primeira charge brasileira, mostrava o jornalista Justiniano José da Rocha, ligado ao Correio Oficial – jornal que publicava as matérias oficias do período de regência-, de joelhos recebendo um saco de dinheiro de um funcionário do governo em forma de crítica ao papel subserviente de alguns setores da imprensa brasileira.

Com o passar do tempo, os desenhos foram se distanciando do excesso de informação e passaram a utilizar de uma linguagem simples e acessível capaz de atrair a atenção do leitor de forma eficaz para assuntos relevantes, sendo um poderoso instrumento de comunicação sócio-político na atualidade. Apesar da necessidade de estar ciente de certos assuntos para ter compreendimento total do que o desenho expressa, a característica mais marcante das charges está na capacidade de englobar sentimentos compartilhados por um grande número de pessoas em volta de uma alegoria que representa tudo aquilo que as notícias por si só não deram conta de mostrar.

É importante destacar, no entanto, que charge e cartuns não são exatamente a mesma coisa, apesar de serem usados com frequência como sinônimos. Cartoon é um termo britânico para definir desenhos cômicos que não estão necessariamente ligados a política ou ao dia a dia. Charge, por outro lado, é originada da língua francesa e significa carga ou ataque. Diferente das animações, as charges possuem o objetivo claro de causar reflexão sobre os acontecimentos do cotidiano.

Com a reprodução oferecida pela internet, muito dessa arte se desvinculou dos grandes veículos de comunicação e ocupou as timelines nos formatos mais diversos possíveis. Muitos cartunistas foram demitidos de grandes órgãos de imprensa nos últimos anos e um primo distante parece estar em vantagem no mundo digital. “Ao que me parece, a maior expressão do humor da atualidade é feita através dos memes, que estão substituindo o papel do cartoon tradicional na figuração do humor gráfico, com a vantagem de o meme poder ser criado, executado e publicado por qualquer pessoa que tenha ferramentas básicas de edição e que, não necessariamente, saiba desenhar. Não acho que o meme tenha substituído o cartoon, mas ocupou seu espaço com louvor”, afirma a cartunista curitibana Pryscila Vieira que em 2005, após o termino com um namorado machista, criou a personagem Amely, uma boneca inflável com aflições e sentimentos exatamente como uma mulher de verdade. A personagem esteve publicada diariamente no Metro Internacional entre 2007 e 2010, na Folha de São Paulo de 2010 a 2015 e no UOL Notícias.

A relação entre criadora e criatura vai muito além da inspiração, Pryscila está sempre “colhendo os lírios no pântano da vida e expondo na sala de estar num vaso reciclável bem brega” para levar o público para além do óbvio, além da primeira página. A Depryzinha, personagem criada em 2009 mas publicada pela primeira vez apenas em 2013, surgiu a partir de uma depressão enfrentada pela autora e apesar de conter alto teor autobiográfico, é de fácil identificação universal. No final das contas, estamos todos no mesmo saco enfrentando problemas muito parecidos, e por que não rir disso?

O cartunista das cavernas, Gilmar Machado, provoca reflexão e debate cutucando monstros com lápis curto, frase criada por ele para resumir seu trabalho. Entre suas obras, o artista já retratou Donald Trump, atual presidente dos Estados Unidos, como um cachorro raivoso, reconstruiu a capa icônica da revista Time de 2 de julho com o caso do garoto Marcos Vinícius da Silva, de 14 anos, baleado quando voltava da escola no Complexo da Maré e ilustrou as notícias de assédio na Copa do mundo com um desenho em que uma mulher está rodeada por sete torcedores com a camiseta do Brasil, fazendo relação com o placar contra a Alemanha em 2014.


Sobre as diferenças entre os impactos causados pelos desenhos e por outros formatos de comunicação, Gilmar disse: “a charge, diferente de crônicas ou de outros matérias simplesmente noticiosas, tem o poder de fazer ir além da interpretação. Você coloca sutilezas e provoca leituras diferenciadas com o trabalho gráfico. Além do enriquecimento da narrativa jornalística, existe uma função provocadora muito maior que leva em conta a construção de várias outras simbologias”. Ele ainda contou que a internet alterou as dinâmicas com que as pessoas interagem com suas criações e algumas delas chegaram até a ser alteradas para defender outro tipo de ideologia.

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