Home / Colunas / O carnaval como reflexo da crua realidade

O carnaval como reflexo da crua realidade

Por Thiago Dias – Fala! Anhembi

Subversão, cultos ao deus Dionísio, entrega aos desejos carnais, fantasias… O carnaval tem sua origem na Antiguidade, na Grécia, Roma e Mesopotâmia, como festas para a chegada da abundância devida ao fim do inverno. A história percorre pela resistência de um povo que é tomado pela moral cristã no século VIII com a criação da quaresma, quando a instituição católica percebeu que a festa pagã crescia desgovernadamente, e logo enquadrou a folia aos dias antes do sacrifício carnal.  A palavra carnaval vem do latim ‘carnis levale’ que significa retirar a carne.

Carnaval em Roma, Johannes Lingelbach.

Mas a festa resistiu e se resignificou no século XIV no período Renascentista na Itália, quando teatros de rua e os desfiles de carros decorados e da população fantasiada eram chamados de commedia dell’art. Em Portugal, a festa inspirada em Roma deu origem ao entrudo, em que máscaras esculpidas na madeira por camponeses eram usadas pelas pessoas nas ruas. A prática portuguesa chegou ao Brasil no século XVI, porém a folia era dos escravos, que saíam pelas ruas com os rostos pintados enquanto jogavam bolinhas de cheiro nas pessoas. A prática era considerada ofensiva e violenta pela elite.

Cena de Carnaval, Debret

E como é de praxe, o topo da pirâmide criminalizou a festa no século XIX, junto com  a força da imprensa carioca. Enquanto o entrudo era oprimido nas ruas, a elite criava bailes de máscaras em salões pomposos. A história carnavalesca brasileira está ligada intrinsecamente à resistência às regras dos donos do poder, a moral cristã, e a ressignificação.

 

Uma festa. Ou história da guerra entre a liberdade do oprimido e a censura do opressor? Seria o carnaval o espelho da vida?

2018, ano eleitoral, de copa, de carnaval! Sim, o samba gritou mais forte na Sapucaí e as escolas nos lembram porque o brasileiro ainda gosta de sambar.

Se Crivella queria abafar o carnaval carioca cortando as verbas para as escolas, proibindo o uso da Sapucaí para ensaios, cortando infraestrutura e fomentando o caos, mal sabia o querido prefeito que a resposta seria tão intensa quanto o seu enforcamento representado no carro da Mangueira como o judas carioca. “Com dinheiro ou sem dinheiro, eu brinco”, diz o samba da quinta colocada.

Lembra daquela escola que teve o carro alegórico queimado em ‘acidente’ um dia antes da competição? Não? Mas teve alguns mortos e 50 feridos… Bem, foi essa escola que mostrou o que é protesto de rua e como a verdade escancarada incomoda muito mais. “Não sou escravo de nenhum senhor”, diz o samba enredo da Paraíso do Tuiuti. Em seu desfile, a escola mostrou a ala do trabalho escravo rural e informal, além dos manifestantes de verde e amarelo vestidos de pato – chamados de manifestoches – manipulados por um vampiro neoliberalista que seria o presidente ilegítimo Michel Temer. E para finalizar, um navio negreiro com uma enorme carteira de trabalho ao fundo – fazendo uma crítica à reforma trabalhista.

“Meu Deus! Meu Deus!
Se eu chorar não leve a mal
Pela luz do candeeiro
Liberte o cativeiro social (Meu Deus)”
…ecoava o refrão pelos ares da Sapucaí.

 

Tuiuti não ganhou a medalha de ouro, ficou como vice. Porém, conseguiu silêncio constrangedor ao vivo na Globo, apoio nas redes sociais e principalmente uma grande censura: o presidente proibiu o vampiro neoliberal de usar a faixa da presidência no desfile dos campeões que foi ao ar no domingo. É praxe. Tuiuti marcou a história do carnaval carioca, expôs a verdade nua e crua com samba e alergia, folia nos pés e força.

 

“Os filhos abandonados da pátria que os pariu” foi a grande frase do enredo da campeã e queridinha escola Beija-Flor.

A inspiração veio do romance Frankenstein, de Mary Shelley. A Escola fez crítica a intolerância religiosa, racial e sexual presente no Brasil, teve carro representando o prédio da Petrobras, malas de dinheiro, crianças abandonadas, um policial morto e um rato gigante – que seriam os políticos brasileiros. Teve até Pablo Vittar como rainha.

“Sou eu
Espelho da lendária criatura
Um monstro
Carente de amor e de ternura
O alvo na mira do desprezo e da segregação
Do pai que renegou a criação
Refém da intolerância dessa gente
Retalhos do meu próprio criador
Julgado pela força da ambição
Sigo carregando a minha cruz
A procura de uma luz, a salvação!”

…dizia o refrão da campeã.

 

 Confira também:

– Fala! Entrevista – Thiago Romaro

– Quem é a nova geração da MPB? E onde estão as bandas de Rock brasileiras?

Confira também

São Paulo: 40 anos do Centro Acadêmico Vladimir Herzog

A Entidade mais antiga da Faculdade Cásper Líbero recorda seus 40 anos de existência O ...

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *