Boate Kiss: Universitários que deram suas vidas para salvar outras
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Boate Kiss: Universitários que deram suas vidas para salvar outras

Boate Kiss: Universitários que deram suas vidas para salvar outras

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Todo dia a mesma noite“. Essa é a sensação que pais, amigos e sobreviventes da tragédia da boate Kiss sentem quando lembram-se da fatídica madrugada de 27 de janeiro de 2013, que deixou 242 vítimas jovens, a maioria universitários de Santa Maria (RS) que estavam comemorando por terem se formado, iniciado o curso na faculdade e aniversários na chopada “Agromerados”, dos cursos de Agronomia, Medicina Veterinária, Pedagogia e Tecnologia de Alimentos da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). 

Porém, o número de mortos só não foi maior devido a 4 universitários corajosos, que ao desrespeitarem as ordens dos bombeiros que estavam trabalhando na linha de frente no incêndio, conseguiram salvar às cegas, 18 vidas que estavam por um triz naquele ambiente quente, tóxico e, aparentemente, sem saída.

Como nem todo herói usa capa, conheça, a seguir, o quarteto audacioso da boate Kiss:

Universitários que salvaram vidas da Boate Kiss

1) Vinícius Montardo Rosado

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Vinícius Montardo Rosado. | Foto: Reprodução.

O brincalhão de quase dois metros de altura que nunca ficava emburrado, segundo sua família e amigos, estava no último semestre de Educação Física na Faculdade Metodista de Santa Maria, quando decidiu ir a Kiss “bebemorar” com os amigos. Vinão, como era chamado, foi um dos primeiros universitários a sair da casa noturna em chamas, perdendo-se da galera com quem veio, pois o empurra-empurra entre os desesperados pela saída era grande. Assim que saiu, percebeu que seus amigos não estavam na calçada nem na rua, então decidiu voltar para tentar salvá-los. 

Com seu tamanho e força, conseguiu ir contra o fluxo do mar de gente dentro da boate, agora com as luzes apagadas e com o ar tóxico. Vinícius conseguiu um feito heroico: salvou 14 jovens, conscientes e inconscientes, que estavam no chão, porém suas vias respiratórias já estavam muito danificadas – queimadas – e não voltou mais. Ele tinha 26 anos quando deixou sua marca nessa tragédia.

2) Henrique Nemitz Martins 

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Henrique Nemitz Martins e os amigos. | Foto: Reprodução.

O quase futuro médico veterinário Rique, como alguns amigos chamavam, estava no penúltimo ano de Medicina Veterinária na Universidade Federal de Santa Maria, quando seus amigos (da foto) o convenceram a curtir uma noite especial na Kiss, já que a banda Gurizada Fandangueira era muito querida pelos universitários. Segundos antes de um dos integrantes da banda acender o sinalizador dentro de um ambiente fechado, o grupo de 7 amigos tinha se separado para flertar com as garotas e conseguir bebidas.

Levou 40 segundos para o revestimento inflamável da Kiss ser comprometido por completo e asfixiar/queimar tantos jovens que apenas queriam se divertir. Felizmente, Henrique conseguiu sair com vida, apesar da blusa rasgada pelas pessoas, que puxavam umas as outras para chegar à saída. Ficou aliviado e preocupado quando encontrou somente dois amigos do seu grupo e, então, combinou com eles de voltar à boate para tentar achar os demais. A sua coragem não foi em vão. Ele salvou duas pessoas desconhecidas, enquanto se despedia desse mundo, com 26 anos.

3) Rafael de Oliveira Dorneles

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Rafael de Oliveira Dorneles. | Foto: Reprodução.

Estudante de dia e DJ de noite, Rafael tinha uma vida bem corrida aos 31 anos. Estudava o último ano de Ciências da Computação e de Análise de Sistemas na Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos), enquanto trabalhava no seu plano B de vida: ser músico e reconhecido como DJ Farol. Ele estava de frente para o palco VIP, no fundo da boate Kiss, quando a correria começou. Assim como os demais, Dorneles não achava que o acidente tomaria proporções tão drásticas em poucos segundos e, então, esperou a situação se acalmar, pois as pessoas estavam caindo e derrubando umas as outras sem parar. Quem estava bêbado ou de salto alto, infelizmente ficou para trás.

O DJ Farol estava pronto para sair da muvuca, quando avistou uma jovem sendo prensada contra uma armação de metal pela massa de gente, e a protegeu com força contra a multidão que se desesperava cada vez mais, já que chuva de fogo caía do teto da Kiss direto neles e a visão começava a ser afetada pela fumaça preta. Ou seja, além de ter mais pessoas do que a capacidade máxima do lugar permitia, existia inúmeros obstáculos durante o árduo caminho para desviarem sem enxergar direito. Assim que ele conseguiu salvar a jovem de ser pisoteada ao longo do trajeto, Rafael voltou para a boate com fé de salvar mais pessoas e acabou se tornando mais uma vítima da tragédia da boate Kiss.

4) Matheus Rafael Raschen

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Matheus Rafael Raschen. | Foto: Reprodução.

A promessa do basquete universitário de Santa Maria tinha nome, sobrenome e sede de fazer o bem. Matheus Raschen, de apenas 20 anos, tinha uma longa história com o esporte e, para a surpresa de todos, iria trocar de vez a bola esportiva pela sala de aula na Federal de Santa Maria, assim que se formasse. Ele estava no último ano de Tecnologia de Alimentos.

Após conseguir se salvar do incêndio que ficava cada vez pior, com gritos pedindo socorro, fogo descontrolado, fumaça tóxica e cômodos sem saída de emergência aglomerando pessoas, umas em cima das outras, Raschen voltou a Kiss para tentar salvar a primeira pessoa caída que se mexesse. Entretanto, quando percebeu que iria sufocar e que não adiantaria puxar alguém vivo em cima de tantos corpos já sem vida, ele pediu ajuda, assim que resgatou uma vítima, para quebrar a parede de onde vinha os gritos – dos banheiros.

Infelizmente, o astro do basquete juvenil, assim como os demais que estavam apenas com a camisa seca sobre o rosto, ao martelarem as paredes para as pessoas conseguirem respirar ou “saírem de lá”, a fumaça tóxica que veio em seguida os dominou por completo, queimando as vias respiratórias e a parte superior do corpo que estava nu. “Somente um herói se sacrificaria em prol dos outros do que a si mesmo”, como diria sua mãe, que tem muito orgulho do filho que teve.

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Por Giovanna Vegas – Fala! FGV

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