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Beyoncé e a (IN) formação

Beyoncé e a (IN) formação

A nova música de Beyoncé, Formation, ainda ecoa na minha cabeça.
Não obstante em ostentar o título de artista afrodescendente mais bem sucedida da história dos Estados Unidos, ela decide se posicionar diante da indústria musical que permanece racista e machista.

https://vimeo.com/154783794

Há muito esperávamos que ela dissesse alguma coisa. Mas ela sempre disse, mesmo que silenciosamente. Foi assim com as Destiny’s Child, cuja composição de Independent Woman lhe rendeu notoriedade, assim como já aguçava nossa curiosidade sobre alguém que falava sobre a independência feminina lá no começo dos anos 2000 – uma mulher negra e empoderada, como pode?

Mais adiante protagonizava o clipe de maior destaque, talvez, da história das coreografias no YouTube: Single ladies foi certeiro no que dizia respeito às mulheres serem solteiras e lidarem muito bem com isso, ou melhor, tripudiarem em cima da falta de atitude masculina em colocar um anel na mão da mulher. Quem não se lembra de “Cause if you liked then you should have put ring on it“?

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Em 2008, ainda, lançou a música If I Were A Boy, onde descrevia o que faria caso fosse um homem: paqueraria as meninas, beberia todas e não seria julgado por fazer isso.

” I’d kick it with who I wanted, and I’d never get confroted for it, cause they’d stick up for me “.

Já neste momento, Beyoncé revelaria que é, sim, uma cantora a favor do feminino e das liberdades individuais da mulher. Questionar a masculinidade numa música single e cantar isso com veemência dentro do cenário pop não é fácil, mas ela o fez.

Em 2013, decide soltar um álbum surpresa e autointitulado. Papapum: rapidamente o CD se torna o primeiro a alcançar o topo de 108 países. Entra para o livro dos recordes com esse feito, trava a plataforma do ITunes, dá um soco na cara do machismo e coloca um discurso poderoso da nigeriana Chimamanda Ngozi na música Flawless. Um discurso feminista, interseccional, que põe o dedo na ferida da construção social voltada ao “mulheres foram feitas para casar, mulheres têm que brigar por homem, mulheres isso e aquilo”.

Neste álbum, ela também fala de sexualidade e da liberdade que a mulher tem em relação ao gostar de sexo. Em Partition, por exemplo, ela põe outro discurso, retirado do filme The Big Lebowski , que diz o seguinte: “Você gosta de sexo? Sexo, digo, a atividade física. Coito. Você gosta? Você não está interessado em sexo? Os homens pensam que as feministas odeiam o sexo, mas é uma atividade muito estimulante e natural, que as mulheres adoram.”

E agora, Formation, o primeiro single do que aparentemente pode ser a linha do seu próximo álbum, está repleto de denúncias. Para quem não sabe, nos últimos anos os Estados Unidos foram marcados por casos pontuais na dinâmica racista e segregacionista por parte dos policiais brancos sobre a população negra. Quem não se lembra do caso Michael Brown? Do caso Charleston, no qual um homem branco entrou numa igreja de comunidade negra e matou 9 pessoas? E do caso Sandra Bland? No clipe, Beyoncé faz analogia a essas ações ao se afundar no rio em cima de uma viatura de policia; bem como quando coloca uma criança negra dançando na frente de policiais brancos, fazendo-os de reféns num jogo onde o protagonismo negro é forte e pesado: mulheres negras, todas de afro, postas como rainhas. Herméticas, como donas do cenário, do dinheiro e do poder.

Ela, para sambar ainda mais na cara do racismo, deixa a mensagem “stop shooting us” no final do clipe, numa afronta clara e objetiva àqueles que não entenderam em qual século estamos. Ademais, solta um discurso poderoso, audiovisual e de resistência negra e, por que não dizer feminina, logo no mês em que se comemora a história negra e o início dos protestos por parte do grupo Panteras Negras, essenciais na luta pela democratização racial no início dos anos 1960.

Hoje, 2016, devemos agradecer por Beyoncé colocar o dedo na ferida mais dolorosa na história americana no que concerne à domesticação dos negros em locais marginalizados. Hoje, 2016, devemos ficar ainda mais atentos nos passos dessa mulher negra que, a duras penas, segue rumo àquilo que chamamos de lenda – se já não o é.

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Referências:
1 – O que aconteceu com New Orleans?
2 – Formation como continuação do álbum autointitulado BEYONCE
3 – Panteras Negras: história e curiosidade

Por: Igor Pires – Fala!M.A.C.K

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